Portal UFPR publica série “Leituras que formam”, sobre processo de escolha das leituras obrigatórias do Vestibular 2027 e importância das obras para a formação dos estudantes. Terceira reportagem trata das obras de referência da disciplina de Sociologia
Desigualdade social, gênero, racismo e trabalho são alguns dos temas do programa de prova de Sociologia do Vestibular UFPR. Assim como ocorre com Literatura Brasileira, Filosofia e a prova específica do curso de Música, a disciplina conta com uma lista de obras de referência que orienta a preparação dos candidatos para o processo seletivo.
A prova de Sociologia é composta por cinco das 80 questões da prova objetiva do vestibular. A intenção é avaliar a capacidade dos candidatos de interpretar fenômenos sociais apresentados nos enunciados a partir de conceitos e teorias, tanto clássicas quanto contemporâneas.
Mais do que compreender a sociedade, o estudo da Sociologia no ensino médio contribui para o desenvolvimento do pensamento crítico e da autonomia intelectual do estudante. Nesse processo, a lista de obras de referência serve como um ponto de partida para a construção de um repertório que favorece a formação de opiniões e análises, ao permitir relacionar os conceitos teóricos às dinâmicas da sua realidade.
Os professores do Departamento de Sociologia da UFPR, responsáveis pela seleção da lista de obras, procuram equilibrar textos clássicos e contemporâneos, que contemplam as temáticas selecionadas no programa de prova.
O campo da Sociologia clássica está representado por dois livros: “Um Toque de Clássicos: Marx, Durkheim, Weber”, uma obra introdutória da socióloga Tânia Quintaneiro que apresenta uma visão didática das bases da sociologia moderna; e “Clássicas do pensamento social: Mulheres e feminismos no século XIX”, que resgata a contribuição de mulheres para a formação das Ciências Sociais e amplia o olhar sobre os fundamentos da disciplina.
Os outros títulos, que são “Pacto da branquitude”, de Cida Bento, e as novidades da lista de 2027 “Quem tem medo do gênero?” (Judith Butler) e “Sobre o autoritarismo brasileiro” (Lilia Moritz Schwarcz), trazem ao vestibular temáticas atuais que refletem as transformações tanto na produção acadêmica quanto no debate público, como a imprensa e as redes sociais.
“São temas que atravessam a Sociologia porque também atravessam a própria sociedade”, afirma o professor Rodrigo Czajka, que atua na elaboração do programa de prova. “Essa ciência, como disciplina, deve estar concatenada com as mudanças sociais do seu próprio tempo. Isso faz a Sociologia ser o que ela é”.
Segundo o docente, o equilibro da lista é construído na medida em que os chamados textos clássicos seguem relevantes por terem fornecido todo o aparato teórico-metodológico para a construção do pensamento sociológico, enquanto as produções mais recentes dialogam com os debates atuais.
“Temos toda uma abordagem histórica, que chamamos convencionalmente de clássicos, mas temos também um debate contemporâneo que atualiza essas obras a partir de uma perspectiva de olhar para o presente e analisá-lo a por meio desses clássicos, e também mostrando até que ponto eles podem ser atualizados”, afirma Czajka.


Na preparação da prova, os docentes têm como objetivo que o candidato leia a questão e reflita sobre a situação apresentada. De acordo com Czajka, não é esperado que os vestibulandos tenham um conhecimento pleno da teoria sociológica. Por isso, quando o enunciado é elaborado, é levada em consideração a compreensão crítica que eles podem ter da sua própria realidade social.
“Não se trata de decorar, memorizar conceitos e depois repeti-los na prova, esperando encontrá-los nas respostas para ter chance de acerto”, explica. “Tem a ver com o entendimento da passagem selecionada, do enunciado e do comando na escolha da resposta certa, sempre levando em consideração os problemas sociais que fundam a área, que organizam a área como um problema de percepção”.
Essa proposta se reflete nos temas previstos no programa da prova. Questões como desigualdades sociais, mudanças sociais, dinâmica política do Estado e diversidade cultural são consideradas essenciais para que o vestibulando compreenda e participe dos debates e desafios da sociedade contemporânea, marcada pela globalização, pelos avanços tecnológicos e pelas desigualdades sociais.
O desenvolvimento dessa compreensão crítica é favorecido pela própria disciplina de Sociologia no ensino médio e pode beneficiar também o desempenho em outras matérias e a formação do estudante como cidadão. Czajka conta que há pesquisas de pós-graduação feitas na UFPR que indicam que a Sociologia auxilia os alunos na construção do pensamento crítico e na sua organização, o que contribui, inclusive, na elaboração de redações dos vestibulares e do Enem. Para o professor, isso reforça a importância da disciplina na educação básica.
“A formação de uma reflexão, de um olhar crítico sobre a realidade, de autonomia intelectual e de uma perspectiva crítica de emancipação política, social e cultural, sempre foi favorecida pela Sociologia no ensino médio”, diz. “Essa etapa é um momento da adolescência de construção de opinião, argumentos e de visão de mundo, que muitas vezes vão fundar toda a vida do sujeito adulto”.
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