
Professor Paulo Vinícius
Disse Paulo Vinicius que “em todas essas frentes, o meu foco principal passou a ser a infância. Os direitos sociais da infância entraram para a minha formação durante o curso, num projeto em que atuei com adolescentes com medida socioeducativa de privação de liberdade” (Silva, 2023, p.17)
O Professor Paulo Vinícius Baptista da Silva (1965- 2024) teve uma atuação incisiva na luta antirracista que se fez na Universidade Federal do Paraná para a implementação de uma política de cotas na Instituição em 2004; na criação do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB/UFPR -2004); e da Superintendência de Inclusão, Políticas Afirmativas e Equidade (SIPAD/UFPR – 2017), sempre acompanhado de colegas do Movimento Negro e da academia.
Paulo Vinicius Baptista da Silva nasceu em 01 de janeiro de 1965, em uma família popular e periférica de Belo Horizonte, o contato com as letras chegou pelas mãos de sua mãe Dona Eugênia Martins, e como disse em seu memorial e tese para titular (defendida em 25 de setembro de 2023) uma mãe “leitora voraz que compartia suas revistinhas (gibis) semanais e ainda me presenteava com fascículos colecionáveis sobre ‘os bichos’. Abria-se uma coleção gigante de animais e muitas curiosidades sobre as espécies, seu habitat, sua alimentação, sua evolução, sua reprodução.” (Silva, 2023, p.7). Outra figura muito importante na formação do Paulo foi a avô Dona Quininha.
Com ela eu aprendi muito sobre a valorização da identidade negra, pois se afirmava negro de forma explícita e manifestava seu orgulho em sê-la. Aprendi também sobre os conhecimentos tradicionais oriundos do seu catolicismo negro, com as centenas de plantas, chás, banhos e rezas que conhecia e de onde provinha a sagacidade daquela mulher semianalfabeta que tinha tido uma vida de operária, mas que ao contrário do que o senso comum dizia sobre ela se considerava uma mulher muito inteligente. (Silva, 2023, p.11).
Paulo estudou na infância na Escola Municipal Aurélio Franco, no Colégio Estadual Presidente Kennedy e no Colégio Municipal de Belo Horizonte. Na adolescência estudou no Colégio Técnico da UFMG e finalizou seus estudos no Vale do Ribeira, em São Paulo. Com essa formação técnica saiu empregado e foi morar em Curitiba, Paraná.
Uma marca do seu trabalho foi a parceria com os seus colegas de universidades brasileiras e estrangeiras, bem como com os seus orientandos, em uma atmosfera coletiva e solidária que os fortaleciam frente aos projetos que empreendiam.
Iniciou em 1987 o cursou de Psicologia, na Universidade Federal do Paraná. Outra frente paralela a esta formação foi a inserção nos movimentos populares de bamirros periféricos. Disse Paulo Vinicius que “em todas essas frentes, o meu foco principal passou a ser a infância. Os direitos sociais da infância entraram para a minha formação durante o curso, num projeto em que atuei com adolescentes com medida socioeducativa de privação de liberdade” (Silva, 2023, p.17). Nesta direção, integrou o projeto de atendimento a “meninos/as em situação de rua” numa instituição denominada ASSOMA e em seguida trabalhou na Secretaria Estadual da Criança e Adolescente em um projeto relacionado com adolescentes com medida socioeducativa de semiliberdade no Centro de Formação Profissional de Campo Cumprido.
Finalizou a graduação, em 1991, e cursou o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPR de 1993 a 1996. No decorrer do mestrado, foi professor substituto no Departamento de Teoria e Fundamentos da Educação e começou a atuar em 1995. No mesmo dia da defesa da dissertação, se inscreveu no concurso para professor efetivo de Psicologia no Setor de Educação da UFPR, tendo sido aprovado em primeiro lugar, com a nomeação no dia 05 de setembro de 1996. Nestes primeiros anos como professor efetivo na UFPR, além da docência, atuou na extensão, como por exemplo no acompanhamento e na interação de adolescentes com ambientes informatizados e também na participação do Fórum de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Fórum DCA), no NEICA e no Projeto Escola que Protege, este vinculado à SECAD/MEC.

Participou da “Comissão de Inclusão e democratização ao Acesso da Universidade Federal do Paraná”. O processo de discussão sobre adoção de cotas raciais na UFPR teve início em 2001 e se estendeu até 2004.
Em 2000 foi aprovado no doutorado em Psicologia Social na Universidade de Barcelona, mas pelo não recebimento de bolsa, não foi possível prosseguir com o curso. Em seguida fez seleção e foi aprovado para o doutorado no Programa de Psicologia Social da PUC-SP, sob orientação de Fúlvia Rosemberg, e participou do Núcleo de Estudos de Relações de Gênero, Raça e Idade (NEGRI). Sobre este encontro com a pesquisadora, Paulo se manifesta da seguinte forma: “foi um encontro que abriu muito minhas perspectivas, conhecendo as análises que incidiam sobre as interseccionalidades entre idade, raça e gênero” (Silva, 2023, p.32) e ainda complementa: Para mim aquele momento também ofereceu a oportunidade de, enfim, deparar-me com os estudos sobre relações étnico-raciais no Brasil dentro da universidade, caminho que eu havia feito de forma solitária e individual, sem encontrar respaldo nas minhas interações acadêmicas até então. (Silva, 2023, p.32)
Neste período de estudos na PUC/SP, Paulo seguiu para um período de estudos de estágio sanduíche, na Itália em 2003.
Fúlvia Rosemberg convida Paulo a participar de uma equipe de pesquisa de um projeto internacional intitulado “Racismo e discurso na América Latina”. O idealizador e coordenador do projeto era o Professor Teun van Dijk, uma das principais referências internacionais dele. Durante os anos de desenvolvimento deste projeto Paulo passou a ter contato com pesquisadoras e pesquisadores de diversos países. No percurso da sua experiência como professor, sempre manteve estes laços latino-americanos com diversas instituições e pesquisadores.

Como professor da Pós-Graduação em Educação da UFPR, participou da Linha de Políticas Educacionais e depois ajudou a criar a Linha de Diversidade, Diferença e Desigualdade Social em Educação, tendo orientado ao longo de sua carreira 173 estudantes, entre iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado.
Participou da “Comissão de Inclusão e democratização ao Acesso da Universidade Federal do Paraná”. O processo de discussão sobre adoção de cotas raciais na UFPR teve início em 2001 e se estendeu até 2004. Esse trabalho foi em parceria da colega e amiga Dora Lucia Bertúlio. A convivência e cumplicidade experimentadas nesta comissão foram base para que se organizasse logo a seguir, em dezembro de 2004, o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros na UFPR (instituído pela Portaria n. 1447 de 20 de dezembro de 2004, assinada pela professora Maria Tarcisa Silva Berga, então vice-reitora no exercício da reitoria).
Além do monitoramento das ações afirmativas, “o NEAB constituiu-se como um centro de formação continuada e inicial de professores, tencionando os currículos interna e externamente para promover a Educação das Relações Étnico-Raciais” (Silva, 2023, p.46-47), bem como um espaço de formação em extensão, especialização e de formação de quadros na área. Outro ponto é o vínculo do NEAB-UFPR com a rede nacional de NEABs desde sua constituição, com a atuação na constituição do Consórcio Nacional de NEABs na ABPN e com a participação nas edições iniciais do programa UNIAFRO e do MEC. Paulo se manteve na coordenação do NEAB-UFPR desde sua criação até 2010.
Como professor da Pós-Graduação em Educação da UFPR, participou da Linha de Políticas Educacionais e depois ajudou a criar a Linha de Diversidade, Diferença e Desigualdade Social em Educação, tendo orientado ao longo de sua carreira 173 estudantes, entre iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado: “O trabalho de orientação é um dos a que mais me dediquei ao longo da trajetória na UFPR, sempre desenvolvendo projetos de ensino-pesquisa-extensão com participação de diversos estudantes” (Silva, 2023, p.76).
Uma marca do seu trabalho foi a parceria com os seus colegas de universidades brasileiras e estrangeiras, bem como com os seus orientandos, em uma atmosfera coletiva e solidária que os fortaleciam frente aos projetos que empreendiam.
Em 2014 e 2015, realizou o seu pós-doutoramento em Barcelona, com a supervisão do seu colega Teun van Dijk, e também viveu uma temporada em Firenze, na Itália. Dentre as muitas atribuições administrativas e acadêmicas, destaca-se que foi chefe do Departamento de Teoria e Fundamentos da Educação, 1998-1999; editor da Educar em Revista (2007-2010); Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPR (2011-2012); secretário da ANPED, de 2019-2021; Vice-coordenador (2008-2009; 2012-2013) e coordenador (2010-2011) do Grupo de Trabalho Educação e Relações Étnico-Raciais (GT-21) na Associação de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação (ANPED); representante da Região Sul na Diretoria da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros(as) (ABPN), 2011-2012 e Superintendente de Inclusão, Políticas Afirmativas e Diversidade da UFPR, 2017-2024.

Ao final da tese/memorial se autodenominou assim:
Muitas vezes eu gostaria de ser Calibã. Muitas vezes eu sou. Aprendo e ensino algumas linguagens para ferir o colonizador.
No entanto muito mais me expresso catalista (no sentido dado por José Endoença Martins). Do diálogo e mais, da busca de compreensão do outro, de comunicação efetiva e de solucionar os conflitos pela comunicação e busca de entendimento. (Silva, 2023, p.188).
Quanto ao seu trabalho na Superintendência de Inclusão, Políticas Afirmativas e Diversidade (SIPAD), ele já acompanhava desde o NEAB as políticas afirmativas na UFPR e de seus impactos para a população negra, como também para indígenas, quilombolas e pessoas com deficiência. Na SIPAD, além destes grupos, passou a lidar também com as políticas de gênero, diversidade sexual e migrantes humanitários. Sobre isso, disse Paulo Vinicius: “os desafios desta empreitada foram, e são diversos, a complexidade e as encruzilhadas são muitas, as interseccionalidades a dar conta, as relações entre coletivos e movimentos sociais e gestão, talvez as mais proeminentes” (Silva, 2023, p.80).
Em 25 de setembro de 2023 defendeu a tese e memorial para a condição de professor titular do Setor de Educação da UFPR intitulada “Nas Encruzilhadas: dominação branca, racismo e antirracismo”.
Ao final da tese/memorial se autodenominou assim:
Muitas vezes eu gostaria de ser Calibã. Muitas vezes eu sou. Aprendo e ensino algumas linguagens para ferir o colonizador.
No entanto muito mais me expresso catalista (no sentido dado por José Endoença Martins). Do diálogo e mais, da busca de compreensão do outro, de comunicação efetiva e de solucionar os conflitos pela comunicação e busca de entendimento. (Silva, 2023, p.188).

Para além do espírito engajado nas trincheiras da vida, sua maior alegria estava nas artes da cozinha, nas brincadeiras com os filhos, no futebol, no cultivo das plantas, nos festejos com a família e amigos, nas descobertas com as viagens e nos bailes da vida.
Paulo Vinicius perde sua mãe em 27 de outubro de 2024 e, abruptamente ele falece na noite do dia 29 de outubro de 2024, em sua cidade natal, Belo Horizonte. Paulo deixou três filhos: Vinicius, Murilo e Nina.
Paulo era como um mar…com força e calmaria habitando juntas.
Força no ativismo, na solidariedade, na luta pelos direitos humanos e contra o racismo.
Calmaria na escuta, no acolhimento, nas leituras.
Para além do espírito engajado nas trincheiras da vida, sua maior alegria estava nas artes da cozinha, nas brincadeiras com os filhos, no futebol, no cultivo das plantas, nos festejos com a família e amigos, nas descobertas com as viagens e nos bailes da vida.
Texto escrito por Gizele de Souza,
sua esposa e companheira de vida!
