Novas rotas de importação de equipamentos e insumos ampliam possibilidades de pesquisadores da UFPR 

12 agosto, 2026
08:28
Por Bruna Soares
UFPR

Pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) agora contam com diferentes caminhos para a importação de insumos e equipamentos científicos. Estruturadas pela Fundação da Universidade Federal do Paraná (Funpar), as rotas reúnem alternativas previstas na legislação brasileira e ampliam a previsibilidade para projetos de ensino, pesquisa e extensão que dependem de materiais importados.

Os estudos para novas possibilidades começaram entre outubro e novembro de 2025, após a rápida utilização da cota anual de importação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O trabalho foi aprofundado em 2026, com a análise de alternativas nas áreas jurídica, tributária, de compras, execução e prestação de contas.

Para o superintendente da Funpar, Edemir Maciel, a iniciativa partiu da necessidade de reduzir a dependência da cota do CNPq.

“A Universidade já tem uma imunidade tributária pela própria natureza dela, mas a Funpar não. A Funpar, até então, dependia única e exclusivamente da cota de importação. Essa dependência levava a não adquirir equipamentos, insumos e, muitas vezes, a prejudicar os projetos”.

Segundo Edemir, a decisão interna da Fundação envolveu equipes de diferentes áreas para a identificação de alternativas para os processos de importação.

“A gente decidiu dedicar equipes da área jurídica, do setor de compras, do setor de execução e de prestação de contas para identificar caminhos que levassem a ficarmos menos dependentes dessa cota de importação do CNPq”.

Em 2025, a Funpar realizou mais de 150 processos de importação, com mais de R$10,5 milhões em aquisições de insumos e equipamentos destinados a 61 projetos. A diversificação dos caminhos representa maior previsibilidade para coordenadores de projetos que dependem de materiais importados.

Edemir conta que, “na medida em que a Funpar fica menos dependente da cota de importação do CNPq, a Universidade também fica”. Segundo ele, “essas rotas que a Funpar identificou possibilitam hoje uma estabilidade para os coordenadores de projetos que dependem de equipamentos e insumos importados.”

Alternativas previstas na legislação

Entre as possibilidades está a Lei da Não Similaridade, aplicada a bens sem fabricação nacional. Atualmente, a Lista de Equipamentos Similares Sem Produção no Brasil (LESSIN) reúne mais de 29 mil itens passíveis de importação por esse mecanismo.

As rotas contemplam diferentes modalidades de aquisição, e a definição do caminho varia conforme o perfil de cada compra, com maior previsibilidade para a aquisição de materiais essenciais às pesquisas.

“Essas novas rotas de importação trazem a confirmação de que existem caminhos legais para enfrentar um dos gargalos presentes na vida dos pesquisadores: a burocracia da importação. A UFPR, junto com a Funpar, conhece esses caminhos e sabe como executá-los para que nossos laboratórios não parem”, afirma Marcos Sunye, reitor da UFPR. 

Para Edemir, a organização das rotas também representa uma divisão de responsabilidades entre a Fundação e a Universidade.

“Essa divisão de papéis é o que permite que a universidade se concentre na missão acadêmica enquanto a fundação trabalha na execução”. Ele conta que, no processo, foram mapeados “procedimentos modernos, considerando as normas da administração pública e a equação de economicidade e velocidade para nossos pesquisadores.”

O superintendente também destaca a importância da atuação conjunta entre as instituições para a execução das rotas.

“Embora a iniciativa da Funpar tenha partido da necessidade de diminuir a dependência da cota do CNPq, a implementação dessas rotas só será exitosa com a articulação conjunta da Universidade e da Fundação. A parceria entre a Proad, a PRPI e a Funpar, na execução do dia a dia, com suas equipes técnicas, é o que de fato fará com que essas rotas sejam reais e exitosas, como já são.”

Agilidade na chegada dos equipamentos

Um dos primeiros resultados desse modelo se deu com o Laboratório Multiusuário de Ressonância Magnética Nuclear (RMN), do Departamento de Química da UFPR. A aquisição de um espectrômetro portátil de baixa resolução foi concluída em apenas duas semanas.

“A experiência foi extremamente satisfatória. Todo o processo ocorreu de forma muito simples e eficiente. O que mais chamou a atenção foi a rapidez, pois a importação foi concluída em apenas duas semanas. Antes, esse mesmo processo podia levar até seis meses”, afirma o professor Anderson Barison.

Segundo o pesquisador, além da redução do tempo de espera, a importação direta também representa economia. “Esse novo modelo estimula o pesquisador, pois permite que a pesquisa tenha continuidade sem longas interrupções. Além disso, incentiva a importação direta, já que o custo pode representar apenas 30% a 40% do valor do mesmo produto nacionalizado.”

O equipamento será utilizado no desenvolvimento de métodos para identificação de bebidas adulteradas ou falsificadas.

Diferentes experiências com as rotas

As novas alternativas também atendem pesquisas em outras áreas da Universidade. No Departamento de Farmacologia, a professora Quelen I. Garlet utilizou uma das modalidades administradas pela Funpar para importar, com recursos da Fundação Araucária, um equipamento de análise comportamental de impulsividade motora em camundongos.

Da esquerda para a direita: Mestranda Julia Fernandes, João Gogola, aluno de Iniciação Científica e a professora de Farmacologia, Quelen Garlet. Foto: Arquivo pessoal

A necessidade de processos mais ágeis também integra a rotina do Centro de Microscopia Eletrônica da UFPR. Atualmente, um dos microscópios do laboratório permanece inoperante enquanto aguarda a importação de uma placa eletrônica avaliada em cerca de R$ 30 mil.

Segundo o diretor do Centro de Microscopia Eletrônica, Leonardo Evangelista Lagoeiro, atrasos como esse comprometem pesquisas e a formação de estudantes. “Na prática, isso significa que um equipamento analítico de altíssimo desempenho permanecerá inoperante por vários meses. O impacto é enorme: dezenas de projetos de pesquisa, dissertações, teses e serviços prestados à comunidade científica e ao setor produtivo ficam comprometidos.”

Tecnologia para uma aquicultura sustentável


Um dos projetos beneficiados pelas novas rotas é o “Robalo em Gaiolas: Blue Economy e Sustentabilidade”, desenvolvido pelo Centro de Estudos do Mar (CEM). A pesquisa envolve duas frentes principais: a produção de peixes, coordenada pelo professor Fabiano Bendhack em conjunto com outros pesquisadores, e o monitoramento ambiental das áreas onde as gaiolas serão implantadas, sob acoordenação da professora Silvia Melegari e de outros pesquisadores. O professor Bendhack é o responsável pela Coordenação Geral do projeto.

A pesquisa utiliza equipamentos importados para estudos voltados à produção sustentável do robalo, espécie nativa da costa brasileira. Entre os equipamentos estão um drone anfíbio para monitoramento de cardumes, um estereomicroscópio de alta resolução e um detector para ampliação da capacidade de análise da qualidade da água no Laboratório de Água e Esgoto (LAE-UFPR).

Monitoramento e identificação de padrões de comportamento dos robalos feitos pelo drone. Foto: Fabiano Bendhack

Para o coordenador do projeto, Fabiano Bendhack, o acesso a essas tecnologias amplia a capacidade científica da Universidade.

“Mais do que importar equipamentos, a universidade está importando oportunidades de produzir conhecimento, formar recursos humanos altamente qualificados e desenvolver tecnologias que poderão posicionar o Paraná como referência nacional na produção sustentável de espécies marinhas nativas.”

O novo detector também permitirá análises simultâneas de Carbono Orgânico Total (TOC) e Nitrogênio Total (TN), com redução do tempo de monitoramento e menor geração de resíduos.

Segundo a professora Silvia Melegari, coordenadora do Laboratório de Água e Esgoto (LAE-UFPR), a tecnologia representa um avanço para o projeto.

“Essa inovação transforma nossa capacidade laboratorial. Conseguimos quantificar parâmetros importantes da qualidade da água em poucos minutos, avaliar com precisão o impacto dos nutrientes e da alimentação dos peixes no ecossistema ao redor das gaiolas e utilizar uma metodologia ecológica, segura e livre do uso de ácidos perigosos.”

Para o pró-reitor de Pesquisa e Inovação da UFPR, Ciro Ribeiro, a consolidação das rotas fortalece a capacidade da Universidade de desenvolver pesquisas de alto nível. “Vários dos nossos projetos dependem de insumos e equipamentos do exterior. Ter rotas conhecidas, documentadas e executáveis é o que mantém a nossa pesquisa em condições competitivas”, disse.

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