Nossa história
A partir de uma interlocução entre o professor Paulo Vinícius Baptista da Silva (in memoriam), a Deputada Federal Carol Dartora e o Ministério da Igualdade Racial (MIR), ocorrida no primeiro semestre de 2024, o Projeto Linha Preta 2.0 foi contemplado com financiamento do MIR, via Emenda Parlamentar; e fui convidada para compor a equipe de coordenação desse projeto. Em linhas gerais, a proposta tinha o objetivo de expandir a já conhecida Rota Turística Linha Preta, criada por uma equipe de pesquisadoras e pesquisadores vinculada à UFPR, durante o Congresso de Pesquisadores/as Negros/as que aconteceu em Curitiba, em 2015.
No entanto, em agosto de 2024, o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu a execução de todas as emendas parlamentares, impedindo o início do projeto. Com isso, aguardávamos a liberação das emendas para formalizar a equipe de trabalho e planejar as ações. Contudo, em 29 de outubro, o prof. Paulo Vinícius ancestralizou de forma abrupta e precoce.
As emendas foram liberadas em 2 de dezembro. Diante da ausência deixada pelo coordenador geral, coube a mim tal função. Assim sendo, convidei a profa Juliana Barbosa para participar da equipe, que contava também com Cristiano Amorim. Em um prazo de 20 dias, fizemos a tramitação interna da documentação exigida na UFPR e o Termo de Execução Descentralizada (TED) com o MIR foi assinado em 23 de dezembro de 2024.
Os recursos vieram com a especificidade de serem utilizados somente para serviços, ou seja, para pagamento de bolsas e outros profissionais, não podendo fazer compras de materiais, como havia previsão no projeto Linha Preta 2.0. Sendo assim, idealizamos a criação de uma plataforma com o objetivo de divulgar os espaços de presença negra no Paraná e fomentar o afroturismo. passamos a elaborar uma alternativa institucional viável, capaz de reunir pesquisa, memória, acervo digital e difusão pública. A equipe inicial reunia áreas como antropologia, relações públicas e gestão financeira, mas ainda não dispunha de domínio técnico sobre os procedimentos museológicos formais. Para entender como poderia ser feito, tivemos uma reunião com a coordenadora e a museóloga do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE/UFPR), que nos orientaram sobre os procedimentos necessários para a feitura de um museu.
A partir dessa orientação, fizemos as primeiras contratações por meio de Edital: de profissional de museologia, pesquisadora doutoranda e graduando em jornalismo. Durante o primeiro semestre de 2025, nos reunimos semanalmente no Laboratório de Estudos em Relações Étnico-Raciais (LERER- prédio histórico da UFPR) e planejamos como poderia ser o museu e o seu nome. Foi no amadurecimento de nossas discussões que o nome Museu de Territórios Afroparanaenses foi abraçado. Desse modo, no primeiro semestre de 2025, nos debruçamos, de um lado, sobre a fundamentação do museu, sobre sua missão, sua visão e seus valores. E, de outro, na pesquisa sobre territórios negros em Curitiba.
Em julho de 2025, apresentamos esse projeto para aproximadamente 40 representações de entidades negras e pesquisadoras/es, a maioria de Curitiba, para uma escuta sobre as expectativas em relação ao que estávamos construindo e para onde direcionar o nosso olhar.
No início da noite de 24 de julho de 2025, um dia de muito frio, aos poucos, foram-se achegando à Sala da Memória -do prédio histórico da UFPR – as pessoas convidadas para a 1ª Reunião Técnica Ampliada do projeto Museu de Territórios Afroparanaenses (MAFRO/UFPR). Nessa reunião foi ressaltada a invisibilidade e o apagamento histórico do povo negro e de seu legado, o direito à memória, o direito à história, o direito ao patrimônio cultural da população afroparanaense. Uma das pessoas destacou que o MAFRO é um aquilombamento. Outra, falou da relevância da presença dos terreiros no Museu: “o que fizemos, o que produzimos é Patrimônio”. Outra destacou a dificuldade de encontrar histórias trans-negrascentradas. Outra, ainda, sugeriu fazer um acervo das oralidades, “que os mais velhos possam contar suas histórias”.
Por mais de três horas, as pessoas presentes nessa reunião fizeram comentários sobre a relevância do museu, sugerindo, muitas vezes, nomes de pessoas e de lugares para conhecermos e registrarmos. Este momento de interlucução foi fundamental para nossas decisões posteriores e para compreender a relevância e alcance daquele projeto para a comunidade negra.
O MAFRO nasce como um território de memórias, histórias, expressões culturais, territorialidades, identidades e presenças negras. Um museu gerado por muitas mãos, muitas vozes e muitos caminhos. Presenças negras que geram o Museu de Territórios Afroparanaenses.
Judit Gomes da Silva
Coordenadora do Museu de Territórios Afroparanaenses
Junho/2026
