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Proposto na Cop28, Arco da Restauração da Amazônia quer regenerar 24 milhões de hectares da floresta até 2050. Na foto, garimpo no rio Madeira e desmate no limite da Reserva do Lago do Cuniã, em agosto de 2020. Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real/Flickr

Cientistas da UFPR assinam carta na Science que alerta sobre riscos à biodiversidade em planos de regeneração

Segundo grupo de pesquisadores brasileiros, entre eles dois do Laboratório de Evolução e Diversidade Zoológica da UFPR, projetos precisam se comprometer em garantir heterogeneidade de espécies similar à do ambiente nativo

Publicada na edição de 26 de janeiro da revista Science, uma carta assinada por 17 pesquisadores brasileiros da área de biodiversidade revela a preocupação do grupo com projetos de regeneração de biomas recém-anunciados no Brasil que ainda não se comprometeram em garantir heterogeneidade de espécies.

O grupo faz parte do Centro de Conhecimento em Biodiversidade, uma reunião de núcleos de pesquisa que, cada um dentro do seu foco, se dedicam aos seis biomas brasileiros. O texto tem entre os seus autores dois membros do Laboratório de Evolução e Diversidade Zoológica (LEDZ) do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR): o professor Fabricius Domingos e o pesquisador Hernani Oliveira.

Segundo a carta, intitulada “Aim for heterogeneous biodiversity restoration” (em tradução livre, “visar a restauração heterogênea da biodiversidade”), a conservação de áreas remanescentes deve ser priorizada e os grandes planos de restauração ambiental precisam prever uma ampla regeneração, que é mais complexa nos biomas tropicais.

Trecho de Mata Atlântica em Piraquara (PR). Bioma teve plano de regeneração anunciado por consórcio de governos estaduais do Sul e do Sudeste em outubro. Foto: Samir Nosteb/Commons

Para isso, os programas precisam ser fundamentados em políticas locais e nacionais de suprimento de conjuntos de espécies variadas da fauna e da flora. Do contrário, os ambientes regenerados serão homogêneos demais, a ponto de não trazerem os ganhos ambientais esperados, não atuando, por exemplo, para mitigar consequências da crise climática.

“O problema com os programas tradicionais de regeneração é que eles utilizam bancos de dados muito generalistas sobre a vegetação de cada local a ser regenerado”, explica Domingos. Sem compromisso com a heterogeneidade, os contratos com a iniciativa privada para planejamento e trabalho de regeneração seguem listas padronizadas de espécies, desconsiderando particularidades regionais, por exemplo.

Bilhões

Os cientistas se referem especificamente a dois programas. Um deles é o Arco da Restauração da Amazônia, proposto pelo Brasil na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2023 (Cop28) no fim de 2023. A proposta do governo federal, via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e Ministério do Meio Ambiente de Mudança do Clima (MMA), é, até 2050, restaurar 24 milhões de hectares da floresta, com investimento orçado em 40 bilhões de dólares no total.

O outro é o Tratado da Mata Atlântica, que foi firmado por meio do Consórcio de Integração Sul e Sudeste (Cosud) entre governadores do Sul e do Sudeste, em outubro. A promessa é recuperar 90 mil hectares do bioma mais devastado do Brasil, plantando 100 milhões de árvores.

“Qualquer um que viaja de carro e percorre longas distâncias percebe que a vegetação nativa varia ao longo do espaço, seja associada à altitude, ao solo, ou mesmo com a distância. Se a regeneração for feita usando as mesmas espécies de árvores, por exemplo, nos arredores de São Paulo e Curitiba, a variação será ignorada e, no fim, teremos uma homogeneização da vegetação, que será totalmente diferente da nativa de cada região, um cenário realmente indesejável”, explica o professor da UFPR.

Frente a isso, Domingos e os demais autores da carta pedem que o planejamento científico desses programas corresponda ao aporte significativo de investimentos.

“É muito importante que já sejam planejados de forma coerente desde o início, utilizando informações próprias sobre a vegetação nativa de cada região”.

Outra preocupação do texto é com a perda de foco na proteção de ecossistemas originais, que têm papel vital para a biodiversidade.

“Idealmente, a heterogeneidade encontrada em ecossistemas de referência deveria guiar o estabelecimento de metas e a seleção de espécies. Assim sendo, é essencial proteger remanescentes naturais que servem de fonte de propagação e de referência para a restauração. Ecossistemas remanescentes também contribuem para a conectividade ecológica, viabilizando e acelerando processos de colonização”, dizem os pesquisadores na carta.

Foto de destaque: Proposto na Cop28, Arco da Restauração da Amazônia quer regenerar 24 milhões de hectares da floresta até 2050. Na foto, garimpo no rio Madeira e desmate no limite da Reserva do Lago do Cuniã, em agosto de 2020. Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real/Flickr

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