Portal UFPR publica série “Leituras que formam”, sobre processo de escolha das leituras obrigatórias do Vestibular 2027 e importância das obras para a formação dos estudantes. Nesta segunda reportagem, abordamos a lista das obras literárias
A divulgação da lista das obras literárias do Vestibular da Universidade Federal do Paraná (UFPR) é sempre um dos momentos mais aguardados pelos vestibulandos e professores de literatura. Aulas sobre os livros cobrados são planejadas, as bibliotecas separam os títulos para empréstimo e rodas de conversa ocorrem nos cursinhos e Casas de Leitura da cidade até a data da prova.
A lista das obras é definida pelos professores de Literatura da universidade. Todos os anos, os docentes se reúnem para avaliar a seleção do processo seletivo anterior e pensar em possíveis mudanças.
Assim como nas outras disciplinas que possuem obras de referência, a definição da lista de Literatura Brasileira se guia por uma série de critérios. A professora Milena Ribeiro Martins, do Departamento de Literatura e Linguística (Dellin), explica que a escolha das obras busca ao mesmo tempo dialogar com o cânone escolar e propor novidades a ele.
“Procuramos incluir livros antigos e atuais, escolhendo textos que sejam importantes para a história da literatura, que sejam relevantes para a compreensão da nossa sociedade e que sejam legíveis por estudantes do ensino médio”, afirma.
A lista contempla uma variedade de linguagens e de gêneros literários, havendo textos narrativos, poéticos e dramáticos. Segundo a docente, apesar da importância das crônicas, elas não costumam estar entre as obras escolhidas, já que um mesmo livro desse gênero contém dezenas de textos diversos.
A disponibilidade das obras influencia a elaboração da lista, mas não determina a sua composição. Milena conta que, apesar de fatores como a falta de reedições e os altos preços de alguns títulos pesarem na escolha, os docentes não restringem a seleção a livros em domínio público.
“A formação do leitor no ensino médio precisa de variedade, que não pode ser alcançada apenas com livros antigos. Ao vestibular, não cabe fornecer os livros: eles podem e devem ser demandados a outras instâncias: bibliotecas públicas e bibliotecas escolares são equipamentos culturais da maior importância social, podem mesmo ser silenciosamente revolucionárias, mas são frequentemente negligenciadas”, diz.
Como mostrado na primeira reportagem da série Leituras que formam, a atualização da lista se dá por uma série de critérios. Entre eles, estão a limitação de questões sobre um título que podem ser feitas nesse nível de ensino e os novos debates e transformações que acompanham tanto o ambiente acadêmico quanto a sociedade como um todo.
Sobre essas mudanças, Milena Martins destaca que, de modo geral, todas as escolhas são feitas por um grupo dotado de um certo repertório e guiado por alguns parâmetros, os quais nem sempre atendem aos gostos e interesses de toda a sociedade. Cada título escolhido após uma reformulação da lista representa um critério e um contexto, que podem vir a partir de um movimento de discussões. Ela relembra que houve listas do Vestibular da UFPR sem um único livro de autoria feminina, e cita ainda o exemplo da Fuvest, cuja lista atual reúne apenas obras de autoras, em uma decisão que gerou elogios e críticas.
Para a professora, esse processo de escolha também faz do vestibular um importante elo entre a universidade e a educação básica.
“Os vestibulares sérios ajudam a transformar o ensino, propõem questões para o ensino, participam (ainda que limitada e ocasionalmente) do que se faz nas escolas de ensino médio”, afirma. “A universidade tem a intenção de estar em diálogo com a educação e de ajudar a fazer certas escolhas textuais”.

Como nos vestibulares anteriores a lista de Literatura Brasileira teve como novidades os livros contemporâneos O Sol na Cabeça e O Drible, no Vestibular 2027 os docentes optaram por inserir livros mais antigos e com grande fortuna crítica: um texto teatral do século XIX (O demônio familiar), um livro de poemas do início do século XX (Eu) e um romance de 1930 (O quinze).
A variedade de livros de diferentes épocas permite que os vestibulandos se aproximem de temas e linguagens atuais, ao mesmo tempo em que construam um repertório cultural de obras significativas da literatura. Esses títulos também propiciam, por meio da leitura, a fruição, o desenvolvimento do pensamento crítico e um maior conhecimento da língua, da cultura e da sociedade em que eles vivem, reforçando a formação dos estudantes do Ensino Médio, para além de seu papel no vestibular.
“A complexidade social pode ser sentida no presente, mas sua compreensão será mais profunda por meio do conhecimento histórico e cultural que não pode ser reduzido a memes nem resumido em vídeos de 15 segundos”, diz Milena Ribeiro Martins. “A dedicação e a atenção demandadas pelas obras literárias são distintas da velocidade e repetição de outras produções culturais, mais contemporâneas”.
Nesse contexto, a docente destaca que o estudo do passado é uma forma de compreender o presente e que a Literatura, assim como a História e a Sociologia, contribui para esse processo, mas por meio de uma linguagem distinta, característica de sua natureza artística.
“Por meio da Literatura, essa apreensão do passado é perpassada pela sensibilidade, pela fabulação, pela criticidade que não tiveram compromisso com o registro e análise de acontecimentos históricos, mas com a apreensão sensível e a representação poética ou ficcional dos mundos criados por indivíduos que também fizeram parte do passado, que foram testemunhas e agentes”, explica. “Ela tem uma linguagem própria, cujo conhecimento é construído social e educacionalmente”.



As questões que aparecem na disciplina de Literatura Brasileira do Vestibular da UFPR estão alinhadas com o que se espera de um estudante do Ensino Médio, a partir de diretrizes estaduais de educação e da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Com base nesses documentos, a Literatura é entendida como um recurso para ampliar o conhecimento linguístico, histórico e social dos estudantes.
De acordo com o programa oficial de prova do Vestibular 2027 da UFPR, “os textos serão abordados em função de seu momento cultural, sua situação na história da literatura brasileira e sua realização enquanto obra de arte literária”. A prova busca avaliar as habilidades dos estudantes colocadas em prática na leitura das obras, como a compreensão e análise dos textos em uma variedade de gêneros literários e o conhecimento do contexto histórico, social, cultural e estético no qual cada obra está inserida.
Milena Ribeiro Martins destaca que, para o estudo das obras para o processo seletivo, a leitura integral dos títulos é fundamental. Aulas de literatura e o diálogo sobre os livros são recursos formadores que auxiliam a compreensão e a fixação.
“Creio que o estudante que tiver familiaridade com a linguagem literária, que tiver um bom repertório de leitura de Literatura não terá dificuldades na leitura desses títulos”, afirma. “As eventuais dificuldades podem e devem ser superadas por meio da aprendizagem sobre a Literatura e seu contexto, mas essa aprendizagem é complementar à leitura: ela não substitui a leitura, mas a torna mais profunda e significativa”.
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