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Pesquisa coordenada pela UFPR busca aumento de produtividade

14 julho, 2009
00:00
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O professor Fábio de Oliveira Pedrosa, do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da UFPR, coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Fixação Biológica de Nitrogênio, o único do Brasil nesta área. Através desse , pesquisadores de diversas instituições brasileiras desenvolvem trabalhos paralelos com objetivo de implementar tecnologias inovadoras para o aumento da produtividade agrícola, utilizando bactérias fixadoras de nitrogênio. São cerca de 150 pesquisadores, alunos de graduação, mestrado e doutorado sob a coordenação do professor. Pesquisador com uma carreira respeitada nacional e internacionalmente, o professor Pedrosa revela que as pesquisas do Instituto podem representar não apenas a redução de custos para agricultura, mas também menos impactos ambientais, aumento da competitividade e da renda do agricultor. Confira a entrevista concedida ao Notícias da UFPR:

NOTÍCIAS – Qual a importância do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Fixação Biológica de Nitrogênio? O que ele desenvolve atualmente?
PROFESSOR PEDROSA – O tituto é uma evolução dos grandes programas dos quais participamos desde 1991, são . O primeiro grande projeto que tivemos foi com financiado pela Finep/BID, em 1991. Em 1996 nós tivemos aprovado o primeiro Programa de Núcleos de Excelência, que foi até 2000. Com este projeto iniciamos nossa experiência de trabalho em rede, pois envolveu três grupos de pesquisa dois em Curitiba, um em Londrina e um de Brasília. Em seguida coordenamos o Programa Genoma do Estado do Paraná, que foi financiado pela Secretaria de Ciência e Tecnologia, com recursos do Fundo Paraná, e também pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, que permitiu determinar a seqüência completa do genoma de uma bactéria fixadora de nitrogênio, a Herbaspirillum seropedicae. Esta bactéria é capaz de produzir amônia a partir do nitrogênio da atmosfera e é encontrada no interior de plantas de grande importância agrícola, como o trigo, arroz, cana-de-açúcar, sorgo, milho, sendo capaz de promover aumentos na produtividade destas culturas. Além de fixar nitrogênio esta bactéria é uma promotora de crescimento vegetal. Este foi o primeiro grande projeto em rede do Paraná, envolvendo todas as universidades estaduais, a UFPR, o IAPAR e a Embrapa – Soja. Ao término deste projeto, tivemos aprovado um Instituto do Milênio, que envolveu grupos no país em oito instituições. No final do ano passado, tivemos aprovado nosso Instituto, que congrega 14 grupos, tanto consolidados quanto emergentes, todos trabalhando em vários subprojetos sob a nossa coordenação. A fixação biológica de nitrogênio, é um processo realizado por um grupo restrito de bactérias, de captação e redução do nitrogênio da atmosfera. Elas têm a capacidade de reduzir esse nitrogênio a amônia, e essa amônia é utilizada por todos os outros organismos. É um processo de extrema importância para o ciclo de nitrogênio e para os seres vivos na Terra: mais de 60% do nitrogênio da biosfera vem desse processo de fixação do nitrogênio. Além de entender todo o processo, um dos principais objetivos de nossas pesquisas é obter bactérias fixadoras de nitrogênio com uma maior eficiência, e desenvolver plantas que se associem eficientemente a essas bactérias, tanto em associação simbiótica como associativa, cuja interação resultem em um melhor desempenho na fixação do nitrogênio.

NOTÍCIAS – O que representa esse trabalho economicamente para o Brasil?

PEDROSA – As bactérias fixadoras de nitrogênio funcionam como biofertilizantes nitrogenado. A economia que essas bactérias trazem para o sojicultor brasileiro ao dispensar o uso de fertilizantes nitrogenados está em torno de seis bilhões de dólares ao ano. O Brasil é o segundo maior produtor de soja e é competitivo no mercado internacional devido ao uso efetivo da capacidade das bactérias do gênero Bradyrhizobium, em fixar do nitrogênio. Em outras culturas, um grande número de estudos tem demonstrado que bactérias fixadoras de nitrogênio, principalmente Azospirillum brasilense, Herbaspirillum seropedicae e Gluconacetobacter, todas objeto de estudos do nosso Instituto, promovem aumentos de produtividade de até 30% no trigo, arroz, sorgo e milho e de 60% em alguns cultivares da cana-de-açúcar. A utilização desses últimos organismos na agricultura brasileira pode resultar em uma economia de cerca de um bilhão de dólares anuais em fertilizante nitrogenado.

NOTÍCIAS – E como estão as pesquisas hoje?

PEDROSA – No projeto Genoma, nós determinamos o genoma do Herbaspirillum seropedicae, que se associa ativamente às gramíneas já mencionadas, não causa doença, produz hormônios vegetais e fixa nitrogênio. Essa bactéria tem cerca de 4800 genes, e seu genoma, 5.400.000 pares de bases nucleotídicas. Ao ter a sequência do genoma de um organismo, você enxerga como ele funciona, quais são as suas capacidades fisiológicas e metabólicas. O que nós estamos fazendo, além de concluir alguns detalhes desse genoma, é estudar em profundidade genes de interesse acadêmico e biotecnológico. Nós já estudávamos a regulação da fixação de nitrogênio do Herbaspirillum desde 1985. Com o genoma você tem um mundo para estudar, quase cinco mil genes, e nós estamos fazendo isso. Só o nosso grupo tem cerca de 60 pessoas trabalhando em fixação biológica de nitrogênio. Com os outros 13 grupos associados, são cerca de 150 pesquisadores (docentes, alunos de mestrado e doutorado, iniciação científica e técnicos). Ao longo de nossa carreira na UFPR, trouxemos para a Universidade através destes grandes projetos mais de cinco milhões de dólares em recursos para pesquisas que beneficiaram diretamente sete departamentos. Temos um laboratório montado com equipamentos de última geração e os novos recursos do INCT permitirão atualizar e adquirir novos equipamentos.

NOTÍCIAS – A ação fixadora de Nitrogênio também tem consequências para o meio ambiente, certo?

PEDROSA – Sim, ao substituir o fertilizante nitrogenado químico, as bactérias fixadoras de nitrogênio praticamente acabam com a poluição ambiental provocada por estes compostos. Dados experimentais demonstram que menos de 50% do fertilizante químico aplicado nas culturas é efetivamente assimilado pelos vegetais. O restante ou é levado pela chuva, indo poluir rios, lagos e lençóis freáticos, ou é perdido para a atmosfera na forma de gases, óxidos de nitrogênio, capazes de promover o efeito estufa, contribuindo para o aquecimento global.

NOTÍCIAS – O senhor ainda atua na graduação?
PEDROSA – Eu estou aposentado há cinco anos. E não parei um minuto de trabalhar nos projetos de pesquisa, orientando alunos de Iniciação Científica, Mestrado, Doutorado e Pós Doutorado e ensino de Pós Graduação.

Muitas vezes a sociedade não entende as pesquisas de base, que não têm uma aplicação imediata, mas que no decorrer do tempo trazem muitos ganhos. Como o senhor vê essa questão?
Pedrosa – Me diga uma coisa: o que nós usamos no nosso dia-a-dia e que por trás não tenha pesquisa básica e desenvolvimento tecnológico? Não existe praticamente nada! Até a banana que nós comemos vem de uma cadeia produtiva com muita ciência e tecnologia envolvidas. Para ter a banana, você precisa da cultivares melhorados, manejo agrícola, qual é o melhor período para plantio e colheita, se deve ou não usar fertilizante. A utilização de Bradyrhizobium na cultura de soja também é fruto de pesquisa básica realizada em grande parte no Brasil. Nós não teríamos computadores, telefone se não houvesse pesquisa básica. Então, na verdade, o investimento em ciência básica é fundamental para se ter desenvolvimento tecnológico.

NOTÍCIA – Que conselho o senhor daria para um aluno que deseja se tornar um cientista?
PEDROSA – Desde que ele tenha curiosidade científica necessária, primeiro, não desanimar nunca. Segundo, aprender inglês seriamente, porque é a língua científica. Estudar muito, procurar grandes centros ou grupos que tenham condições de lhe dar uma formação. Isso depende de indivíduo para indivíduo, têm pessoas que querem pesquisar, mas não têm base. No início o estudante deve ser o mais aberto possível, estudar tudo o que cair na mão, até definir o que quer realmente, porque ciência é uma vida de dedicação, de idealismo permanente. As dificuldades são muitas. Durante a graduação, ele deve procurar núcleos de pesquisa de excelência, entrar como bolsista de iniciação científica, progredir para um mestrado, buscar ser promovido ao doutorado dentro do mestrado, fazer um pós-doutorado no exterior. Viajar é importante para abrir os horizontes, todo mundo que está nessa carreira tem que estudar no exterior.

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Professor Fábio Pedrosa
Foto: Leonardo Bettinelli

Fonte: Simone Meirelles [texto publicado na revista Notícias da UFPR]

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