Sítio arqueológico tem artefatos históricos que contam a história dos primeiros humanos que estiveram no Vale do Ribeira, entre Paraná e São Paulo
Em uma região até então reconhecida pela agricultura familiar e por suas comunidades quilombolas, há pouco mais de 30 anos novos personagens ganharam destaque. Na nova edição do programa Estado da Arte, da UFPR TV, a reportagem foi até Adrianópolis, na fronteira entre Paraná e São Paulo.
No Morro dos Anjos, pesquisadores, professores e estudantes da Universidade Federal do Paraná (UFPR) realizam trabalhos de análise e preservação dos resquícios arqueológicos que mantêm viva a história e ajudam a compreender a formação humana. Os materiais encontrados no sítio arqueológico contribuem para entender o modo de vida dos primeiros habitantes da região Sul do país.
O sítio arqueológico foi descoberto em 1994, quando houve estudos para a instalação de uma usina hidrelétrica na região, a Usina Hidrelétrica Tijuco Alto. A partir da descoberta, o espaço recebeu medidas de proteção e a obra da hidrelétrica não chegou a acontecer. Foram encontrados artefatos de sepultamentos oriundos dos povos Jê, que se difundiram pelo Brasil antes do período colonial.
As escavações permitiram encontrar materiais como fossas, cerâmicas, estruturas onde se usava fogo e instrumentos feitos em pedra. A partir dos estudos, estima-se que os materiais encontrados são datados entre os séculos IX e XI.
Quem esteve no comando das atividades que descobriram a existência do sítio Morro dos Anjos foi o professor aposentado da UFPR e arqueólogo Igor Chmyz. Ele afirma que houve um pedido de prospecção na área, por parte da empresa que iria construir a usina hidrelétrica. Foram encontrados cinco pontos com artefatos, sendo o Morro dos Anjos o principal e maior. “Nós fizemos então, nesses cinco pontos, prospecções, e alguma intervenção também. Encontramos evidências de habitação, quatro enterros. Eram covas não muito profundas, estavam um pouco abaixo do piso da habitação”.

Os estudos realizados ao longo dos anos demonstraram um grande cuidado dos povos originários com a natureza. Segundo Rucirene Miguel, arqueóloga e coordenadora do projeto, esses grupos viam a natureza como uma entidade e assim respeitavam os espaços naturais de forma que a fauna e a flora fossem preservadas ao máximo. “Eles tinham uma relação com o meio ambiente que não era de destruição sem necessidade. Então a relação deles com o meio ambiente era muito diferente de uma sociedade tecnológica e industrial como a nossa”.
Além dos estudos arqueológicos diretamente ligados aos materiais encontrados, há também análises topográficas. Trata-se de estudos que buscam compreender a superfície da região e ajudar a entender, por outro viés, o do solo, a presença humana na região há milhares de anos.
Outra ciência que complementa a arqueologia é a geografia. O geógrafo e arqueólogo Ricardo Monma explica que no momento a geografia física é a que orienta os estudos, para perceber como ocorreu a formação do solo na região. “A gente entende os processos erosivos e formações de solo do sítio arqueológico. Então a gente consegue entender o seu pacote de deposição, como ele foi formado e que tipo de sedimento o compõe para passar a entender a formação dessas camadas”, conclui.
Além dos professores e pesquisadores presentes no projeto, os estudantes da UFPR também trabalham e ajudam nas atividades. Vinculados ao Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas (Cepa), eles aprendem mais sobre as práticas arqueológicas. Desta forma, o trabalho no sítio arqueológico ajuda na formação dos estudantes e os próprios estudantes contribuem para a continuidade dos trabalhos no espaço.
Nesse sentido, pode-se dizer que sítio arqueológico Morro dos Anjos se consolidou como um espaço de reflexão, referência, pesquisa, conhecimento e preservação da memória dos povos que ali viveram há milhares de anos. É nesse cenário que a história ganha novas camadas e interpretações. O material completo sobre a região pode ser conferido no programa Estado da Arte, da UFPR TV, no vídeo abaixo.
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