Fachada do Setor de Ciências Sociais Aplicadas. Acervo UFPR

Setor de Ciências Sociais Aplicadas comemora 80 anos de ensino, transformações e vínculos 

10 setembro, 2026
17:57
Por Luana Lopes
Ensino e Educação

Docentes e técnicos-administrativos compartilham memórias que ajudam a revelar as mudanças e os laços construídos no Setor ao longo das décadas 

Nesta sexta-feira (11), o Setor de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal do Paraná (SCSA-UFPR) encerra as comemorações do seu Jubileu de 80 anos. Ao longo dessas oito décadas, o Setor construiu uma trajetória marcada pela formação de gerações de profissionais, pela produção e disseminação do conhecimento e pela transformação, acompanhando as mudanças da sociedade e contribuindo para a construção de novos futuros. 

O começo deste percurso foi no início de 1945, quando um decreto federal autorizou a criação do Curso Superior de Administração e Finanças, da Faculdade de Administração e Finanças do Paraná. A sede foi instalada no Prédio Histórico da UFPR, na Praça Santos Andrade, no dia 22 de setembro do mesmo ano.  

Um ano depois, com o início do curso de Ciências Econômicas, a faculdade passa a se chamar Faculdade de Ciências Econômicas. Em 1969, já contando com o curso de Ciências Contábeis e estando instalada no prédio Dom Pedro II, da Reitoria, se torna a Faculdade de Economia e Administração (FEA). 

A denominação atual veio em 1973, após a UFPR reorganizar o seu modelo administrativo, que passava a organizar os cursos e as faculdades em setores. No início, o Setor de Ciências Sociais Aplicadas tinha os cursos de Administração, Ciências Contábeis, Ciências Econômicas e Direito. Na década de 80, o curso de Direito saiu do SCSA, e em 2001 foi integrada ao Setor a recém-criada graduação em Gestão da Informação. A mudança para a sede atual, no Campus Botânico, foi efetivada em 2002. 

O slogan escolhido para as comemorações do Jubileu foi “Da praça ao jardim: 80 anos cultivando saberes e futuros”. Para o atual diretor do SCSA, Rodrigo Botelho, além de fazer referência às sedes que o Setor já teve, a frase também representa o compromisso com o protagonismo e a inovação que foram marcas dessa trajetória e que continuará nos próximos anos. 

“O Setor não apenas acompanhou as mudanças do país. A gente propôs caminhos, criou cursos e programas onde não havia, mudou de endereço, de currículo, de tecnologia e de geração, sem perder nossa vocação”, afirma. “É por isso que o slogan fala em cultivar saberes e futuros, no plural. A trajetória não se comemora como encerramento, mas como aquilo que autoriza a propor o que vem agora”

As comemorações começaram no ano passado, quando o SCSA completou os 80 anos. De acordo com a vice-diretora do Setor, Queila Regina Souza Matitz, a série de eventos nos últimos meses contribui para a preservação e construção da memória institucional e também para fortalecer os vínculos entre as pessoas que fazem parte dessa história. 

“É bem significativo verificar o quanto o Setor e suas histórias, as relações que se estabelecem, são marcantes na vida das pessoas. Esse ano de comemorações também tem como objetivo manter esses laços presenciais, essas relações que ficaram mais frágeis, mais fluidas depois da pandemia. Não apenas estamos comemorando o passado, mas também estamos deixando marcos para o futuro”, diz. 

Para celebrar o Jubileu de 80 anos do SCSA, o Portal UFPR reúne as histórias de seis personagens que vivenciaram diferentes momentos dessa trajetória e cujas memórias ajudam a revelar as transformações do Setor ao longo das décadas. 

As memórias de quem viu o Setor mudar 

Em oito décadas de história do Setor de Ciências Sociais Aplicadas, 38 anos foram acompanhados de perto pelo técnico-administrativo em educação Edson Luiz Esmanhotto. O servidor presenciou uma série de transformações e mudanças e guarda com carinho as memórias desse período. 

Edson Luiz começou a trabalhar na UFPR aos 18 anos, como desenhista da Seção de Mecanografia, quando o SCSA ainda estava no Campus Reitoria. Na época, a produção de provas e documentos ainda passava por processos manuais. 

“Não tinha xerox, tinha o estêncil. Nós tínhamos um lacre com um carimbo, você derretia um produto, uma coisa meio medieval assim”, brinca, “e colocava aquele carimbo com o brasão da Universidade Federal em cima desse produto que era avermelhado. Então as provas eram lacradas”

Após uma reclassificação de cargos, Edson passou a ser assistente administrativo e teve uma série de atribuições: foi responsável pelos Laboratórios de Informática e pelo Auditório Ulysses de Campos, prestou atendimento e suporte na direção do Setor e foi membro da Comissão de Acompanhamento de Obras durante a construção do Campus Botânico, além de exercer funções pontuais, como apoio na Seção de Patrimônio e mesário nas eleições do SCSA. 

Sobre esse percurso de quase quatro décadas, Edson tem muita história para contar. Ele se recorda do primeiro computador que chegou no Setor, além do primeiro fax. Também há “causos” mais diferentes, como a vez que ele precisou conter um aluno que tentou levar a urna das eleições setoriais por conta de um protesto do movimento estudantil ou do caso das funcionárias da limpeza que viam fantasmas. Entre tantas lembranças, também está a percepção sobre as mudanças no perfil dos estudantes que passaram pelo SCSA ao longo das décadas. 

“Quando eu entrei na década de 80, a maioria era de alunos homens. Na década de 90, começou a aumentar o número de mulheres nos cursos, até que aos poucos começou a ser meio a meio”, conta. “Depois de 2010, quando começaram as cotas, vimos a quantidade de alunos negros aumentar, depois alunos de origem indígena, e também alunos de escolas públicas entrando numa quantidade maior. Então, a gente vê essa transição. Vão passando as décadas e vamos vendo essa mudança ocorrendo na universidade.” 

Mas o que mais marcou Edson nessa trajetória foi o convívio, a amizade e o aprendizado mútuo entre as pessoas que passam pelo Setor, entre alunos, docentes, técnicos administrativos e terceirizados. “Nós acabávamos sempre tendo essa energia positiva dentro do Setor, de você chegar para trabalhar e nunca chegar desanimado, triste”. 

Em 2023, Edson Luiz deixou o SCSA ao pedir transferência para o Centro de Atenção à Saúde Mental (Casa 4), que ficava no caminho de sua casa após uma mudança de bairro. A experiência, no entanto, não significou um afastamento definitivo. Os vínculos construídos ao longo de quase quatro décadas fizeram com que surgisse a possibilidade de seu retorno ao Setor nos próximos meses, para encerrar a carreira no mesmo lugar em que ela começou. 

“Entrei nos Sociais Aplicados e vou me aposentar pelos Sociais Aplicadas… Acho que ficaria legal isso”, afirma. “Minha intenção não é me aposentar ainda já, é continuar mais uns anos ainda, contribuindo. E lá no Setor, se der certo o meu retorno”.

Entre a gestão e a sala de aula 

O professor José Henrique de Faria tem uma rica trajetória de 40 anos na UFPR, desde seu ingresso em 1986 como professor do Departamento de Administração Geral e Aplicada (DAGA), passando pelo cargo de reitor de 1994 a 1998 e seguindo hoje como professor sênior no Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Entre suas muitas contribuições para o SCSA, está sua atuação na criação do Programa de Pós-Graduação em Administração, na construção do Campus Botânico, na implantação de uma nova fórmula de distribuição orçamentária e na reformulação do currículo do curso de Administração. 

As tratativas que levaram à ocupação do Campus Botânico começaram quando Faria era pró-reitor de Planejamento, Orçamento e Finanças na gestão do professor Carlos Alberto Faraco (1990-1994) e se estenderam no seu período na Reitoria. O docente conta que, em um momento de muitos desafios orçamentários, conseguiu angariar recursos pela bancada de deputados do Paraná. 

“Foi uma ocupação daquele espaço do Botânico que não tinha nada, então era um espaço vazio”, relembra. “Nós tínhamos uma disputa com a Previdência por aquele terreno, nós ganhamos, o terreno passou a ser de propriedade da universidade e construímos os prédios lá. Uma lembrança importante foi a construção do prédio das Sociais Aplicadas”. 

Durante o período na Reitoria, por conta da agenda corrida, Faria não conseguiu continuar as aulas na graduação, mas não deixou de lecionar. Para manter suas turmas de mestrado, ele precisava de flexibilidade e frequentemente agendava aulas aos sábados, passando o dia todo com os alunos na Fazenda Canguiri. Esse esforço pela docência foi e continua sendo marca do ex-reitor. Um momento marcante de sua trajetória no SCSA foi o discurso que fez como paraninfo de uma turma de Administração, no Teatro da Reitoria. 

“Eu me emocionei muito porque eu já tinha entrado naquele auditório para fazer pronunciamento do sindicato, de greve, já tinha estado lá como reitor, mas aquele momento ali de ser paraninfo, ser padrinho de uma turma, para mim era o mais significativo da minha vida, que é ser o que eu sou: professor”. 

Faria continuou atuando no PPGADM-UFPR, onde esteve até 2020, e segue até hoje lecionando no PPGPSI da UFPR e na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), como professor visitante, além de seguir pesquisando e participando de eventos acadêmicos. “Eu gosto de dar aula, gosto de estar na sala com os alunos, gosto de discutir, gosto de escrever, gosto de estudar. Eu continuo porque é aquilo que eu gosto de fazer, me faz sentir vivo e parte da vida em sociedade”.

Novos caminhos e novas presenças na Economia 

Ao longo de 35 anos na Universidade Federal do Paraná, a professora Ana Lúcia Jansen de Mello de Santana acompanhou e participou de diferentes momentos da história do Setor de Ciências Sociais Aplicadas, entre a sala de aula, a gestão universitária e projetos de ensino e extensão.  

Formada em Ciências Econômicas pela própria UFPR em 1974 e em Direito pela Faculdade de Direito de Curitiba, Ana Lúcia ingressou na carreira docente da instituição em 1982, após uma passagem pelo mercado privado. Mais tarde, concluiu mestrado em História na UFPR e passou a lecionar, durante grande parte da carreira, disciplinas relacionadas à formação histórica do economista. Também ocupou diferentes funções administrativas, dedicando mais da metade de seu tempo na instituição à gestão, incluindo a direção da Fundação da Universidade Federal do Paraná (Funpar) e a Chefia de Gabinete da Reitoria, durante a gestão do reitor Zaki Akel Sobrinho. 

“Foi um momento muito rico para que eu pudesse conhecer por inteiro a instituição, porque aí você está falando com todos os setores, departamentos, lideranças, gestores da universidade”, relembra.  

Foi a partir dessa experiência e da observação de uma lacuna na formação dos economistas que Ana Lúcia voltou sua atenção para o Terceiro Setor. Ela conta que que, quando voltou para a sala de aula, percebeu que na formação de Economia não se estudava sobre essas organizações. Assim, criou o Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre o Terceiro Setor (NITS), no SCSA, que coordenou durante 17 anos. O grupo ampliou o debate para além do curso de Economia e reuniu estudantes de diferentes áreas. 

“O grande impacto desse núcleo foi a formação de uma geração de profissionais que abraçaram essas organizações como um grande mercado de trabalho para profissionais de diferentes áreas”, afirma. “Não só na comunicação social, mas economistas, administradores, advogados, contadores”. 

A experiência com o Terceiro Setor também levou a professora a desenvolver projetos relacionados aos negócios de impacto social. Em um concurso nacional promovido pelo Sebrae, a equipe da UFPR venceu com um projeto voltado à área. O trabalho teve como um de seus pontos altos a vinda a Curitiba do professor Muhammad Yunus, vencedor do Prêmio Nobel da Paz, para um congresso realizado no Teatro Guaíra. Na ocasião, Yunus recebeu o título de Doctor Honoris Causa da UFPR em uma cerimônia que lotou o teatro no feriado de 1º de maio. O evento é uma das memórias mais marcantes de Ana Lúcia com o Setor. “Ninguém apostava que isso fosse acontecer, mas aconteceu, foi magnífico”, recorda.   

Ana Lúcia Jansen também foi coordenadora do curso de Ciências Econômicas, momento em que liderou uma avaliação pioneira do currículo junto a órgãos e entidades do mercado. Durante os anos de sua trajetória na universidade, viu momentos importantes: a criação dos programas de pós-graduação no Setor e também o crescimento da presença de mulheres nos cursos e nos espaços de liderança, movimento que considera uma das transformações marcantes do período. 

“Quando eu ingressei no quadro de professores, nós éramos quatro professoras no corpo docente da Economia, o que não era muito diferente nos demais departamentos do Setor”, conta. “O que eu pude constatar ao longo de 35 anos foi o crescimento da participação das mulheres, das docentes, pesquisadoras, pessoas altamente influentes nas suas áreas de atuação e com formações tão profundas quanto aquelas que os professores homens estavam adquirindo há mais tempo”. 

As experiências administrativas e a formação em História foram responsáveis pela visão de Ana Lúcia da importância em compreender e registrar a trajetória institucional. Ela foi uma das autoras do capítulo introdutório do livro dos 75 Anos do Curso de Ciências Econômicas, que resgata a história da graduação na UFPR. Ana Lúcia escreveu o texto em coautoria com o seu marido, o também professor e ex-diretor do SCSA Luiz Vamberto de Santana, falecido no ano passado. A publicação está disponível na página do Setor. 

Formando gerações de contadores e professores 

Neste ano, o Conselho Regional de Contabilidade do Paraná (CRC-PR) inaugurou a inciativa “Ao Mestre, com Carinho”, dedicada a profissionais que marcaram gerações de estudantes e colaboraram com o fortalecimento da formação contábil. O primeiro homenageado foi o professor Vicente Pacheco, que há quase 40 anos segue contribuindo para o desenvolvimento do curso de Ciências Contábeis e do Setor de Ciências Sociais Aplicadas da UFPR. 

Sua ligação com a universidade antecede a trajetória profissional: Pacheco é sobrinho-neto de Ana Pacheco, esposa de Victor Ferreira do Amaral, um dos fundadores da UFPR. Em 1988, quando era docente na Faculdade de Administração e Economia (atual FAE), recebeu um convite para atuar como professor temporário por três meses, pois o então Departamento de Contabilidade da UFPR queria contar com sua contribuição na elaboração de um novo modelo de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). No ano seguinte, com a abertura de concursos na instituição, Pacheco ingressou como professor na área de auditoria. 

Durante sua trajetória na universidade, o docente acompanhou de perto a consolidação do curso, inclusive a mudança da Reitoria para um espaço maior no Campus Botânico. Pacheco conta que, quando ingressou na UFPR, o departamento tinha cerca de 14 professores, a maioria sem dedicação exclusiva. Além disso, os docentes que eram mestres ou doutores haviam realizado a pós-graduação em instituições de outros estados. Com a ampliação da oferta de programas de pós-graduação pela UFPR e o processo de qualificação do departamento, Pacheco e outros professores iniciaram um movimento para criar o curso de mestrado em Contabilidade. 

“Em 2005, nós começamos a oferecer o curso de mestrado, que fez uma diferença muito grande no curso de Ciências Contábeis. Praticamente 10 anos depois, o curso tinha atingido a nota cinco e aí nós preparamos um projeto para doutorado, e fomos vitoriosos”, relembra. “Nós formamos muitos professores com mestrado e doutorado na área contábil que estão espalhados pelo Brasil hoje. Então isso para nós é um motivo de orgulho”. 

Além da docência, Vicente Pacheco exerceu os cargos de chefe de departamento e coordenador do Programa de Pós-graduação em Contabilidade. A experiência administrativa se consolidou quando exerceu os cargos de vice-diretor do SCSA, acompanhado do professor Zaki Akel Sobrinho, e na sequência o de diretor do Setor de 2009 a 2013. 

Quando Pacheco esteve à frente do SCSA, o Setor já havia se mudado para o Campus Botânico. Ele recorda a mudança como um momento de transformação: “Era como se você saísse de uma cidade pequena e fosse para a capital”. Na sua gestão, as instalações foram ampliadas, passando a acomodar melhor os quatro cursos, por meio de recursos do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). 

“O SCSA soube utilizar os recursos do Reuni. Aumentamos a quantidade de salas, fizemos um anexo no nosso prédio, conseguimos o restaurante universitário (RU) e umas instalações fora do nosso prédio, para os diretórios acadêmicos”, afirma o docente. 

Quase 40 anos após seu ingresso na instituição, Vicente Pacheco segue como professor ativo da graduação e da pós-graduação, mas pretende se aposentar no ano que vem. O docente relembra com carinho as homenagens que recebeu, as centenas de estudantes que ensinou e orientou e os professores que ajudou a formar e que hoje seguem suas próprias trajetórias. Para ele, esse percurso representa um legado do departamento que se reflete na formação de novos docentes e pesquisadores. 

“Nós tivemos, formamos muitos professores com mestrado e doutorado na área contábil que estão espalhados pelo Brasil hoje. Então isso para nós é um motivo de orgulho”, diz. “E vejo que isso para mim também é um exemplo para os mais novos, de verem a gente na ativa, se dedicando, publicando, recebendo homenagem. Acho que nós deixamos esse legado”. 

Um curso novo para um novo perfil profissional 

O “caçula” do Setor de Ciências Sociais Aplicadas da UFPR é o curso de Gestão da Informação, integrado ao SCSA em 2001. Pioneiro no Brasil, a implantação deste bacharelado na instituição foi possível após a superação de muitos desafios e participação ativa dos docentes, entre eles a professora Helena de Fátima Nunes Silva. 

Helena ingressou na UFPR em 1990, como docente do antigo curso de Biblioteconomia, que fazia parte do então Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes. Nos anos finais da década de 90, o departamento começou a pensar em uma reforma curricular, que buscava se adequar às exigências do mercado e à baixa procura pela graduação. Após muitos estudos, os docentes perceberam que, mais do que uma alteração no currículo, era necessária a criação de um novo curso. 

“Como era um curso interdisciplinar, na época chamavam multidisciplinar, precisávamos inclusive mudar as características do corpo docente, calcado principalmente nos três pés do curso, que são ciência da informação, gestão e tecnologia”, relembra Helena Nunes. 

Para adaptar o perfil dos professores a essa multidisciplinaridade, investiram na capacitação do quadro existente e direcionaram novas vagas de concursos para atrair especialistas em gestão e tecnologia da informação. Os desafios, porém, não pararam por aí. A proposta de extinção do curso de Biblioteconomia enfrentou resistência do conselho profissional da área e, posteriormente, veio a mudança do novo curso para o Setor de Ciências Sociais Aplicadas. 

A escolha pelo SCSA, segundo Helena, estava relacionada justamente ao caráter interdisciplinar da nova graduação e à proximidade com as áreas de Administração, Contabilidade e Economia: “Já que era um curso de gestão, solicitamos a mudança para o SCSA. Tem Administração, que trabalha as questões de gestão; a Contabilidade, de certa forma, também trabalha com gestão e com informação contábil; e a Economia se relaciona no sentido de a gente entender que a informação é também um poder.”  

Para Helena, mesmo com as dificuldades de adaptação de um novo curso no Setor, que havia acabado de se mudar para o Campus Botânico, a aproximação com essas três áreas também abriu espaço para uma troca de conhecimentos que contribuiu para a construção do novo curso: “Sentimos que era possível tanto ajudar como receber ajuda deles”. 

A contribuição da professora Helena ao curso foi além de sua implantação. Durante sua carreira na universidade, foi coordenadora da graduação, chefe do Departamento de Ciência e Gestão da Informação e atuou diretamente na reestruturação e aprovação da proposta do Programa de Pós-Graduação em Gestão da Informação junto à CAPES.  

A experiência acumulada ao longo dessa trajetória também influenciou sua maneira de compreender o papel do professor e enxergar a docência por um lado mais pedagógico e humano, o que a motivou a continuar como professora sênior da universidade até 2024, mesmo após sua aposentadoria. 

“É uma coisa que eu acho que dá certo no ensino, tentar ver o que faz sentido para as pessoas. Como orientadora, creio que isso sempre deu muito certo, respeitar os alunos, respeitar o que eles querem”, afirma. “Eu acho que esse é o maior legado de um professor: você ajudar as pessoas a quererem aprender, achar que o conhecimento é algo que você não precisa sofrer para isso, que é importante para as nossas vidas”. 

O Setor feito de pessoas e vínculos 

A relação da técnica-administrativa em educação Mônica Cristofoletti Budni com a Universidade Federal do Paraná começou ainda na infância. Filha de uma funcionária do Complexo do Hospital de Clínicas (CHC), ela frequentava o hospital desde os cinco anos de idade, acompanhando a mãe durante o trabalho. Anos depois, em 1990, iniciou ali sua própria trajetória profissional, contratada pela Funpar. 

Durante os 27 anos em que trabalhou no HC, Mônica atuou nos Recursos Humanos, chegando à direção da área, e posteriormente na Assessoria de Comunicação. Em 2017, solicitou transferência para o Setor de Ciências Sociais Aplicadas, onde passou a atuar na coordenação do curso de Administração. 

A mudança representou um desafio para quem havia construído praticamente toda a carreira no CHC. “Você vem com medo, com insegurança, né?’”, recorda. “Mas eu fui muito bem recebida aqui, muito bem acolhida e aos poucos você vai desenvolvendo novamente todo esse sentimento de pertencimento e de vínculo”. 

A aproximação com o Setor, no entanto, começou antes da transferência. Mônica já havia construído parte importante de sua trajetória acadêmica no SCSA: formou-se em Administração Pública, realizou três pós-graduações no Centro de Pesquisa e Pós-Graduação em Administração (Cepad) e, depois de ingressar no Setor, concluiu o mestrado profissional no Programa de Pós-Graduação em Gestão de Organizações, Liderança e Decisão (PPGOLD).

Mônica (à frente da foto) junto com colegas do SCSA. Foto: arquivo pessoal

Hoje, Mônica Budni atua na coordenação do curso Administração, em um trabalho que envolve processos administrativos, atendimento e orientação aos estudantes. O acolhimento aos estudantes é uma das coisas que ela mais valoriza na função:  

“Eu gosto de ajudar, dar o caminho”, diz. “A gente precisa prestar informação com qualidade, dar um acolhimento. Primeiro para que eles permaneçam no curso, para que não desistam. Sempre damos também uma mensagem de otimismo”. 

Próxima da aposentadoria, após 36 anos de serviço, Mônica ainda pretende permanecer na universidade por mais algum tempo. O ambiente de trabalho, os colegas e a vontade de contribuir para as melhorias em andamento estão entre as razões para continuar, além de querer seguir contribuindo com as novas gerações. “O nosso trabalho aqui também contribui para formar cidadãos, para formar profissionais de qualidade para a sociedade. Eu acho que isso vem acima de tudo!”, enfatiza.

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