
Iygunã dalzira
Yagunã Dalzira Maria Aparecida nasceu em 17 de julho de 1941, na cidade de Guaxupé, em Minas Gerais, sua mãe trabalhava como doméstica, e seu pai ferroviário, porém, depois virou lavrador. Desde sempre, sua vida foi marcada por mudanças de lugar, trabalho no campo e novas realidades. Ainda pequena se mudou com a família para o interior de São Paulo e depois para o norte do Paraná, acompanhando o ciclo do café, entre 1950 à 1960, que foi muito importante para a economia, especialmente para famílias negras.
A experiência de crescer em uma família de meeiros (trabalhadores que dividem a produção com o dono da terra) em Centenário do Sul foi muito marcante para a formação de Yagunã. Apesar da esperança de melhorar de vida, dificuldades financeiras e dívidas levaram à perda das terras no final dos anos 1960. Isso fez com que a família saísse do campo e se mudasse definitivamente para Curitiba, em 1970, durante o período da ditadura militar.
Em Curitiba, Yagunã morou no Bairro Alto, que na época tinha pouca infraestrutura, mas uma forte convivência comunitária. Foi nesse ambiente que ela construiu redes de apoio importantes em sua vida, principalmente para sua atuação no movimento negro, na religião e na educação.
No final dos anos 1970, mesmo com a repressão política, Yagunã começou sua militância no movimento negro, participando do GRUCON (Grupo de União e Consciência Negra). Sua atuação surgiu das vivências de racismo e da falta de reconhecimento da população negra na história da cidade. Mesmo sem uma formação escolar completa, ela tinha um forte senso de responsabilidade coletiva. Sua trajetória na educação foi marcada por pausas e muito esforço, ela completou seus estudos por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA), nos anos 1990. A importância do estudo em sua vida foi muito reforçada por sua mãe, que costumava dizer: “Um analfabeto é um cego”, e foi essa frase que motivou Yagunã a buscar o conhecimento ao longo da vida.
Em 1986, iniciou-se no Candomblé, em um momento de busca por identidade e espiritualidade. Para ela, a religião foi uma forma de reconexão com a ancestralidade africana, rompida pela escravidão. Ao refletir sobre, Yagunã afirma: “A iniciação representa um ganho para quem se perdeu no tráfico negreiro, em que não se podia sequer pensar ou lembrar-se do local de origem, se quisesse continuar vivo” (Entrevista MAFRO, 2025). A religiosidade aparece, então, como forma de recomposição simbólica e política da identidade negra.
O aprofundamento na vida religiosa levou a posição de sua liderança como Iyalorixá. Em 1993, recebeu o Deká e, em 1994, fundou o Ilê Asé Ojubo Ògún – Associação Cultural Omo Ayê, na região metropolitana de Curitiba. O terreiro passou a ser um espaço de prática religiosa, acolhimento e transmissão de saberes, especialmente em um contexto de preconceito contra religiões de matriz africana.
Sua atuação religiosa sempre esteve ligada à educação e à política. O terreiro funciona também como um espaço de formação, combate ao racismo religioso e valorização da cultura negra. A oralidade é central nesse processo.
A partir dos anos 2000, Yagunã começou a aproximar os saberes tradicionais do meio acadêmico. Em 2003, aos 63 anos, entrou na faculdade, desafiando padrões sobre idade e educação. Depois, fez mestrado na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, pesquisando a relação entre religião, natureza e tecnologia. Mesmo estudando tecnologia, ela defende limites no uso da internet dentro das práticas religiosas. Para ela, nem tudo deve ser exposto. Em entrevista ao MAFRO, Yagunã sintetiza essa posição ao afirmar: “O uso da internet nos terreiros é inevitável, mas no espaço público, não no privado. O público é para o público, o privado para o privado” (Entrevista MAFRO, 2025). A diferença entre o que pode circular e o que deve ser privado aparece como princípio fundamental para a preservação da tradição.
Sua trajetória acadêmica continuou até o doutorado em Educação, concluído já em idade avançada. Sua pesquisa questiona a ideia de que apenas o conhecimento científico é válido, defendendo o respeito e a valorização dos saberes tradicionais.
Ao longo de mais de 50 anos em Curitiba, Yagunã construiu uma trajetória marcada por migração, trabalho, militância, religiosidade e educação. Sua história mostra como mulheres negras tiveram (e têm) um papel fundamental na construção da cidade, mesmo muitas vezes sendo invisibilizadas.
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