MUSEALIZAÇÃO DA MEMÓRIA DO CIRCUITO DAS ENGENHARIAS COM A PRESENÇA NEGRA
APRESENTAÇÃO:
Essa conexão entre as histórias mostra um aspecto pouco lembrado: a presença constante de engenheiros negros em diferentes períodos da construção da infraestrutura brasileira. No século XIX, os irmãos Rebouças contribuíram com obras importantes de transporte e integração. No século XX, Enedina Alves Marques participou de projetos ligados à energia e à engenharia hidráulica. Mesmo vivendo em épocas diferentes, eles tiveram em comum a contribuição técnica para transformar o território brasileiro.
As histórias de André e Antônio Rebouças e de Enedina Alves Marques mostram que grandes obras do Brasil também foram construídas por profissionais negros, que enfrentaram barreiras sociais, mas deixaram contribuições importantes e duradouras para o território e para a história do país.
Em um momento que o Brasil ainda vivia no regime escravocrata, André e Antônio Rebouças se destacaram pela excelência e pelo talento.
A atuação no Paraná dos irmãos Rebouças, demonstra não apenas competência técnica excepcional, mas também a capacidade de romper barreiras raciais em uma sociedade excludente. Sua trajetória serve como importante referência histórica do potencial intelectual e profissional da população afro-brasileira”, destacou, ainda. “O legado dos Rebouças não apenas transformou a infraestrutura paranaense, eles desafiaram as hierarquias da sociedade da época”, concluiu.
Engenharia
Engenharia é a arte de aplicar conhecimentos científicos e empíricos à criação de estruturas, dispositivos ou processos para a conversão de recursos existentes em novas formas adequadas ao uso.
Quando observamos a Usina Parigot de Souza por essa perspectiva, ela deixa de ser apenas uma obra de engenharia e passa a ser também parte de uma história maior, ligada ao trabalho e à presença de profissionais negros na ciência e na tecnologia. Essa visão ajuda a questionar narrativas tradicionais que costumam associar o desenvolvimento apenas a certos grupos sociais, e dá visibilidade a trajetórias que foram fundamentais para a construção do país.
Porém, a história dessa usina não deve ser vista apenas como um avanço tecnológico ou como resultado de decisões do governo. A presença de Enedina nesse processo mostra que profissionais negros também participaram da construção de grandes obras no Paraná, mesmo enfrentando um ambiente marcado por desigualdade racial e de gênero. Ela se conecta com a história de engenheiros negros, que participaram da construção de grandes obras que ajudaram a transformar o território paranaense ao longo do tempo. Sua trajetória também ajuda a perceber que a engenharia brasileira foi construída por muitas pessoas diferentes, embora muitas dessas contribuições tenham sido pouco reconhecidas.
Dessa forma, a usina, a Estrada da Graciosa e outras obras relacionadas à Serra do Mar fazem parte de um mesmo processo histórico: a transformação da paisagem do Paraná, a expansão das rotas de circulação e o aproveitamento dos rios para gerar energia. Ao reconhecer essas conexões, o patrimônio técnico e industrial do estado também se torna um espaço de memória da participação negra na engenharia brasileira.
Essa abordagem permite compreender a Casa do Estudante Universitário como um espaço que articula políticas públicas de educação, memória profissional e história urbana. A CEU não aparece apenas como edifício funcional, mas como parte de um processo histórico mais amplo, no qual a presença negra na construção do Estado do Paraná começa, ainda que tardiamente, a ser reconhecida e documentada.
A trajetória de Enedina Alves Marques evidencia os obstáculos enfrentados por mulheres negras no acesso à formação técnica e aos cargos públicos especializados. A conclusão do curso, em 1946, representou uma ruptura significativa com padrões sociais vigentes.
Nesse sentido, a vinculação simbólica entre Enedina e a Casa do Estudante Universitário adquire relevância particular. O edifício, concebido para garantir condições materiais de permanência estudantil, passa a ser também um marco da presença de uma engenheira negra na construção de políticas públicas educacionais no Paraná, ainda que os contornos técnicos dessa participação não estejam plenamente documentados.
A nomeação da CEU em homenagem a Enedina Alves Marques ocorreu posteriormente à sua atuação profissional e integra um movimento mais amplo de reconhecimento público de sua trajetória. Esse processo de reconhecimento inclui sua inserção em políticas de memória, homenagens institucionais e pesquisas acadêmicas que buscam reconstituir sua contribuição para a engenharia e para o serviço público estadual. A análise das fontes permite, portanto, uma leitura cuidadosa da CEU. Há reconhecimento consistente da associação entre o edifício e a trajetória profissional de Enedina Alves Marques, sustentado por estudos acadêmicos e registros institucionais. Ao mesmo tempo, persistem lacunas documentais quanto à natureza exata de sua atuação técnica na obra, lacunas que devem ser explicitadas para evitar afirmações não sustentadas pelas fontes.
No contexto do Museu Afro-Paranaense, a escultura conecta pesquisa histórica, políticas de memória e a vivência atual da cidade. Ao estar em um espaço público central, a obra contribui para tornar Enedina Alves Marques mais presente e visível na paisagem e na memória de Curitiba.
Os estudos sobre Enedina indicam que, apesar de sua atuação em obras de grande porte, sua presença frequentemente aparece de forma genérica nos registros, sem a especificação das atribuições desempenhadas, o que impõe limites à reconstrução minuciosa de sua atuação. Essa ausência de detalhamento técnico não é incomum na documentação referente à atuação de mulheres negras em campos profissionais historicamente masculinizados.
Ao olhar para o chafariz da Praça Zacarias, é possível perceber que o desenvolvimento urbano de Curitiba também foi construído com o trabalho de profissionais negros, que contribuíram diretamente para o crescimento técnico e social da cidade.
Ao mesmo tempo, demonstra como a identidade racial dos Rebouças e outros intelectuais negros sofria apagamento já no período em que viveram, por meio de estratégias de embranquecimento social, próprias de uma sociedade racista e personalista como era a brasileira, em geral, e a paranaense, em particular. Esse paradoxo, a nosso ver, é um importante pista para a produção de outra memória e história sobre a presença de Antônio, André e demais negros intelectuais no passado paranaense. (BARBOSA; ANJOS; SILVA, 2020, p. 7)
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CRONOLOGIA
1837 – Proibição de negros e escravizados de frequentar escolas no Brasil foi formalizada pela Lei nº 1, de 14 de janeiro de 1837.
1838 – Nascimento de André Pinto Rebouças, no dia 13 de janeiro, em Cachoeira, Província da Bahia no Brasil Império.
1839 – Nascimento de Antônio Pereira Rebouças Filho, no dia 13 de junho, em Cachoeira, Província da Bahia no Brasil Império.
1846 – A Família Rebouças muda-se da Bahia para a cidade do Rio de Janeiro. Os irmãos Rebouças, André e Antônio ingressam na Escola Militar.
1850 – Lei das Terra estipula que negros não podem ser proprietários.
1860 – André e Antônio formam-se engenheiros militares.
1860 – Os Irmãos Rebouças viajam e permanecem naa Europa por dois anos.
1864 – Antônio Rebouças foi nomeado engenheiro-chefe da Estrada e formulou o projeto da Estrada da Graciosa.
1865 – André Rebouças torna-se Voluntário da Pátria e participa da Batalha de Tuiuti no conflito contra o Paraguai.
1871 – Assinada a Lei do Ventre Livre,
1871 – Autorização para os Irmãos Rebouças projetarem o Caminho de Ferro Curitiba a Antonina.
1871 – Criação do projeto de água encanada até o Chafariz Público, por Antônio Rebouças Filho.
1873 – Inauguração oficial da Estrada da Graciosa (PR-410).
1874 – André Rebouças engaja-se na luta abolicionista com afinco.
1874 – Falecimento de Antônio Rebouças, aos 35 anos, em São Paulo, após ter contraído febre tifoide.
1880 – Início das obras da Ferrovia Curitiba-Paranaguá.
1883 – André Rebouças, retorna de viagem dos Estados Unidos e Europa e retoma a continuidade das campanhas contra a escravidão no Brasil, animadas pelas manifestações de rua e pelos debates parlamentares.
1885 – Inauguração, em 02 de fevereiro, da Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá, com 110 km de extensão, 14 túneis e 30 pontes.
1885 – Lei do Sexagenário
1888 – Assinatura da Lei Áurea. Abolição formal da escravidão sem políticas de integração social ou econômica para os ex-escravizados, gerando exclusão estrutural.
1893 – André Rebouças passa a viver na Ilha da Madeira, até sua morte cinco anos depois.
1898 – Falecimento de André Rebouças, aos 60 anos de idade, em 09 de maio.
1899 – Final do Século XIX, o racismo se estabelece disfarçado de ciência: período da eugenia (Francis Galton), no Brasil.
1913 – Nascimento de Enedina Alves Marques, no dia 13 de janeiro, em Curitiba-PR.
1920 – Instalação da casa do Major Domingos Nascimento Sobrinho.
1931 – Diplomação de Enedina Alves Marques como professora normalista.
1934 – A Constituição de 1934 (Art. 138) determinava que era dever do Estado “estimular a educação eugênica”.
1938 – Enedina cursou o preparatório para engenharia da Universidade do Paraná.
1940 – Enedina Alves Marques ingressa na UFPR, em Engenharia Civil.
1945 – Enedina Alves Marques formou-se em Engenharia Civil.
1948 – Criação da Casa do Estudante Universitário de Curitiba (CEU).
1948 – Declaração Universal dos Direitos Humanos, em cujo 2º artigo garante direitos e liberdades estabelecidos na declaração a todos sem distinção de qualquer espécie.
1949 a 1951 – Enedina foi a engenheira fiscal da obra a Usina Cotia, Bairro Alto, Antonina-PR e participou dos estudos hidráulicos da usina Capivari-Cachoeira (atual Usina Hidrelétrica Gov. Parigot de Souza).
1951 – Promulgação da Lei Afonso Arinos (Lei nº 1.390/51), que tornou a discriminação racial uma contravenção penal.
1956 – Inauguração documenta da Casa do Estudante Universitário de Curitiba (CEU).
1971 – Inauguração da Usina Hidrelétrica Capivari-Cachoeira (Usina Hidrelétrica Gov. Pedro Viriato Parigot de Souza), pela Copel.
1977 – Surge o Movimento Negro Unificado (MNU), que, dentre tantas ações, institui o Dia Nacional de Consciência Negra, 20 de novembro, em celebração à memória de Zumbi dos Palmares (1977-1978).
1981 – Falecimento de Enedina Alves Marques.
1984 – Translação da Casa Domingos do Portão para o Juvevê (Iphan).
1988 – Constituição da República Federativa do Brasil. A “Constituição Cidadã” proíbe o racismo, tornando-o crime inafiançável e imprescritível (Art. 5º, XLII), além de reconhecer os direitos das comunidades quilombolas (Art. 68 do ADCT).
2000 – Anos 2000, a Era das Ações Afirmativas.
2024 – André Rebouças passa a ter o seu nome inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, pela Lei Federal nº 15.003.
2024 – Instalação da escultura de Enedina Alves Marques,no calçadão da Rua XV de Novembro, no centro de Curitiba.
Mapa
- Curitiba – Local de Nascimento de Enedina Alves Marques.
- Cachoeira, Província da Bahia no Brasil Império – Local de nascimento dos Irmãos Rebouças.
- Esquina das ruas Vital Brasil e Castro Alves, no Portão – Casa Domingos Nascimento Sobrinho.
- Rua José de Alencar nº 1888 – Sede do Iphan/PR, antiga Casa Domingos Nascimento Sobrinho.
- Usina Hidrelétrica Capivari-Cachoeira (Usina Hidrelétrica Gov. Pedro Viriato Parigot de Souza) – Antonina-PR (PR Enedina Alves Marques).
- Escola Militar do Rio de Janeiro – André e Antônio Rebouças concluíram a formação em Engenharia.
- Chafariz da Praça Zacarias – Irmãos Rebouças
- Estrada da Graciosa – Irmãos Rebouças
- Casa do Estudante Universitário – CEU – Enedina
- Colégio Estadual do Paraná – Enedina
- Estação Ferroviária de Curitiba – Irmãos Rebouças
- Campus Rebouças – Irmãos Rebouças.
REFERÊNCIAS
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BAHLS, Aparecida Vaz da Silva. Praças de Curitiba: espaços verdes na paisagem urbana. Fundação cultural de Curitiba, 2006, 193p.
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CONSELHO REGIONAL DE ENGENHARIA E AGRONOMIA DO PARANÁ (CREA-PR). Enedina Alves Marques: pioneira na engenharia e símbolo de resistência. Curitiba: CREA-PR, 2025. Disponível em: https://www.crea-pr.org.br/ws/2025/05/enedina-alves-marques-pioneira-na-engenharia-e-simbolo-de-resistencia/. Acesso em: 4 mar. 2026.
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CURITIBA (Câmara Municipal). Praça Zacarias: de Largo do Ivo aos tempos atuais. Curitiba: Câmara Municipal de Curitiba, s.d. Disponível em: https://www.curitiba.pr.leg.br/informacao/noticias/praca-zacarias-de-largo-do-ivo-aos-tempos-atuais. Acesso em: 4 mar. 2026.
CURITIBA (Prefeitura Municipal). No Centro, chafariz lembra a época de água abundante, mas difícil de conseguir. Curitiba: Prefeitura de Curitiba, 2022. Disponível em: https://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/no-centro-chafariz-lembra-a-epoca-de-agua-abundante-mas-dificil-de-conseguir/63049. Acesso em: 4 mar. 2026.
CURITIBA HISTÓRICA. Enedina Alves Marques. Curitiba Histórica, s.d. Disponível em: https://www.curitibahistorica.com.br/publicacoes/343/enedina-alves-marques. Acesso em: 21 jan. 2026.
CURITIBA. Prefeitura Municipal. Engenheira Enedina Alves Marques ganhará monumento na Rua XV de Novembro. 26 out. 2022. Disponível em: https://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/engenheira-enedina-alves-marques-ganharamonumento-na-rua-xv-de-novembro/65943. Acesso em: 26 jan. 2026.
CURITIBA. Prefeitura Municipal. Escultura da engenheira curitibana Enedina Alves Marques começa a ganhar forma. 29 jul. 2023. Disponível em: https://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/escultura-da-engenheira-curitibana-enedina-alvesmarques-comeca-a-ganhar-forma/69605. Acesso em: 26 jan. 2026.
CURITIBA. Prefeitura Municipal. Escultura da engenheira curitibana Enedina Alves Marques começa a ganhar forma. Curitiba, 2023. Disponível em: https://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/escultura-da-engenheira-curitibana-enedina-alves-marques-comeca-a-ganhar-forma/69605. Acesso em: 19 jan. 2026.
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