Dissertação defendida no Programa de Pós-Graduação em História da UFPR analisa como o escritor da República Velha, cujo nascimento completa 145 anos nesta quarta-feira (13), adotou a periferia além do trilho do trem como símbolo da sua obra
Foi por meio de um “bota-abaixo” que o Rio de Janeiro do início do século XX decidiu ingressar na modernidade. Mais de 500 prédios e casarões demolidos para dar lugar a uma arquitetura inspirada na parisiense explicam a expressão popular, que, em sentido figurado, também revela as mudanças sociais higienistas que ocorreram no período. A reforma do prefeito Pereira Passos dividiu a então capital do país em duas, criando o subúrbio que o escritor Lima Barreto viu surgir na juventude e onde viveu a maior parte da vida. Para, no fim, deixar expresso aos familiares o pedido para que o sepultassem em outro lugar.
A presença do subúrbio na obra de Lima Barreto, marcada pela crítica social e que inclui livros autobiográficos, inspirou a pesquisa desenvolvida por Milena Dantas no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná (UFPR), sob orientação do professor Andre Luiz Cavazzani. Analisando principalmente as crônicas do escritor, nascido em 13 de maio de 1881, a pesquisadora buscou compreender que representação o subúrbio teve na função de cenário comum do seu conjunto literário.
O subúrbio carioca tem dois surgimentos, o físico e o simbólico. Geograficamente, são as terras que ficam na faixa intermediária entre as regiões centrais criadas pela urbanização — processo em que ocorreu a industrialização e a expansão da malha ferroviária — e a zona rural.
Depois das reformas urbanas, porém, o subúrbio passou por um “rapto ideológico”, termo de Nelson da Nobrega Fernandes citado pela pesquisa. Deixou de ser uma definição geográfica de áreas afastadas para se tornar o território para além dos trilhos do trem que era espaço de moradia dos mais pobres, sinônimo de pobreza, abandono estatal e penúria. Era o território dos que nunca tiveram oportunidade (caso dos escravizados e dos seus descendentes recém-libertos) e dos que até tiveram alguma, mas não conseguiram aproveitá-la. Para ambos, sobrava a vida no “refúgio dos infelizes”, na expressão barretiana.
Trata-se de uma visão crítica sobre o território do ponto de vista de quem ocupou a posição social de neto de escravizados durante a República Velha, período histórico marcado por hipocrisias, racismo e desigualdade.
“A descrição do subúrbio que surgiu na pesquisa é como um espaço em processo de transformação. De um lado, as antigas chácaras e, do outro, essa longa faixa que segue a linha férrea central. Dois espaços, dois tempos, um invadindo o outro, um espaço entremeio. Fica clara a crítica do autor ao processo de modernização considerado autoritário e excludente”, lembra Milena Dantas.
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