O mesmo diagnóstico e o mesmo objetivo: o diploma da universidade. Essa é a história de três jovens alunos com deficiência da Universidade Federal do Paraná (UFPR) que estão unidos na busca pela formação superior e a realização de seus sonhos: Charleston, Bruno e Filipe.
Os estudantes foram diagnosticados ainda na infância com a Distrofia Muscular de Duchenne (DMD), uma doença genética rara e progressiva que afeta principalmente meninos e causa degeneração e fraqueza nos músculos. A progressão e a intensidade da condição variam para cada paciente, mas geralmente há necessidade do uso de cadeira de rodas.
Filipe Silva Fleig e Bruno Steffen Monteiro ingressaram na UFPR em 2025. Eles são estudantes dos cursos de Ciências Ambientais e Licenciatura em Ciências Exatas, em Matinhos e Pontal do Paraná, respectivamente. Filhos de professores da universidade, eles contam com o apoio dos colegas e dos servidores dos campi no dia a dia da sala de aula e saídas de campo.
Já Charleston Roberto de Oliveira Mayer Junior é o novo calouro de Direito, em Curitiba. O estudante realizou entrevistas e acompanhamentos com a instituição antes do início das aulas, para garantir a melhor acessibilidade para o andamento do ano letivo.
Os três alunos fazem parte de um grupo de cerca de 950 estudantes da UFPR com deficiências, que inclui também surdos e pessoas com transtorno do espectro autista (TEA). Esse público é acompanhado pela Pró-reitoria de Ações Afirmativas e Equidade (Proafe), que atua com a comunidade universitária na promoção de práticas e políticas inclusivas de permanência, participação e aprendizagem desses estudantes.
As limitações da Distrofia Muscular de Duchenne não foram um impeditivo para Charleston Roberto de Oliveira Mayer Junior, calouro de Direito da UFPR. O jovem de 21 anos começou a apresentar os primeiros sinais da DMD na primeira infância, quando surgiram as primeiras dificuldades motoras.
Charleston sempre teve motivação para seguir estudando. Ele chegou a iniciar a graduação em Análise e Desenvolvimento de Sistemas no Instituto Federal do Paraná (IFPR), mas após uma intercorrência grave de saúde em 2024, em que chegou a ficar na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por 22 dias, o jovem decidiu mudar de curso. Seu objetivo é cumprir com um novo propósito: o de lutar pelas pessoas com deficiência. Uma das inspirações foi a mãe Alessandra, também advogada e ativista pelos direitos deste público.
“Eu pretendo até investir na política, justamente nessa questão das pessoas com deficiência e doenças raras. E para mim o curso de Direito vai ser extremamente importante para justamente conseguir atuar da melhor forma possível nessas causas.”, afirma. “Eu acho bem importante também nós, as pessoas com deficiência, podermos lutar por nós mesmos, pois nada melhor que uma pessoa que vive a própria condição para entender as necessidades.”
Após um período estudando sozinho, Charleston prestou o Vestibular e o Enem 2026 para ingressar na UFPR. Ele conta que se sente muito emocionado de estar passando por essa nova etapa:
“Não tem nem como explicar. É incrível você estar entrando na Universidade Federal do Paraná, agora que comecei a estudar é que a ficha está caindo”.


Filipe Fleig nasceu no mesmo ano da UFPR Litoral: ele estava na barriga da mãe, a professora Cristiane Rocha Silva, quando ela prestou o concurso para ingressar na universidade, em 2006. O pai, Daniel Fleig, também é professor no setor.
Com os pais imersos no ambiente da universidade, a escolha pela UFPR parecia natural – restava decidir qual curso seguir.
“Eu sempre gostei muito dessa questão de ambiente, natureza, essas coisas. Por já conhecer o setor, acabei escolhendo Ciências Ambientais”, conta.
O jovem descobriu a Distrofia Muscular de Duchenne aos 9 anos; desde então, está na busca por melhores tratamentos que incluem fisioterapia, acupuntura e novas medicações. Com o apoio da família, Filipe vem vencendo as barreiras causadas pela doença: ele consegue se deslocar sozinho para a universidade com a cadeira motorizada, e busca participar de todas as várias atividades de campo que o curso exige. Nesse semestre, o jovem conseguiu uma bolsa de iniciação científica e vai pesquisar a quantidade de microplásticos nas areias do litoral.
O estudante destacou que é bem acolhido e conta com a ajuda dos colegas e dos professores no dia a dia, como para colocar os materiais na mochila ou adaptações nas atividades avaliativas. Nas saídas de campo, por exemplo, a turma usa um ônibus circular ao invés de um ônibus de viagem, para que Filipe possa acessar o veículo pela plataforma elevatória e acompanhar os colegas nas viagens.
“Eu estou gostando muito do curso. O pessoal ajuda muito no que precisa, são muito prestativos. Me sinto muito acolhido. Apesar das dificuldades, tudo dá bem certo”, afirma.


Assim como Filipe, Bruno Steffen Monteiro também já conhecia o ambiente universitário antes de entrar na graduação. Seu pai é Ricardo Rodrigues Monteiro, professor da UFPR Litoral.
Bruno está cursando a Licenciatura em Ciências Exatas, na Unidade Mirassol do campus Pontal do Paraná. Ele também descobriu a Distrofia Muscular de Duchenne ainda na infância, o que o levou a apresentar dificuldades motoras e precisar usar a cadeira de rodas motorizada.
Com maior gosto pela área das Exatas, optou pelo curso que era ofertado pelo setor, e que permite a escolha entre as áreas de matemática, física e química. As adaptações para uma melhor acessibilidade começaram no início do ano letivo: como Bruno precisava de um suporte adequado, o pai teve a ideia de utilizar uma das mesas que estavam sem uso na instituição.


O jovem também teve o apoio dos colegas e dos docentes que se uniram para acolher Bruno da melhor maneira na sala de aula. Para facilitar o manuseio dos materiais sobre a mesa, por exemplo, os professores também adaptaram o formato das avaliações.
“Na hora das provas, algumas questões que ficavam na parte de baixo da folha me atrapalhavam um pouco, poque meu braço não alcança direito. Aí fizeram vários pedacinhos de papel, cada um com uma questão, para diminuir o tamanho da folha e para ficar mais fácil de manusear”, conta.
Embora a licenciatura geralmente encaminhe para a docência, Bruno descobriu na faculdade que tem outros caminhos para trabalhar na área que gosta. Ele reforçou o valor de estar na instituição, apesar das dificuldades enfrentadas:
“Acho muito bom, porque eu tenho uma coisa para fazer e pro futuro eu posso pensar em alguma coisa nessas três áreas”, afirma. “Professor, pesquisador… tem possiblidades”.
Em 2026, foi registrado o ingresso de 289 estudantes com deficiências, surdos e pessoas com transtorno do espectro autista (TEA) na UFPR. Os estudantes passam por um acompanhamento da Coordenadoria de Acessibilidade (CAS), vinculada à Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade.
Esse acolhimento consiste em uma entrevista com os alunos, que gera um relatório a ser enviado para as coordenações dos cursos para indicar as adaptações que eles podem precisar. Isso pode incluir empréstimo de tecnologias assistivas e acompanhamentos na sala de aula.
“O processo inclusão do estudante é gradual, porque quando o aluno chega na universidade, nem sempre ele sabe que tipo de coisas ele vai encontrar na universidade, que tipo de barreiras, que tipo de adaptações eles podem precisar”, explica Wagner Bitencourt, coordenador da CAS. “Então eles vão construindo esse entendimento no decorrer do curso, por isso esse relatório pode mudar”.
Wagner conta que esse processo é bem diverso, afinal, cada situação é singular.
“Não existem duas pessoas com deficiência que necessitem as mesmas adaptações, sempre tem diferença. Tem cadeirante que consegue empurrar a própria cadeira de rodas, outros precisam de uma cadeira motorizada. Alguns alunos surdos são usuários de libras, outros não. Então cada atendimento é bastante único”, afirma.
Charleston Junior foi um dos alunos atendidos no começo do ano pela CAS. Ele terá uma transcritora à disposição na sala de aula, para anotar os conteúdos. O jovem elogiou o acompanhamento da universidade:
“A equipe já marcou uma reunião assim que eles souberam que eu ia entrar na UFPR, para a gente discutir toda essa questão, o que que precisa, o que que falta para facilitar meu estudo”, conta. “Todo o trabalho está sendo muito bom”.
A CAS está localizada em Curitiba, mas abrange também os campi avançados, fazendo a entrevista com os estudantes de forma remota e elaborando o relatório do suporte acadêmico. Mas esses alunos têm também o apoio de servidores que os auxiliam, como pedagogos, assistentes sociais e professores. Na UFPR Litoral, uma das pessoas que fazem esse trabalho é a professora Natália Gomes dos Santos, que coordena o projeto de extensão “Incluir na UFPR Litoral: construindo caminhos para a efetivação da inclusão das pessoas com deficiência nos espaços educativos”.
“Esse projeto tem várias frentes, como eventos para a discussão sobre a acessibilidade e inclusão para a comunidade interna e externa”, explica. “Mas dentre as ações, eu fico também à disposição dos cursos, dos colegiados, para auxiliá-los em qualquer processo de acessibilidade e adaptação pedagógica voltado aos estudantes com deficiência”.

Para Natália e Wagner, além do compromisso institucional da universidade em garantir o acesso à educação das pessoas com deficiência, é fundamental também o fomento de uma cultura de acolhimento na comunidade, entendendo que se trata de uma responsabilidade coletiva.
“O conceito de deficiência, como o que está colocado na Lei Brasileira de Inclusão, diz que a deficiência é a interação entre o indivíduo e as barreiras. Então, o nosso dever é eliminar qualquer tipo de barreira: arquitetônica, comunicação e principalmente a barreira atitudinal, que trata das atitudes e da percepção da sociedade em relação às pessoas com deficiência”, afirma a docente. “Temos que pensar que todo mundo tem condição de aprender, de se desenvolver, e a gente tem que dar as condições”.
“A gente entende que o ideal era que a coordenadoria de acessibilidade, de certo ponto de vista, não precisasse existir, que esse acolhimento acontecesse automaticamente, que as pessoas já entendessem todo esse processo”, argumenta Wagner. “Mas, enquanto a gente ainda não chega nesse estágio, a gente vai propiciando essas condições, tentando fomentar essa cultura de acessibilidade e de acolhimento dentro da universidade”.
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