Os cartazes da intervenção urbana repercutem episódios em que o assassinato de mulheres ganhou a mídia mostrando as “certidões de óbito” de Mércia Nakashima, Tatiane Spitzer e Maria Islaine de Morais. Já um conjunto de cartazes com pedaços destacáveis (do tipo usado para anunciar cursos e imóveis) traz material de orientação para os diretamente envolvidos em um relacionamento abusivo (vítimas e parceiros) e até para os que convivem com o casal. Mais cartazes e posters lambe-lambe, dessa vez de denúncia, avisam: “você bateu nela”, “ele te agrediu” e “você viu e não fez nada”.
O amplo conjunto de peças gráficas compõe o trabalho de conclusão de curso (TCC) da ex-estudante de Design Gráfico da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Mariana Rodrigues Provenzi, de 22 anos, que venceu em dezembro o Prêmio Bom Design 2019 na categoria “prática”. Orientado pelo professor Marcos Beccari, o TCC de Mariana foi defendido em 2018 e sugere formas de uso do design gráfico em espaços públicos, em manifestações artísticas, como forma de combater a violência doméstica cometida contra as mulheres.
Batizado de “Maria Maldita” por sugestão de uma colega — para dar um nome às mulheres que, segundo a frase do lugar-comum rasteiro, “gostam de apanhar” –, o trabalho teve objetivo central de desconstruir o discurso de naturalização que ainda persiste para justificar comportamentos abusivos contra as mulheres.
Empoderamento
Boa parte do tom da campanha surgiu durante uma das observações em campo para o TCC, feita no Centro de Referência de Atendimento à Mulher em Situação de Violência (Cram) de Curitiba. Foi lá que uma psicóloga da equipe do centro levantou uma reflexão importante sobre as campanhas contra a violência doméstica: as fotos que mostram imagens de mulheres espancadas chocam, mas não promovem o empoderamento feminino, que é o que motiva as vítimas a buscarem a mudança de vida e a responsabilização dos agressores.
Outra questão foi a opção por incluir terceiros como público. Além de desmitificar o dito popular (“em briga de marido e mulher não se mete a colher”), a proposta é dar o caminho das pedras para que testemunhas da violência também saibam como agir. “Por isso a série principal de peças é tão enfática e direta, busca quebrar esta anestesia através da desnaturalização, tanto para os atores diretamente envolvidos, quanto para testemunhas”, conta Mariana.
Ativismo
Segundo o professor Marcos Beccari, que orientou o TCC no Departamento de Design Gráfico, o embasamento teórico do trabalho está centrado em um tripé: design centrado no humano; design social ou ativista; e filosofia pós-estruturalista. Assim, o trabalho abrangeu pesquisa sobre o tema de violência doméstica contra a mulher, inclusive por meio da coleta de depoimentos — com a ajuda da Casa da Mulher Brasileira e do Cram –, e a exploração dos conceitos de “desconstrução” e dos designs ativista e centrado no humano para a construção da intervenção em espaço urbano.
O tema do TCC se encaixou no Grupo de Estudos Discursivos em Arte e Design, que Beccari coordena na UFPR desde 2018. Ligado ao Programa de Pós-Graduação em Design (PPGDesign) da UFPR, o grupo é voltado à investigação crítico-filosófica nos campos discursivos do design e das artes visuais. “O design gráfico sempre foi indissociável da crítica social e essa relação tem se mostrado cada vez mais potente, o que requer, no âmbito acadêmico, uma atenção aos discursos que o design faz circular, intencionalmente ou não”, explica o professor.
Sobre o Prêmio Bom Design
O Prêmio Bom Design é promovido pela ProDesign>pr e pela Associação para o Design do Paraná de forma a revelar anualmente os futuros expoentes do design do sul brasileiro. São premiados três lugares em cada categoria (“prática” e “teórica”), além de menções honrosas.
Leia o TCC “Maria Maldita: design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher” (2018) neste link
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