Com recorde no último processo seletivo, política migratória amplia oportunidades de inserção profissional no Brasil
Uma grande conquista e a oportunidade de novas portas se abrirem: é assim que migrantes refugiados definem a revalidação de seus diplomas pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Auxiliados pelas políticas migratórias da instituição, eles conseguem retomar trajetórias profissionais interrompidas, acessar o mercado de trabalho em suas áreas de formação e reconstruir suas vidas com mais autonomia e reconhecimento no Brasil.
No último edital, que teve o resultado divulgado neste ano, 231 migrantes tiveram seus diplomas reconhecidos. O número foi um recorde e superou o total acumulado nos seis processos anteriores: até então, a universidade tinha feito a revalidação de 153 diplomas. O avanço é resultado de uma política institucional que completa uma década em 2026 e foi celebrada nesta quinta-feira (23) em evento realizado pela UFPR em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).
A cubana Karelia Rodríguez, que está no Brasil desde 2024, foi uma das migrantes que alcançou essa conquista no início deste ano. Graduada em Ciência da Computação, a profissional buscou a revalidação para poder voltar a atuar nesse campo.
“Foi um processo desafiador”, conta. “Primeiro, me formei no meu país de origem e depois decidi vir para o Brasil em busca de novas oportunidades. A adaptação não foi fácil, principalmente por conta da língua, da cultura. O processo de revalidação do diploma exige muita paciência, organização e persistência, mas é um passo muito importante para poder atuar na minha área aqui”.

Atualmente, Karelia está trabalhando na área de Marketing. Com o diploma revalidado, ela pretende ir atrás das suas metas profissionais como cientista da computação.
“A revalidação dignificou uma grande conquista pessoal e profissional. Foi a prova de que todo o esforço valeu a pena. Também representa a possibilidade de crescer profissionalmente no Brasil e me aproximar dos meus objetivos”, afirma.
Em algumas situações, para conseguir efetivar a revalidação o profissional precisa cursar algumas disciplinas no curso requerido, como forma de complementação dos estudos. É o caso de Mariangel Palma, venezuelana que está tendo aulas no Prédio Histórico da UFPR para ter o diploma em Psicologia reconhecido.
Natural da cidade de Guanare, ela exerceu a profissão por seis anos antes de vir para o Brasil, em 2019. Desde então, Mariangel trabalhou em diversas áreas.
“Obter essa revalidação foi a realização de um sonho, é a oportunidade de exercer a profissão de psicóloga no Brasil e finalmente trabalhar na área que amo”, comemora.
Após a conclusão das disciplinas complementares, Mariangel pretende fazer uma pós-graduação na área de desenvolvimento infantil.
“Estudar na UFPR tem sido uma experiência muito gratificante e me proporcionou um grande aprendizado”, diz. “Estou feliz pela oportunidade de aprimorar meus conhecimentos. Os professores e funcionários da universidade sempre me deram todo o apoio e orientação necessários”.


A revalidação de diplomas é resultado de uma articulação entre diversas unidades da UFPR integradas com as ações da Cátedra Sérgio Vieira de Mello, iniciativa do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) em parceria com universidades brasileiras para desenvolver ações práticas e pesquisas para a integração local de pessoas deslocadas à força, como refugiados, solicitantes de refúgio, portadores de visto de acolhida humanitária e apátridas.
No Brasil, a revalidação de diplomas estrangeiros é feita por universidades públicas que oferecem curso equivalente ao concluído no exterior, conforme regras definidas pelo Ministério da Educação (MEC). O processo é feito por meio da plataforma Carolina Bori, apresentando documentos como diploma, histórico escolar e conteúdos programáticos.
A UFPR possui um processo seletivo próprio, que busca simplificar algumas etapas para migrantes refugiados em situação de vulnerabilidade. Estão envolvidos o Núcleo de Concursos (NC), a Pró-Reitoria de Graduação e Educação Profissional (Prograp), a Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade (Proafe) e o Escritório de Relações Internacionais (ERI). Esses atores se articulam para conseguir cada vez mais alcançar migrantes e refugiados que possam necessitar o reconhecimento de seu diploma.
“O NC tem uma equipe de comunicação, que ajuda a divulgar o processo, e mantém uma interação próxima com a Cátedra e o ERI para poder acessar da forma adequada as pessoas na condição de migrantes refugiadas”, explica o coordenador do NC, professor Marco Randi. “A UFPR é uma instituição secular, e tem a missão de contribuir para a construção de uma sociedade inclusiva, equânime e solidária”.
Pelo ERI, a Coordenadoria de Acolhimento e Trajetórias Acadêmicas de Estudantes Internacionais e Migrantes (Catrim) atua anteriormente ao lançamento do edital, organizando fluxos, dialogando com os setores internos e ajudando a tornar o processo mais acessível para pessoas migrantes e refugiadas.
“A revalidação de diplomas e outras políticas de apoio a migrantes e refugiados têm um peso muito concreto na vida das pessoas. Não se trata só de reconhecer um documento, mas de reconhecer uma trajetória, uma formação, uma história que muitas vezes foi atravessada por deslocamentos forçados”, afirma Nathielly Santos, coordenadora da Catrim. “Em um cenário em que vemos o aumento de discursos e práticas que excluem e deslegitimam pessoas migrantes, a universidade tem um papel importante em afirmar outros caminhos, que passam pela inclusão e pela garantia de direitos”.
A coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello na UFPR é a professora Elaine Cristina Schmitt Ragnini, do Departamento de Psicologia. Segundo a docente, por conta de uma normativa do Ministério da Educação (MEC) que indicava que todo o processo da revalidação de diplomas precisava ser feito unicamente pela Plataforma Carolina Bori, processos próprios como o da UFPR não puderam ocorrer em 2025. Assim, havia uma demanda reprimida que explica, junto com os esforços de comunicação da universidade, o recorde de diplomas revalidados.
Na Sala 28 do Prédio Histórico da UFPR, onde funcionam os atendimentos da Cátedra, as equipes foram anotando as demandas de revalidação, que chegam todos os dias. No lançamento do último edital, em maio de 2025 os interessados foram comunicados e orientados sobre dúvidas e dificuldades na inscrição do processo. Elaine destaca a importância desse auxílio e do processo próprio da universidade, já que nem todos têm os migrantes refugiados têm os documentos necessários para a revalidação.
“Quando a pessoa se desloca forçadamente não tem tempo de pegar o Diploma, o Histórico Escolar, o Programa do Curso que realizou, o que impede que os processos corram pela Plataforma Carolina Bori”, afirma. “Claro que existem dificuldades com algumas instâncias administrativas, mas estamos preparados para conversar, sensibilizar e justificar o amparo legal e a importância de processos como esse”.
A docente também pontua que os migrantes possuem, muitas vezes, uma inserção precarizada no mercado de trabalho, sendo muitas vezes explorados por sua condição de vulnerabilidades, o que se torna mais uma barreira para buscarem melhores condições em suas profissões de formação.
“Profissionais qualificados e com longa trajetória profissional em suas áreas, ao chegar em outro país e exercerem funções aquém de suas possibilidades, entram em sofrimento psíquico: não tem sua identidade reconhecida; sentem-se desvalorizados socialmente; e frustrados por não exercerem suas profissões”, explica. “Esse processo de desprofissionalização gera sofrimento e esses migrantes entram em crise de identidade por não serem reconhecidos por suas qualificações e experiências”.
O reconhecimento do diploma de psicologia veio após muita luta da venezuelana Nirith Carolina. Ela é formada na área desde 2013, mas ao chegar no Brasil pouco antes da pandemia de covid-19 com o marido e os três filhos, precisou se desdobrar entre atendimentos on-line para a Venezuela, o emprego em uma fábrica e os estudos complementares para, enfim, conseguir o diploma pela UFPR.
“Foi uma benção, uma conquista maravilhosa, precisou de sacrifício, perseverança e constância, mas eu e minha família nos ajudamos e nos apoiamos”, relembra. “Eu tinha que fazer os trabalhos da UFPR de noite, até meia-noite, porque saía para o trabalho às 4h40, e nos sábados compensava as horas que faltei para frequentar a faculdade. Então foi corrido, mas foi gratificante receber meu certificado aqui no Brasil!”.
Atualmente, Nirith está trabalhando em Curitiba e é especialista em psicologia clínica e análise funcional em TDAH. No futuro, ela pretende fazer um mestrado na área. A psicóloga conta que os estudos complementares na UFPR foram importantes para ela entender a profissão aqui no Brasil e também conhecer outros migrantes.
“São matérias para poder exercitar a profissão de maneira adequada e com conhecimento, como conhecer o código de ética da psicologia no Brasil e conhecer como funciona o sistema de saúde mental no país”, afirma. “Também tive a matéria de migração para conhecer leis de proteção, direitos e deveres, o histórico do país com os migrantes, redes de apoio. Isso até ajudou a nós, como migrantes, compreender os processos e desenvolver empatia pelos outros migrantes, ser mais humanos”.
Quem também buscou novas oportunidades com a revalidação foi Ángel Ramon, que saiu da Venezuela em 2019, com destino ao Chile. Sem conseguir se estabelecer lá por causa da pandemia, decidiu retornar ao seu país. Antes, fez uma parada no Brasil, e desde 2021 reside em Curitiba.
O venezuelano é formado em Direito e em Letras – Inglês, com mestrado em Educação, e era professor universitário de inglês na Universidade de Oriente. Pela UFPR, ele conseguiu revalidar os dois diplomas: o de Letras em 2022 e o de Direito em 2023.
“Em 2024 apresentei o exame da Ordem e, em abril de 2025, recebi minha carteira da OAB. Desde então tenho buscado atuar em ambas as áreas, embora atualmente esteja trabalhando como professor de espanhol como língua estrangeira”, conta.
Além do trabalho como professor, Ángel faz trabalhos voluntários no Grupo Dignidade no Instituto Autênticas Brasil, que presta apoio a mulheres migrantes em situação de vulnerabilidade. Alinhando a paixão pela literatura com o desejo de retomar a vida acadêmica, ele ingressou esse ano no mestrado em Letras – Estudos Literários, pelo Programa de Pós-graduação em Letras da UFPR.
Com o objetivo de voltar a atuar como professor universitário, no Brasil ou na Venezuela, caso a situação do país o permita, ele fala da importância que a revalidação dos diplomas teve em sua vida.
“Representou um grande desafio e, ao mesmo tempo, uma conquista significativa. Senti que meus conhecimentos foram reconhecidos e que novas portas poderiam se abrir. Embora ainda não esteja atuando exatamente como gostaria, considero esse resultado um marco importante em minha trajetória”, afirma.
O também venezuelano Joice Antonio Sánchez conseguiu retomar sua vida profissional e hoje auxilia outros migrantes a conseguirem a revalidação pela UFPR. Formado em Odontologia, hoje ele tem um consultório em Recife (PE) e um grupo com mais de mil migrantes e refugiados que chegam ao Brasil e buscam retomar suas profissões.
No país desde 2017, Joice inicialmente se estabeleceu na região Norte e trabalhou em diversas profissões, enquanto buscava com a esposa, também dentista, informações sobre como revalidar o diploma. Até que descobriu o processo da Universidade Federal do Paraná.
Joice se inscreveu para a revalidação em 2019, mas não teve o resultado deferido. Ele tentou mais uma vez em 2022, após a pandemia, e conseguiu após cinco anos de luta o diploma. Além de trabalhar em seu próprio consultório, ele atua como voluntário em ações missionárias.
“É muito significativo. A gente chega com uma mão na frente e outra atrás, e conseguir trabalhar na sua profissão é uma coisa muito significativa. É o início de uma reconstrução, porque você parou a sua vida, reiniciou tudo, começa do zero”, afirma.
Após conseguir o reconhecimento do diploma, Joice se dispôs a ajudar outros migrantes e refugiados. Em um grupo nas redes sociais, com pessoas que moram em todo o Brasil, ele compartilha as informações sobre o processo da UFPR e até auxilia nas inscrições.
“Quando o processo é publicado pela Universidade Federal do Paraná, a gente fala sobre isso, orienta, ajuda, faz inclusive a inscrição de muitas pessoas. Graças a isso, esse processo da UFPR pode ser conhecido em todo o país”, conta. “Quando o edital é aberto, é impressionante o fluxo de pessoas que entram buscando informação. Todos os dias a gente repete as mesmas informações, porque chega muita pessoa nova de Cuba, do Chile, da Venezuela, da Colômbia… a gente participa desse processo do início até o final”.
Na UFPR a Cátedra Sérgio Vieira de Mello é operacionalizada a partir do programa de extensão “Refúgio e Migração em Extensão: Cátedra Sérgio Vieira de Mello/ACNUR na UFPR”.
O programa tem sete projetos de extensão vinculados:
Além desses projetos, a universidade tem um processo seletivo próprio para migrantes refugiados que queiram ingressar nos cursos de graduação. O edital de 2027 já está no ar, no site do Núcleo de Concursos da UFPR.
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