O urucum e o jenipapo, frutos nativos do Brasil, são tradicionalmente utilizados por povos indígenas na produção de tintas naturais para pinturas corporais. O urucum confere tons avermelhados, enquanto o jenipapo produz uma coloração escura, quase preta. Mais do que elementos estéticos, essas pinturas carregam significados profundos: cada traço, cor e padrão reflete a identidade cultural, a espiritualidade e os valores de cada povo. Atualmente, essas cores também têm sido adotadas como símbolo de resistência e afirmação — um sinal claro de que os povos indígenas estão presentes e firmes em seus territórios, trazendo consigo toda a força de sua ancestralidade.
Em 2004, a Universidade Federal do Paraná (UFPR) iniciou a implantação de políticas públicas voltadas para os povos indígenas por meio da Resolução nº 3704, que destinava vagas específicas pelo Vestibular dos Povos Indígenas do Paraná.
Segundo Kelvy Nogueira, pedagoga da Coordenadoria de Políticas para Migrantes e Povos Originários que compõe a Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade (Proafe), são 21 anos de políticas públicas com desafios constantes. “No início, eram cinco vagas destinadas aos povos indígenas, hoje são dez e estamos discutindo uma nova resolução para ampliar esse número. Também enfrentamos desafios financeiros: temos bolsas que auxiliam na permanência dos estudantes, mas precisamos melhorar. Apesar de mais de duas décadas de existência, ainda há questões a avançar no acolhimento e na cultura acadêmica também”, explica.
Atualmente, cerca de 94 estudantes indígenas de diferentes regiões do Brasil estão matriculados na UFPR — a maioria ingressou pelo vestibular dos povos indígenas. Desde a formatura da primeira aluna, em 2010, outros 59 concluíram a graduação. Para Kelvy, “Valorizar as culturas indígenas é essencial e a presença desses estudantes fortalece a nossa missão como instituição”.
Entre esses alunos está Camila Mǐg Sá dos Santos, estudante do curso de Ciências Sociais bacharelado em antropologia e arqueologia, e integrante do povo Kaingang. Pelos corredores da universidade, ela carrega histórias, memórias e saberes ancestrais. Para ela, estar na graduação não é uma conquista individual. “Hoje temos mais de 20 etnias na universidade e estar aqui é uma conquista coletiva, porque antes de mim vieram outros indígenas que abriram caminhos e lutaram pelas políticas públicas que atendem a gente”, afirma.
Mas o caminho não foi livre de obstáculos. Em muitos momentos, Camila se viu sozinha entre os colegas de turma, sendo a única indígena do curso. “Hoje, as pessoas me ouvem, me convidam para falar com os calouros. E, depois que comecei a participar de projetos de pesquisa e extensão, a sensação de solidão diminuiu um pouco”. Ela fez parte do Projeto de Pesquisa e Extensão “Ecologia de Saberes com Povos Tradicionais do Paraná” durante o período de 2019 á 2022.
Sua visão de futuro é coletiva, ela entende que a presença de estudantes indígenas é um ciclo que precisa ser fortalecido e renovado continuamente. Sua filha já cursa Psicologia na UFPR e, a cada ano, cresce o número de jovens de sua aldeia interessados em ingressar no ensino superior. “Nós, que já estamos aqui, somos o exemplo. Então não desistam — por eles, pelos que já se foram e pelos que ainda virão.”
Para ela, a missão dos acadêmicos indígenas é contribuir para que os conhecimento científico e o ancestral possam andar lado a lado em busca de soluções conjuntas. “Os povos indígenas resistem porque mantêm sua cultura e é essa cultura que também precisa estar presente aqui. Nós dividimos um único planeta e podemos juntos resolver muitos problemas que afetam todos nós”. Mais do que uma trajetória acadêmica, Camila leva para a universidade os saberes tradicionais de seu povo, afinal, cada estudante indígena que chega à UFPR não traz apenas um sonho, ele carrega consigo um povo inteiro.
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