Abaixo, a íntegra do discurso proferido pela professora Márcia Helena Mendonça, na sessão pública e solene do Conselho Universitário da UFPR, no último dia 19 de dezembro de 2008.
‘Navegar é preciso; viver não é preciso’.
Com essa evocação Pompeu, general romano, incitava os marinheiros, que amedrontados pela tempestade, recusavam-se a navegar durante a guerra.
Sobre o mesmo dístico, Fernando Pessoa construiu:
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; Só quero torná-la útil,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Petulância minha, talvez, a de ter como foco as palavras do grande poeta português ou os ditames do triúnviro romano.
Mas, como todo o povo brasileiro, herdei o lirismo do sangue lusitano e simplesmente não posso resistir à profunda poesia que se oculta na oração: NAVEGAR É PRECISO. VIVER NÃO É PRECISO.
E aqui se nos detivermos no sentido exato da expressão É PRECISO, percebemos que pode ter o sentido do que é necessário, indispensável, inelutável.
Navegar é preciso. Barco que somos no infindável oceano da vida, abalado por tempestades dantescas ou cobertos por céus de um azul sublime, navegar é o que nos resta, é o que nos cabe. É preciso levar nossa nau a um porto seguro.
Mas PRECISO também pode ter o sentido de precisão, acuidade, exatidão.
Assim, viver não é preciso. Talvez no sentido de que viver não seja o primordial, e sim a missão a ser cumprida. Mas na outra acepção do termo, viver não tem precisão. O viver não é exato, não é constante, não é previsível, não é pontual. Viver é a própria aventura do navio em demanda de um porto longínquo, ao qual aportaremos ou não, quando, não sabemos, quiçá não saibamos sequer onde fica exatamente.
Não, realmente, não há precisão no viver.
Antes, temos que um tanto às cegas tentar adivinhar onde fica o porto, quando e como poderemos chegar. E ainda assim traçar a rota mais reta, mais clara, consciente e provável de onde queremos chegar.
Logo, o viver não é preciso, mas navegar é preciso.
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Assim, quando Jasão e seus Argonautas embarcaram no Argos, tinham uma missão: buscar o Velocino de Ouro das mãos do Rei Eestes, da Cólquida. O problema era como chegar lá.
Após passar por extremos desafios que, por muito pouco, não puseram sua nau a perder, e apenas com os poucos heróis que se dispuseram a lhe ser leais, Jasão cumpriu sua primeira missão.
De posse do Velocino, conduziu o Argos por rotas nunca antes navegadas, até entregá-lo a quem de direito.
Navegar, manter o tesouro intacto e intacto entregá-lo a quem devesse fazê-lo.
Essa era a nova missão e para cumpri-la, navegar era preciso, viver…
……………………………………………………………………………………….
Então, como um argonauta, embarquei voluntariamente nessa nau, no posto de imediato. Durante a viagem, inesperadamente, tive que assumir o comando pela ausência de seu capitão, pois imperioso se fazia mantê-la navegando. Nossa missão era sagrada, preservar um tesouro de valor inestimável, a nossa Universidade Federal do Paraná.
Esse tesouro, nem precisaria ser dito, vem sendo amealhado ao longo de 96 longos anos de empenho, sacrifício e amor daqueles que a isso se dedicaram, desde Victor Ferreira do Amaral até hoje.
A semelhança das Grandes Navegações do Século XVI que tiveram um início modesto, com a criação da Escola de Sagres, pelo Infante Dom Henrique, e que veio dar origem, quer pelas inovações técnicas que introduziu, quer pela dedicação dos tripulantes e capitães de suas caravelas, à criação dos impérios lusitano e espanhol, assim também a UFPR, que nasceu da coragem e iniciativa de poucos, pequena em sua origem, mas majestosa em seu coração, tornou-se o colosso que hoje é.
Gerações de intrépidos navegantes, professores, técnicos administrativos e estudantes, que construíram ao longo destes 96 anos, com responsabilidade e trabalho mais do que árduo, não um navio, mas toda uma esquadra, que hoje se alinha às maiores universidades do país e desfralda orgulhosamente os estandartes do ensino, da pesquisa, da extensão e do compromisso social.
Nossas profundas homenagens a todos os reitores que me precederam, bravos almirantes desta esquadra, homens abnegados que tiveram a honra e a responsabilidade de conduzir o destino de nossa universidade por quase um século. E se hoje a UFPR se aproxima do seu centenário com o vigor, a qualidade, o desempenho e o alto prestígio que goza no âmbito acadêmico nacional e internacional deve e, deve muito, ao trabalho destes dirigentes que souberam mantê-la jovem em seus ideais, empreendedora em sua gestão e atuante na formação de quadros profissionais que a nossa nação necessita e a sociedade exige para o seu desenvolvimento econômico, social, tecnológico e científico.
A mais antiga Universidade brasileira, um universo que congrega mais de 30000 mil estudantes em todos os níveis acadêmicos, 2000 docentes, 5000 servidores técnico-administrativos, e milhares e milhares de ex-alunos, todos valorosos navegantes, todos parte desse imenso patrimônio de conhecimento e cultura, que serve de exemplo e é o nosso orgulho maior.
A UFPR é o nosso tesouro. Tesouro de valor incalculável. Tesouro que traz em si a tradição paranaense e que se tornou símbolo da cidade de Curitiba, por eleição daqueles que adotaram ou nasceram na terra dos pinheirais.
Esse tesouro que passou pelas mãos dos mais competentes capitães, que como Tífis, o timoneiro do Argos, souberam sustentar o seu leme e fazê-lo navegar em mares terríveis e tenebrosos. Mas que também conseguiram fazê-lo multiplicar-se e sempre chegar a portos seguros antes de transferi-lo à guarda de seu sucessor.
E, em determinado momento no curso desta viagem secular, a mim ainda coube, não por vontade própria, nem veleidade QUE NUNCA NUTRI, mas por decisão de Sua Excelência o Presidente da República, assumir oficialmente a direção de nossa embarcação e velar pela UFPR, bem maior de todos os que a servem ou que nela encontram sua formação profissional e cidadã.
E ali estava eu, a braços com o comando não almejado mas que, entregue, teria que ser exercido da melhor forma que me fosse possível.
Foi o que fizemos. E o fizemos exclusivamente por amor incondicional a essa instituição, a esta jóia incomparável. E o fizemos com a ajuda de alguns poucos heróis, que nos acompanharam nessa jornada e se mantiveram fiéis, de alma e de coração. E nesta travessia tivemos grandes perdas, perdas reais e perdas simbólicas. A maior, sem dúvida, foi a partida súbita e cruel da Profa. Maria Benigna, nossa querida Binha, grande mulher, professora, pesquisadora, companheira de inúmeras e antigas batalhas.
E também em nome dela, com os corações e as mentes totalmente voltados para nossa missão, não medimos esforços nem dedicação. Mas não transigimos em nossos princípios e crenças, não faltamos à verdade, não traímos quem em nós confiou e nunca, nunca sacrificamos os amigos.
Nesse viés, com essa visão, aceitamos nossa tarefa e nos pusemos ao largo, abrindo as velas aos ventos – nem sempre favoráveis – e na melhor tradição dos antigos navegantes seguimos nossa rota em direção ao dia, no futuro, em que nos coubesse entregar a nau a seu novo comandante.
Como Simbad enfrentamos os demônios do mar: a ineficiência administrativa, a estrutura anacrônica e viciada, a inadequação das pessoas aos postos, a resistência à mudanças, a falta de comunicação e o oportunismo político. Porém o pior dos flagelos foi e continua sendo a grande serpente marinha de mil olhos, o baixo nível de compromisso institucional.
Mas seguimos, e como Cabral, atravessamos o Mar Oceano, sem termos a rota definida, num momento de profundas alterações no sistema educacional, na sua avaliação, na relação com as fundações de apoio e com os órgãos fiscalizadores.
Como Vasco da Gama, tivemos que transformar o Cabo das Tormentas da adaptação do REUNI em um Cabo da Boa Esperança, representado pelos novos horizontes que se revelam nos cursos e as vagas criadas, nos progressos prometidos e atingidos, na evolução do ensino universitário.
E também com a garra de guerreiros vikings navegamos de porto em porto, de acidente em acidente geográfico, cruzando baías de águas tranqüilas ou mares bravios e abertos, buscando caminho para novas oportunidades, novos recursos, novas vagas para desenvolver a UFPR. Ponto a ponto, com vagar e tenacidade, vencemos desafios, realizamos ajustes, saneamos procedimentos e obtivemos vitórias.
Mas, como Colombo, apesar das descobertas, fomos julgados com leviandade, severamente criticados, difamados até, mas as conquistas e avanços, como aqueles que constam nos relatórios de atividades, não poderão ser negados ou olvidados.
Assim, galhardamente, a despeito das tempestades e dos nevoeiros da intolerância nosso tesouro guardado não perdeu em nada seu brilho, nenhuma jaça o esmaece ou conspurca, e hoje chega ao porto rutilante e em total segurança, apesar das ameaças que sofreu e que ainda persistirão a arrostar seus novos capitães.
Felizmente, com a ajuda daqueles que nos acompanham até esse derradeiro momento, nosso Argos está aportando.
Antes de mais nada, a esses heróicos companheiros de jornada, devo e quero manifestar meu reconhecimento por sua labuta, por sua competência e por seu desapego, desafiando toda ordem de obstáculos, para que aqui pudéssemos chegar. Sei que um MUITO OBRIGADO é pouco, mas o aceitem sincero e puro.
Senhores conselheiros, esta noite estou aqui para entregar a direção da UFPR e todo seu tesouro acumulado em 96 anos, a seu novo comandante, o Reitor eleito Prof. Dr. Zaki Akel Sobrinho. De direito o leme já lhe pertence, entrego-o agora de fato. Cumpri o meu dever.
Porém, antes de dar por terminada minha participação nesse evento solene, quero lhes falar ainda de mais um navegador.
Como Ulisses, por mais de uma vez resisti ao canto das sereias.
Se muito honroso cargo de Reitora da nossa Universidade era apontado como minha obrigação, talvez mesmo o meu destino. Mas mantive-me atada ao mastro e não sucumbi a sortilégios e encantamentos, por acreditar em algo maior.
Não concorri ao cargo, antes, aceitando a condição de Vice-Reitora, pela crença inamovível de que esta função, embora menos glamurosa, é vital para a estabilidade e desenvolvimento institucionais. E as circunstâncias, tão conhecidas de todos os presentes, me guindaram à posição de Reitora que ora ocupo.
Não quis concorrer depois, porque entendi que meu papel era o de guardiã do tesouro. Vivíamos um momento particular e crítico. A universidade tinha a chance única de fazer uma grande aliança institucional. E a mim cabia segurar o timão com firmeza e garantir que a nau continuasse navegando em mar limpo e seguro, enquanto se feria o pleito.
Senhoras e senhores, não me apego a cargos ou a mirífico poder. Minha única preocupação é – E SEMPRE FOI – o bem maior: a UFPR.
Sendo assim, apesar do entendimento jurídico do MEC, que garantiu meu direito a hoje, após a transmissão do cargo, reassumir minha legal e legítima condição de Vice-Reitora, quero agora, nesta sessão solene do Conselho Universitário, de público e em caráter irrevogável, apresentar minha renúncia, também, à Vice-Reitoria.
E faço-o com serenidade, na mais absoluta convicção de ter cumprido minha missão. Não obstante os perigos e a incompreensão que enfrentei no caminho, os compromissos institucionais foram cumpridos e a nossa universidade vivencia uma transição tranqüila como há muito não se vê. Neste belíssimo dia de aniversário, nossos navios aportaram em segurança.
Faço-o com desprendimento, por entender que o novo comandante deve ter a liberdade de instalar a sua tripulação e definir os rumos que entender como corretos para a nossa universidade.
Faço-o com espírito institucional, seguindo a honrosa tradição de meu Setor, o Setor de Ciências Biológicas, e renuncio ao cargo muito antes de expirar meu mandato, para evitar descompassos e constrangimentos para a nova gestão.
Mas confesso, faço-o igualmente com algo de tristeza, pelo sonho desfeito. Tristeza por tudo aquilo que poderia ter sido e não foi. Porque devo reconhecer, neste sonho eu acreditei com toda a minha alma, até o momento final. Mas, talvez, o desencanto seja mesmo a sina de um sonhador.
Por fim, faço-o por coerência, por entender que não há nada mais raro nem mais precioso do que o coração verdadeiro de um amigo. E vê-lo ferido, repetidamente, é um preço que eu me recuso a pagar.
Ao magnífico reitor e a sua nova equipe os meus desejos do maior êxito na jornada que agora se inicia, porque estamos certos que seu sucesso será refletido no desenvolvimento e pujança de nossa universidade.
Assumam o comando da nau capitânia, esta nau chamada Esperança e zarpem em direção ao futuro. Parabéns a todos vocês e parabéns a nossa querida UFPR pelo seu brilhante nonagésimo sexto aniversário.
E aqui, me despeço como Reitora da Universidade Federal do Paraná e sigo ao encontro das incertezas do destino, porque afinal NAVEGAR É PRECISO, VIVER NÃO É PRECISO.
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Fonte: Assessoria de Comunicação da UFPR
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