A credibilidade do evento é fundamental para a divulgação das pesquisas e é nesse contexto que estão sendo apresentados nesta edição diariamente dezenas de trabalhos na forma de simpósios e conferências, todos focados nas temáticas principais da 60ª Reunião da SPBC em Campinas: energia, ambiente e tecnologia.
O professor Antonio Mangrich, pesquisador sênior do departamento de Química da UFPR, apresentou o trabalho que vem desenvolvendo sobre as tecnologias da terra preta dos índios da Amazônia. Ele coordena um trabalho não apenas multidisciplinar, mas também interinstitucional, feito em parceria com pesquisadores da Embrapa/Solo, do Rio de Janeiro, Etelvino Novotny e Embrapa/Arroz e Feijão, Beata Madari. As terras pretas da Amazônia já foram objeto de estudos de muitos pesquisadores estrangeiros, sendo inclusive tema de encontro da associação americana equivalente à SBPC nos Estados Unidos. Há trabalhos publicados nas revistas Nature e Science sobre as tecnologias desenvolvidas por esses índios da amazônia para agricultura de subsistência há 500 e até 10.000 anos, na era pré-colombiana. Eram tempos em que se estima que a população indígena na região chegava a 18 milhões de habitantes.
Vários estudos demonstraram o ingrediente fundamental nessa fertilidade: o carvão, fruto da queima de restos de madeira, ossos de animais e peixes, restos de comida, entre outros. Concluiu-se nas escavações realizadas que esse manejo, intensional ou não, foi feito pelos índios que trabalharam a terra ao longo do tempo, dada a presença de cerâmicas encontradas no mesmo material pesquisado. Intriga o fato de que o solo depois desses milhares de anos ainda mantenha a alta fertilidade, a ponto de ser utilizado nas culturas pelos caboclos da região amazônica.
O trabalho coordenado por Mangrich busca o desenvolvimento de algo parecido: recuperar o modelo antigo e introduzir tecnologia moderna, numa espécie de “arqueo-agronomia”, brincam os pesquisadores. E ainda com ganho ambiental: os cientistas querem chegar a essa tecnologia baseada na queima de sub-produtos considerados passivos ambientais que hoje degradam o meio ambiente: lodo de esgoto, restos da agricultura, rejeitos da indústria da carvoaria, do xisto, da indústria madeireira e de biocombustíveis, cujos rejeitos deverão se intensificar em razão do biodiesel, do etanol, e até com a torta de mamona, um lixo tóxico. Tudo isso seria matéria prima para compor novos materiais orgânicos que possam ser transformados em fertilizante para a agricultura.
Os efeitos do carbono no solo envolveu pesquisas de campo na região amazônica e experimentos de campo na região do cerrado do Mato Grosso, em solo arenoso, e os pesquisadores são otimistas em dizer que essa nova tecnologia a ser buscada traria ainda a vantagem de reduzir a emissão de gases maléficos ao efeito estufa (a queima dos rejeitos seria feita em plantas industriais por processos que minimizam a emissão de gases) e ainda fixando parte no solo, com liberação lenta. Em setembro próximo o pesquisador estará apresentando o mesmo trabalho em Newcastle, Inglaterra, num evento específico sobre as pesquisas que estão sendo desenvolvidas em âmbito mundial sobre o carvão vegetal. “Se o Brasil não tomar conta disso, nós vamos perder”, define Mangrich.
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Fonte: Leticia Hoshiguti, de Campinas
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