
Água pro Morro
Texto de leitura rápida: A escultura Água pro Morro representa uma mulher negra carregando uma lata de água.
Produzida em 1944 e instalada em praça pública em 1996, a obra passou décadas sem informações sobre a identidade da mulher retratada. Pesquisas recentes ajudaram a reconstituir essa história.
A escultura “Água pro Morro”, produzida em 1944 pelo escultor paranaense Erbo Stenzel, mostra uma mulher negra carregando uma lata de água sobre a cabeça. Sua postura transmite movimento e esforço, destacando o peso do trabalho que realiza. A obra representa uma realidade comum nas cidades brasileiras do século XX, especialmente em locais com pouca infraestrutura, onde muitas pessoas precisavam buscar e transportar água como parte do seu cotidiano e da própria sobrevivência.
A escultura que hoje se encontra na Praça José Borges de Macedo, no centro de Curitiba, não é a original de 1944, mas uma reprodução instalada em 1996. Essa réplica foi colocada no espaço público como uma homenagem oficial ao escultor, dentro de ações da prefeitura para valorizar a arte escultórica do Paraná. Nesse processo, o destaque foi dado ao artista e à obra como criação artística, sem explicar o significado social da cena nem quem é a mulher representada.

aos fundos do Sesc Paço da Liberdade, em Curitiba. Foto: Pedro Costa
Breve resumo: A escultura Água pro Morro, criada em 1944 por Erbo Stenzel e hoje representada por uma réplica instalada em 1996 no centro de Curitiba, mostra uma mulher negra carregando água e simboliza o trabalho e a realidade de muitas mulheres negras no Brasil urbano. Por décadas, a obra foi apresentada sem informações sobre a identidade da mulher retratada, ficando conhecida apenas como “Maria Lata d’Água”, o que contribuiu para seu anonimato. A partir de 2010, pesquisas e ações de artistas e coletivos negros revelaram que a modelo era a artista Anita Cardoso Neves, devolvendo identidade e novos significados à escultura. Com isso, a obra passou a ser reconhecida não apenas como criação artística, mas como um importante símbolo da memória negra, da presença das mulheres negras na história e das disputas sobre o significado dos monumentos na cidade.
Os documentos oficiais sobre a escultura registram informações como autor, data e localização, mas não explicam quem é a mulher negra representada nem por que esse tema foi escolhido ou qual sua relação com a história de Curitiba. Essa falta de explicação fez com que a obra passasse a ser vista de forma genérica, sem um significado claro. Com o tempo, a escultura ficou conhecida popularmente como “Maria Lata d’Água”, um nome que não é o original e que contribuiu para tornar a mulher representada uma figura anônima, sem identidade própria. Esse apelido se espalhou no imaginário da cidade e foi reforçado até mesmo pela placa informativa que estava junto à obra.
A placa instalada em 1996 reforçava essa lógica ao mencionar apenas o apelido popular e a homenagem ao escultor, sem trazer qualquer informação sobre quem era a mulher representada ou sobre o contexto histórico da cena. Em um momento posterior, essa placa desapareceu, e a escultura ficou por mais de uma década sem qualquer identificação. Nesse período, a obra continuou presente no cotidiano das pessoas, mas sem explicações ou mediação institucional, o que aumentou a distância entre a imagem e sua própria história.
A partir de 2010, a escultura começou a receber atenção crítica de pesquisadoras, artistas e coletivos de mulheres negras da cidade. Esses grupos passaram a questionar tanto o apelido dado à obra quanto a falta de informações sobre a mulher retratada. O olhar deixou de se concentrar apenas no artista e passou a valorizar a mulher representada como um sujeito histórico, com identidade e importância próprias, e não apenas como parte da composição da escultura.

aos fundos do Sesc Paço da Liberdade, em Curitiba. Foto: Pedro Costa
Pesquisas realizadas nesse período identificaram que a mulher que inspirou a escultura foi a artista carioca Anita Cardoso Neves. Essa informação, que ficou ausente das versões oficiais por décadas, mudou a forma de entender a obra, pois devolveu identidade e história à mulher representada.
Pesquisas realizadas nesse período identificaram que a mulher que inspirou a escultura foi a artista carioca Anita Cardoso Neves. Essa informação, que ficou ausente das versões oficiais por décadas, mudou a forma de entender a obra, pois devolveu identidade e história à mulher representada. Mesmo que o título da escultura não tenha sido alterado, essa descoberta deixou clara a diferença entre a obra, a pessoa que serviu de modelo e os significados que foram sendo atribuídos a ela ao longo do tempo. Esse processo de ressignificação foi impulsionado pela união entre pesquisa acadêmica, produção artística e mobilização política, com destaque para o trabalho da artista visual e pesquisadora Eliana Brasil, cujo ensaio ajudou a revelar a identidade de Anita Cardoso Neves e a questionar as interpretações construídas sobre a escultura ao longo dos anos.
Essas iniciativas levaram à reposição de uma placa informativa ao lado da escultura, em novembro de 2023, com novas informações e um novo significado simbólico no espaço público. Essa mudança não encerra as discussões sobre a obra, mas representa um passo importante, pois reconhece oficialmente reivindicações feitas pela sociedade civil e por coletivos negros, ampliando a forma como o monumento é compreendido e apresentado.

aos fundos do Sesc Paço da Liberdade, em Curitiba. Foto: Pedro Costa
Essa imagem remete a práticas historicamente ligadas ao trabalho das mulheres negras, especialmente ao transporte de água em contextos urbanos com pouca infraestrutura, e ao papel fundamental dessas mulheres na sustentação da vida cotidiana.
A figura da mulher com a lata de água possui um forte significado simbólico que vai além da escultura em si. Essa imagem remete a práticas historicamente ligadas ao trabalho das mulheres negras, especialmente ao transporte de água em contextos urbanos com pouca infraestrutura, e ao papel fundamental dessas mulheres na sustentação da vida cotidiana. Ao mesmo tempo, é uma imagem muito presente no imaginário brasileiro e pode ser interpretada de diferentes formas: tanto como um símbolo de resistência e força quanto como a reprodução de estereótipos, dependendo da forma como é apresentada e contextualizada.
A escultura Água pro Morro foi a primeira obra em espaço público de Curitiba a representar uma mulher negra, o que lhe dá grande importância histórica e simbólica. Ao mesmo tempo, essa relevância contrasta com o fato de que, por muito tempo, houve pouco registro sobre a mulher retratada. Hoje já existem informações seguras sobre o autor, a data, a modelo e os processos recentes de valorização da obra, mas ainda faltam dados sobre como ela foi recebida pelo público quando foi criada, em 1944, e quando foi reproduzida e instalada em 1996.

aos fundos do Sesc Paço da Liberdade, em Curitiba. Foto: Pedro Costa
Referências:
BRASIL, Eliana. Travessia em Água pro Morro: a história nos pertence. 2021. Disponível em: https://elisartista.wixsite.com/performance. Acesso em: 1 jul. 2022.
DIAS, Nathaly de Moraes. Memória, esquecimento e cidadania: ressignificando “Água pro Morro”. Revista Vernáculo, n. 51, 2023.
SZYMANSKI, Nathaly de Moraes Dias. A escultura Água pro Morro e os processos de nomeação no espaço urbano de Curitiba. RELACult – Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura e Sociedade, v. 11, n. 1, 2025.
Essas ausências mostram que parte da história da escultura foi preservada não em documentos oficiais, mas na memória das pessoas e no uso cotidiano do espaço, mostrando como monumentos podem, ao mesmo tempo, mostrar e esconder aspectos importantes da história da cidade.
Para o Museu Afro-Paranaense, a escultura Água pro Morro faz parte da Rota Enedina e ajuda a conectar arte pública, memória negra e as disputas sobre o significado da cidade. Em vez de apresentar a obra como um símbolo com um único sentido, o museu a trata como um objeto que reúne diferentes histórias, interpretações e processos de ressignificação ao longo do tempo. Ao destacar a imagem da mulher carregando a lata de água, o museu convida o público a perceber não apenas a escultura em si, mas também os sentidos que foram atribuídos e questionados com o passar dos anos. Assim, a escultura é compreendida como parte de uma história em constante construção, onde a presença negra é fundamental, e não apenas um detalhe secundário.
