Iniciativa busca conscientizar a comunidade universitária, ampliar o acesso aos canais de denúncia e fortalecer políticas de acolhimento às vítimas.
A Universidade Federal do Paraná (UFPR) apresentou, nesta terça-feira (26), novas iniciativas de combate à violência de gênero na instituição. O anúncio foi feito em evento no Prédio Histórico, em Curitiba, que contou com a presença da ministra das Mulheres, Márcia Lopes.
Entre as medidas apresentadas, está a campanha de reforço ao enfrentamento dos diversos tipos de assédio e violência no ambiente universitário. A ação busca, por meio de visibilidade e sensibilização, tratar do tema de forma educativa e preventiva, fortalecendo os canais de acolhimento às vítimas.
“Estamos aqui unidos não só para lançar uma campanha, mas para reafirmar um compromisso coletivo com a dignidade, o respeito e a proteção da vida dentro da nossa universidade”, afirmou a vice-reitora da UFPR, professora Camila Fachin, durante o evento. “A universidade deve ser, antes de tudo, um espaço seguro para todas as pessoas, onde possam existir plenamente, aprender, ensinar, pesquisar e conviver sem medo. Por isso, dizemos com firmeza: assédio e violência não são tolerados dentro da UFPR”.
Em seu discurso, a ministra Márcia Lopes ressaltou que a campanha vai ao encontro do Protocolo de Intenções para Prevenção e Enfrentamento da Violência contra as Mulheres nas Instituições de Ensino, instituído pelo Ministério das Mulheres em conjunto com o Ministério da Educação (MEC).
“Esta universidade sai a frente neste momento em que faz adesão a este pacto, que leva a sério o protocolo que assinamos com o Ministério da Educação. Não tenho dúvida que será a medida mais estruturante que teremos na história desse pacto”, disse.

A campanha foi desenvolvida pela Superintendência de Comunicação da UFPR (Sucom), a pedido da Reitoria e do Comitê de Enfrentamento às Violências da instituição. A ação vai contar com cartazes de conscientização e materiais com exemplos concretos que ocorrem na universidade, como a série “O que já ouvimos”, além da divulgação constante dos canais, fluxos e formas de acolhimento e denúncia disponíveis na universidade.
De acordo com a superintendente de comunicação, Sarah Scholz Dias, a ação parte da necessidade de tratar o enfrentamento às violências como uma responsabilidade institucional permanente, e não apenas como resposta a situações pontuais.
“O desenvolvimento da campanha busca transformar esse tema em orientação concreta para a comunidade, com materiais capazes de informar, sensibilizar e ajudar as pessoas a reconhecerem situações de assédio, constrangimento, intimidação e outras formas de violência no ambiente universitário”, explica.
O conceito da campanha foi pensado a partir de uma linguagem direta, acessível e responsável, que trouxesse situações que a comunidade consegue reconhecer no dia a dia da universidade.
“A comunicação entra como uma ferramenta educativa. Mais do que divulgar canais ou informar sobre procedimentos, ela ajuda a tornar visíveis condutas abusivas que muitas vezes são naturalizadas no cotidiano universitário”, afirma Sarah. “Ao nomear essas situações de forma clara e objetiva, a campanha contribui para que a comunidade reconheça o que é assédio, constrangimento, violência ou abuso de poder, e saiba que existem caminhos institucionais de acolhimento, orientação e denúncia”.
A professora Gabriela Bica, chefe de Gabinete da Reitoria e integrante do comitê, afirma que essas iniciativas são pautas urgentes para a comunidade acadêmica e para a atual gestão. Ela destaca ações que já foram realizadas, como a Política Institucional de Prevenção e Enfrentamento às Violências, a instituição da Ouvidoria da Mulher e a instauração de grupos de trabalho e resoluções de enfrentamento ao assédio moral e racismo.
“A campanha institucional de comunicação é mais um passo nessa direção. É importante reconhecer os sinais de violência, saber onde e como denunciar, quem pode acolher e quem tem o dever de apurar”, afirma. “É fundamental que, não apenas as vítimas, mas que toda a comunidade acadêmica conheça e tenha fácil acesso aos canais de denúncia e acolhimento frente às situações de violência. A UFPR vem alinhando esses canais internos, de forma a torná-los mais acessíveis a quem precisa”.
Os conteúdos da campanha são feitos com apoio da Comissão de Enfrentamento às Violências, responsável pela elaboração da Resolução nº 11/2025, que instituiu a Política de Enfrentamento às Violências na UFPR.
A integrante da comissão e docente do curso de Direito, Clara Roman Borges, afirma que a violência de gênero vivenciada na universidade é um reflexo da mesma violência que ocorre na sociedade, fora do campus. São ações praticadas normalmente contra mulheres por serem mulheres, sejam elas cisgêneras ou trans, e podem acontecer presencialmente ou por meio digital, de forma isolada ou simultânea e individual ou coletivamente.
“As violências de gênero consistem em quaisquer condutas que restringem ou tenham a intenção de restringir direitos e oportunidades com base nos preconceitos de gênero, identidade de gênero, expressão de gênero e orientação sexual. Essas práticas resultam num tratamento desigual ou discriminatório de pessoas ou grupos que integram a comunidade universitária”, afirma a docente.
A Lei Maria da Penha definiu as formas de manifestação dessas violências, que podem ser físicas, psicológicas, sexuais, morais e patrimoniais. São exemplos:
“Boa parte dessas condutas, além de infrações administrativas, passíveis de punição pela Corregedoria da Universidade após o devido processo, também configuram crimes e os danos causados à vítima podem ser passíveis de indenização pecuniária”, explica Clara Roman.
Para a docente, essas violências são muitas vezes autorizadas e naturalizadas, devido ao sistema de poder patriarcal que permanece na sociedade e perpetua as desigualdades de gênero.
“Nesse contexto, quando a mulher não se comporta como submissa ao homem ou não age de acordo com o esperado dela pela sociedade, o homem se sente autorizado a praticar violência contra ela”, diz. “Já a mulher que sofre a violência se sente culpada porque entende que a provocou quando não agiu de acordo com os papeis femininos estabelecidos pela sociedade”.
Clara Roman defende que a conscientização e reconhecimento das violências de gênero na comunidade universitária permitem sua desnaturalização, prevenindo a prática e incentivando as denúncias pelas vítimas.
“Ao invés de autorizada, a violência passa a ser censurada, ao invés das vítimas serem julgadas e culpabilizadas, elas passam a ser acolhidas”, afirma.
A Ouvidoria Geral da UFPR é um órgão de atendimento às diversas manifestações relativas aos serviços públicos prestados pela universidade, que inclusive recebe e apura denúncias relativas a situações de violência. De acordo com a ouvidora geral, Carolina Bagattolli, o órgão é uma porta de entrada segura e institucional pata essas manifestações.
“Nosso papel é acolher, registrar, analisar preliminarmente e encaminhar as denúncias às unidades competentes (em casos de assédio, a corregedoria), sempre observando critérios de sigilo, proteção da vítima e integridade do processo apuratório”, afirma. “É importante destacar que a Ouvidoria não realiza investigação nem julgamento dos casos, o que compete, em casos de assédio, à corregedoria”.
A ouvidora destaca que a UFPR vem fortalecendo estruturas específicas de acolhimento, como a Sala Lilás, um projeto em andamento, e a Ouvidoria da Mulher, seção que tem foco no atendimento especializado a mulheres vítimas de discriminação ou violência dentro da instituição. É destinada a qualquer servidora, estudante e trabalhadora terceirizada que, no exercício da sua função no ambiente da UFPR, venha a sofrer violência de gênero.
“A Ouvidoria da Mulher realiza o acompanhamento próximo do caso, com escuta qualificada, acolhimento, orientação especializada e articulação com instâncias responsáveis pela apuração”, explica a ouvidora da Mulher, professora Tirzhá Dantas. “Sempre que necessário, a rede de proteção às vítimas também será acionada”.
As professoras ressaltam que o primeiro passo para as vítimas é saber que elas têm direito ao acolhimento e à proteção. Ao se deparar com uma situação de assédio, elas podem: buscar a Ouvidoria da Mulher; procurar redes de apoio dentro da universidade; e registrar a manifestação pelos canais institucionais.
“Recorrer a esses canais institucionais é fundamental por três razões principais. Primeiro, porque permite o acolhimento da vítima — ninguém precisa passar por isso sozinha. Segundo, porque possibilita a responsabilização — sem registro, a instituição não consegue agir”, afirma Tirzhá. “E, terceiro, porque permite enxergar o problema de forma mais ampla: cada registro contribui para evidenciar padrões e romper o silêncio”.
Toda manifestação, reclamação e denúncia de fato ocorrido no âmbito do executivo federal deve ser sempre formalizado pela plataforma Fala.BR. Nos casos que envolvem ou são motivados por questões de gênero, como violências, discriminações ou assédios direcionados a mulheres, a Ouvidoria Geral da UFPR encaminha a manifestação à Ouvidoria da Mulher.
O atendimento da Ouvidoria da Mulher é feito pelo e-mail ouvidoriadamulher@ufpr.br.
Para formalização de denúncias, o canal é a plataforma Fala.BR.
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