Premiada nacionalmente, iniciativa liderada pelo Lageamb em Paranaguá ensinou a monitorar o volume de chuvas e a compreender os alertas meteorológicos; em Colombo, estudantes aprendem como prevenir desastres
Por Viralume – Laboratório de Comunicação Pública da Ciência
Frente ao avanço da crise climática, as respostas mais eficientes para a proteção das cidades podem estar fincadas no próprio solo — ou melhor, na lama fértil e resiliente dos manguezais. No município de Paranaguá, no litoral do Paraná, a comunidade do Jardim Guaraituba transformou-se no epicentro de uma açãosocioambiental que substitui o concreto cinzento pelas chamadas tecnologias verdes e azuis. O projeto Arranjo de Soluções Baseadas na Natureza (SBN) em Manguezais, coordenado pelo Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais (Lageamb) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), surge como uma alternativa prática para a adaptação urbana e a justiça social em áreas periféricas do país.
As Soluções Baseadas na Natureza (SBN) fundamentam-se em um princípio lógico e sustentável: em vez de combater os ciclos naturais com grandes obras de engenharia tradicional, utiliza-se a própria infraestrutura ecossistêmica para mitigar riscos socioambientais. O ecossistema manguezal funciona como uma esponja natural e amortecedora das marés, essa abordagem ganha contornos vitais. No Guaraituba, o desafio consiste em recuperar áreas degradadas adjacentes ao Parque Estadual do Palmito (PEP).
Em vez de construir grandes canais de concreto e bueiros tradicionais (a chamada “infraestrutura cinza”), o projeto usa o “verde” das plantas e o “azul” da água trabalhando juntos. O manguezal funciona como uma esponja: o verde (as raízes e árvores) amortece a força das marés e segura o solo, enquanto o azul (os canais naturais) direciona e limpa a água das chuvas, reduzindo drasticamente os alagamentos na comunidade.
O maior trunfo da ação implantada em Paranaguá reside na capacidade de mediar conceitos científicos complexos em ações pedagógicas. Coordenados pela equipe do Lageamb, cientistas e moradores levaram a pauta climática para dentro das salas de aula. Uma campanha de mobilização envolveu estudantes do Ensino Fundamental I e II na confecção artesanal de pluviômetros, também conhecidos como pluvipet. As crianças e os adolescentes aprenderam a confeccionar o pluviômetro, a monitorar o volume de chuvas e a compreender os alertas meteorológicos de sua região.
A iniciativa transformou a rotina escolar e foi elogiado pela comunidade local. Morador do Jardim Guaraituba, o oficial de manutenção Jhonatan Alves expressou o orgulho e a satisfação de ter acompanhado de perto o impacto da ação. “Ver o interesse, a curiosidade e o entusiasmo das crianças ao aprenderem sobre a medição da chuva e a importância desse conhecimento para o meio ambiente foi uma experiência muito satisfatória e gratificante”, afirmou.
O projeto busca aproximar a ciência da realidade dos estudantes, incentivando-os desde cedo a observar a natureza com um olhar analítico. Através de atividades práticas, as crianças compreendem melhor os fenômenos climáticos e passam a valorizar o papel da ciência no cotidiano. Para Alves, o papel dessas iniciativas é fundamental na formação dos cidadãos do futuro: “Acredito que projetos como esse fazem a diferença na formação das novas gerações, aproximando o conhecimento da realidade dos estudantes e contribuindo para uma sociedade mais consciente e preparada.”

Denise Ribeiro, também moradora do bairro, acompanhou de perto o impacto do projeto. Para Denise, o grande diferencial da iniciativa foi a forma lúdica e acessível com que o tema foi abordado com as crianças. Ela destaca que o uso dos pluviômetros foi uma ferramenta pedagógica essencial para que os alunos compreendessem a realidade climática da região. “Foi um trabalho muito criativo para que eles entendessem que, quando um pluviômetro está cheio, eles sabem a quantidade de água que caiu no município naquele dia”,explica a moradora.
Mais do que apenas ler números, o projeto ensinou as crianças a aplicarem esse conhecimento no dia a dia para a própria segurança. Em uma cidade que historicamente convive com pontos de alagamento, os alunos aprenderam a prever cenários de risco. “Eles já sabem quais ruas não devem andar para vir para a escola ou para ir embora”,pontua Denise, reforçando o caráter preventivo da ação. Satisfeita com os resultados, Denise não esconde o desejo de ver a iniciativa crescer e alcançar ainda mais jovens na região. “Gostei muito de fazer e gostaria muito que conseguissem levar para mais escolas em Paranaguá. Que viessem mais coisas para poder abastecer as escolas”,defende a moradora, apostando na educação como a principal via para construir uma cidade mais resiliente e consciente.
Para quem acompanhou o dia a dia da ação, o impacto educativo é evidente. “Este projeto é muito bom e muito interessante. Ele fez o atendimento com as crianças e as famílias que moram na Baixada, ensinando-as a se protegerem através do pluviômetro. Elas aprendem como se prevenir das enchentes e dos alagamentos aqui na região. É muito bom ter feito parte deste projeto”, afirmou a diretora de uma das escolas, Alcyone Correia Maletzke Neves.

O pilar central dessa proposta é a democratização do conhecimento científico. Em vez de apenas receberem alertas de forma passiva, os cidadãos participam diretamente da coleta e análise de dados sobre as chuvas na região, gerando um valioso aprendizado prático e colaborativo. “Esse conceito tem justamente essa intenção de transformar moradores e estudantes em cientistas cidadãos. Eles ajudam tanto a construir a ciência, de forma geral, quanto, no caso específico dos pluvipets, a monitorar os índices pluviométricos do município”, explica Ana Paula Lourenço, bolsista técnica do Lageamb.
Ao unir a sabedoria popular das comunidades periféricas à pesquisa acadêmica, a experiência do Jardim Guaraituba evidencia o potencial dos manguezais como infraestruturas naturais fundamentais para a adaptação climática e a proteção dos territórios costeiros. O modelo construído no litoral paranaense demonstra que a verdadeira resiliência climática é indissociável da justiça socioambiental e da participação comunitária. De acordo com Ana Paula Lourenço, olhar para as margens das cidades é urgente e estratégico: “As periferias sempre estiveram às margens das políticas públicas. Então, quando você traz a periferia para o centro, você também está trazendo populações que, na maioria das vezes, é a maior parte do Brasil. Paranaguá tem 47,2% da população em área de ocupação irregular ou de periferia, ou seja, é quase metade do município nessa situação. Então, acredito que quando a gente traz uma política pública que trabalha com a periferia, a gente está trabalhando com o centro também e com a grande maioria.”
As iniciativas que unem universidade, escola e moradores também ocorrem em outras regiões. Entre os meses de abril e junho de 2026, a comunidade de Vila Nova, em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba, foi o cenário de uma mobilização essencial para a segurança de seus moradores. A campanha “Prevenção começa antes: conhecendo os riscos da comunidade de Vila Nova” levou educação ambiental e conscientização sobre desastres a um território historicamente marcado pela vulnerabilidade socioambiental. O principal objetivo da ação foi ampliar a percepção de risco da comunidade e, acima de tudo, estimular o protagonismo infantil, transformando os estudantes em agentes multiplicadores de prevenção para ajudar a construir um bairro mais resiliente.
As atividades foram divididas em duas etapas complementares que uniram teoria e prática. Na primeira fase, crianças participaram de aulas expositivas sobre deslizamentos, enchentes e inundações. Para além dos livros, os estudantes realizaram uma saída de campo para reconhecer as áreas de risco no próprio bairro, produziram cartazes de conscientização e confeccionaram pluvipets. Na segunda etapa, o conhecimento cruzou os muros da escola e as mobilizadoras elaboraram um folder educativo. O material foi distribuído de porta em porta na Vila Nova, acompanhado de conversas informativas com os moradores sobre como agir em situações de emergência. “O principal objetivo da campanha foi a união entre experiências locais e conhecimentos técnicos para conscientização da comunidade e a prevenção de riscos climáticos”, afirmou Martha Böck.
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