Nicolau Flores, importante liderança do povo indígena Kinikinau. Foto: Aila Vilella (2022)

Quatro pesquisas da UFPR estão entre os destaques do Prêmio Capes de Tese 2026

10 setembro, 2026
07:57
Por Bruna Soares
Ciência e Tecnologia

Pesquisas desenvolvidas em diferentes áreas do conhecimento pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) estão entre os trabalhos reconhecidos pelo Prêmio Capes de Tese – Edição 2026. O resultado abrange trabalhos nas áreas de Antropologia e Arqueologia, Engenharia de Bioprocessos e Biotecnologia, Engenharia Química e Bioquímica. O resultado preliminar foi divulgado dia 27 de agosto, e após o período recursal, a Capes publicou nesta quarta-feira (9) o resultado final. 

Os quatro pesquisadores da UFPR reconhecidos são:

Terra, território e a trajetória do povo Kinikinau

Para Aila Villela Bolzan, o reconhecimento da tese representa uma conquista coletiva. A pesquisa foi construída em diálogo com pessoas e famílias Kinikinau – povo indígena de origem Aruak que habita o estado de Mato Grosso do Sul.  O trabalho foi realizado ao longo de anos, em diferentes territórios da região sul do Pantanal sul-mato-grossense.

A tese aborda os desterros e os modos Kinikinau de fazer a terra, considerando a agência e a inventividade deste povo indígena para tornar possível sua vida e sua continuidade.  O trabalho também revisita categorias atribuídas aos Kinikinau pelo indigenismo brasileiro, como “terenizados”, “desaparecidos” ou “extintos”.

A pergunta central da tese parte da relação dos Kinikinau com a terra diante de um histórico de desterros e dispersão territorial. A pesquisadora acompanha experiências de famílias com as quais mantém relações há anos, acompanhando deslocamentos forçados, conflitos territoriais e a luta pela permanência e pelo reconhecimento do território.

“Ter o reconhecimento deste trabalho não é algo somente meu ou do PPGAA, é também a comunidade Kinikinau e das várias pessoas e famílias que ao longo de anos foram construindo a pesquisa junto comigo”, disse Aila Vilella. 

Entre os próximos passos de Ailla estão a publicação de partes da tese em revistas acadêmicas ou a transformação do trabalho em livro. A pesquisadora também segue envolvida com demandas da comunidade Kinikinau e com atividades relacionadas ao território.

Bioplástico e economia circular

A tese de Ariane Fatima Murawski de Mello, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Bioprocessos e Biotecnologia, tem como foco a produção e recuperação de polihidroxibutirato (PHB), um bioplástico biodegradável. 

A pesquisa foi pautada pelo conceito de economia circular e incluiu o desenvolvimento de um processo completo, desde a fermentação até a recuperação e purificação do material. A proposta considera ainda a possibilidade de integração da produção do bioplástico a processos já existentes em biorrefinarias de etanol de primeira geração.

A preocupação com a sustentabilidade esteve na origem da pesquisa. Para Ariane, embora os plásticos sejam indispensáveis em diferentes atividades cotidianas, os materiais convencionais apresentam problemas relacionados à persistência no meio ambiente. O PHB estudado na tese apresenta como característica a biodegradabilidade.

“Acredito que representa uma grande conquista pessoal diante do esforço e dedicação que eu tive durante o período do doutorado. É uma honra muito grande ter esse reconhecimento em nível nacional”, pontua Ariane. 

Ariane também destaca a trajetória acadêmica construída na UFPR. Ela ingressou na Universidade ainda na graduação, em 2015; seguiu para o mestrado, em 2021; e chegou ao doutorado em 2022. Segundo a pesquisadora, o programa de pós-graduação, que possui conceito 7 na avaliação da Capes, teve contribuição importante para o desenvolvimento da pesquisa.

O trabalho também deu origem a uma nova linha de pesquisa. Atualmente, pelo menos três pessoas desenvolvem projetos relacionados aos resultados obtidos durante o doutorado.

“A pesquisa continua! Começamos uma linha de pesquisa a partir do meu trabalho e hoje, pelo menos 3 pessoas estão trabalhando em projetos paralelos que surgiram do meu doutorado”, afirma. 

Resíduos da indústria e materiais mais sustentáveis

A Menção Honrosa recebida por Giulia Herbst, do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Química, reconhece uma pesquisa desenvolvida em parceria entre a UFPR e a Universitat de Girona (UdG), na Espanha. O trabalho investiga o uso de biomassa lignocelulósica, incluindo resíduos da indústria de papel e celulose, no desenvolvimento de biocompósitos poliméricos com matriz de poliácido láctico (PLA).

A pesquisa analisou como diferentes tratamentos e modificações das fibras e das frações de lignina influenciam a estrutura, o processamento e as propriedades dos materiais. A proposta parte do aproveitamento de resíduos como componentes de materiais de maior valor agregado e da busca por alternativas aos polímeros de origem fóssil utilizados pela indústria.

A escolha do tema surgiu do interesse em desenvolver materiais mais sustentáveis. A pesquisadora explica que, embora o PLA seja produzido a partir de fonte renovável e seja biodegradável em condições específicas, apresenta limitações que restringem algumas aplicações. A utilização de fibras lignocelulósicas como reforço busca melhorar propriedades mecânicas e de processamento.

“Receber uma Menção Honrosa no Prêmio Capes de Tese representa, para mim, um reconhecimento muito especial de um trabalho construído ao longo de vários anos, com muita dedicação, aprendizado e grandes desafios”, relata Giulia Herbst. 

Para Giulia, o reconhecimento também tem um significado especial por ser a primeira aluna do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Química da UFPR a receber o prêmio. 

Giulia iniciou sua relação com a Universidade no mestrado, quando teve contato com o estudo de biomassa lignocelulósica, e manteve o mesmo orientador no mestrado e no doutorado. Ela também destaca a formação interdisciplinar envolvendo biomassa, polímeros, processamento e caracterização de materiais.

A pesquisa segue como ponto de partida para novos estudos. “Embora a tese tenha sido concluída, considero que ela representa mais um ponto de partida do que um ponto final”, finaliza Giulia. 

Carboidratos complexos e potencial terapêutico

A tese de Matheus Zavadinack, Avanços translacionais em polissacarídeos fúngicos: métodos de extração, purificação, caracterização estrutural, análises biológicas e estudos de aplicação de caráter terapêutico, está inserida na área de Bioquímica. O trabalho tem como foco a química e a biologia de carboidratos complexos. 

O trabalho utiliza principalmente as beta-glucanas, carboidratos complexos de origem fúngica com potencial de aplicação terapêutica, como modelo para compreender as relações entre estrutura e função dessas moléculas. A pesquisa também recorreu a modificações químicas controladas para alterar características estruturais específicas e avaliar seus reflexos sobre as propriedades biológicas. 

A origem da pesquisa está relacionada à trajetória de Matheus na Odontologia. Formado pela UFPR, o pesquisador teve contato com o ácido hialurônico durante sua especialização em Harmonização Orofacial e, a partir desse interesse, ingressou no mestrado em Bioquímica. Na pós-graduação, passou a estudar também carboidratos obtidos de fontes naturais, especialmente de cogumelos.

O percurso também envolveu uma escolha profissional. Durante o doutorado, Matheus conciliou a formação acadêmica com o trabalho e chegou a considerar a continuidade da carreira clínica como cirurgião-dentista.

“Ter minha tese reconhecida entre os trabalhos de destaque do país reforça a certeza de que fiz as escolhas certas e me motiva ainda mais a continuar seguindo esse caminho” aponta Matheus. 

A formação na UFPR acompanhou todas as etapas da trajetória acadêmica, da graduação ao mestrado e ao doutorado. O pesquisador destaca ainda experiências com pesquisadores brasileiros e estrangeiros e a participação no programa Capes-PrInt, que possibilitou parte de sua formação na Virginia Tech, nos Estados Unidos.

O desenvolvimento da tese envolveu uma abordagem multidisciplinar, com pesquisadores de áreas como Bioquímica, Biologia Celular, Farmacologia e Patologia. 

Atualmente, Matheus é Professor Assistente de Pesquisa na Purdue University e integra o Whistler Center for Carbohydrate Research. “A médio e longo prazo, o objetivo é contribuir para superar algumas das barreiras que ainda limitam o uso de carboidratos complexos em aplicações terapêuticas, gerando conhecimento que permita explorar essas moléculas de maneira mais racional, previsível e reprodutível e criar bases mais sólidas para futuras aplicações clínicas”, ressalta.

Veja detalhes do resultado final aqui. Para mais informações de todo o processo, clique aqui. 

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