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Formandos cotistas defendem reserva de vagas

23 março, 2009
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Formaturas são sempre sinônimo de emoção para o formando e familiares. Representam a conclusão de uma importante etapa na vida das pessoas, de realização pessoal, início de carreira. Neste ano em especial um ingrediente deverá potencializar ainda mais toda essa emoção: é o ano em que a universidade está formando os primeiros estudantes cotistas sociais e raciais. Para muitas famílias, são os primeiros filhos a se formarem numa universidade.

Esses formandos cotistas enfrentaram na universidade uma situação totalmente nova: eram alunos novos que haviam entrado por um sistema diferente e que causou grande polêmica no ano de 2004. Conviveram com outros estudantes cotistas ou não – alguns a favor e outros contra as cotas – passaram os últimos quatro anos vencendo o desafio de conseguir aprovação nas disciplinas como qualquer aluno federal. Enfrentaram para tal, em muitos casos, uma situação cotidiana de falta de dinheiro para manter os estudos, de conciliação entre estudo e trabalho, de esforço e sacrifício familiar para ver um filho ou filha graduado.

Veridiane Cíntia Souza Oliveira, 24 anos, vai se formar em Pedagogia agora em março. Deu esta entrevista no dia em que veio provar a beca a ser utilizada na cerimônia, no teatro da Reitoria, e falou da difícil trajetória nos últimos quatro anos: “Cheguei num ambiente estranho, achava que não tinha capacidade para ficar, no começo fui estigmatizada não por ser negra, mas porque não escrevia tão bem”, lembra ela. Com o passar dos anos e com o apoio do NEAB – Núcleo de Estudos Afro-brasileiros, Veridiane descobriu-se outra pessoa. “Passei a me reconhecer, a me valorizar como sou, como uma pessoa que valoriza a própria cultura”, exemplificando que esse valorização passa pela aceitação até da própria aparência, de estar bem com o cabelo black. “Uma pessoa que lutou e conseguiu uma vitória”, afirma.

Passados quatro anos, além de convencer a si própria, capacidade que sempre teve, convenceu também todos os demais: neste mesmo mês de março em que se forma, iniciará os estudos de pós-graduação. A menina que sequer escrevia direito passou no Mestrado de Políticas e Gestão da Educação. Eram 12 vagas e mais de 60 concorrentes. E sem cotas. Thiago de Paula, 22 anos, também quer seguir carreira de pesquisador, fará o mestrado na UFPR. Neste ano cursará o quinto ano do curso de Engenharia Florestal e já está com um “pé” na pós-graduação. Desde o início do curso participa da iniciação científica, foi bolsista voluntário no Laboratório de Anatomia da Madeira, no ano passado fez estágio na Embrapa de Colombo, trabalhando na área de pesquisas sobre bioenergia e aproveitamento de bioresíduos da indústria florestal. “Temos sempre que correr atrás”, frisa, com a convicção de alguém que fará mestrado, doutorado e tudo o que as oportunidades permitirem.

Na faculdade, igualmente enfrentou um mundo novo, tudo em construção: um curso com 450 alunos brancos, professores todos brancos e Thiago e outros três colegas negros. Como engenheiro formado ele sabe que também será um dos primeiros engenheiros florestais negros e vê isso com a tranquilidade de quem nunca teve medo de dizer que é cotista, de rebater com argumentos as idéias daqueles que sejam contra as cotas raciais.

Conscientização

Veridiane e Thiago relataram que em suas turmas nunca sofreram qualquer tipo de discriminação na universidade, mas sabem que nem todos os setores acontece o mesmo. Por isso ambos defendem a idéia de que a UFPR desenvolva ações que levem a uma conscientização maior sobre as cotas raciais. Thiago diz que muitos são a favor das cotas sociais mas contra as raciais.

Essa conscientização seria necessária até para a população negra de Curitiba, na opinião de Thiago. “Tem gente que pensa que se entrar como cotista terá tratamento diferente, carteirinha diferente como cotista, que vai ter fila para cotista, esse tipo de absurdo”, expõe, dizendo que é uma visão que a universidade teria que desmistificar se fizesse uma ação mais ostensiva de esclarecimento, indo aos bairros e à periferia para divulgar as cotas.

A procuradora Dora Lúcia Bertúlio também acredita que esse preconceito também é causa de inibição por parte dos alunos. Diferentemente das cotas sociais, as raciais não vêm sendo preenchidas na totalidade, o que significa que a população negra de Curitiba e região está tentando concorrer a uma das vagas reservadas. Neste ano, por exemplo, apenas 380 vagas foram aproveitadas por estudantes negros nas cotas raciais.

Apesar disso, o percentual de estudantes negros na UFPR mais do que dobrou depois da implantação das cotas: a procuradora Dora lembra que antes os negros eram apenas 5% na universidade, número que subiu atualmente para 13%.

NAPA

O NEAB coordena as atividades dos cotistas raciais, mas existe efetivamente para fomentar estudos afro-brasileiros, sua atividade principal é a realização de cursos de formação a respeito de relações étnico raciais para os cotistas raciais e para os professores da Rede Estadual e Municipal de Educação. Por isso, para dar um devido acompanhamento às demandas dos cotistas, está sendo criado na PROGRAD o NAPA – Núcleo de Apoio às Políticas Afirmativas.

A nova unidade será coordenada pelo professor Marcos Silveira e atuará no apoio a todos os cotistas. “A idéia central é que este Núcleo possa servir como referência para o acompanhamento da trajetória dos estudantes que estão sendo beneficiados por diversas políticas afirmativas – cotas indígenas, cotas raciais, cotas sociais, alunos estrangeiros – promovidas por instituições diferentes dentro da UFPR”. O Núcleo atenderá demandas próprias dessa clientela, que vão desde problemas que os cotistas raciais tenham com suas matrículas, prorrogação de prazos acadêmicos, até questões de racismo dentro de seus cursos e em sala de aula.

Cara a tapa

Veridiane e Thiago atenderam prontamente ao pedido de entrevista para este Jornal da UFPR porque fazem parte dos cotistas que defendem o sistema de cotas abertamente, sempre que podem. Eles acreditam que muitos cotistas “se escondem”, não revelando que entraram na universidade por esse sistema, por medo de sofrerem discriminação.

Veridiane teve média o suficiente para passar mesmo que não tivesse optado pelas cotas, mas mesmo assim tornou-se uma defensora da reserva de vagas. Ela teve que estudar e trabalhar ao mesmo tempo, sempre trabalhou e contou com a ajuda de outras pessoas – a diretora da pré-escola em que trabalha é um exemplo, ajudou-a hospedando-a na própria casa por um ano para que ela pudesse conciliar o trabalho com o estudo. Por isso, enfrentar desafios para essa estudante, filha de uma diarista e órfã de pai, e com outros cinco irmãos, sempre foi rotina.

É nesta mesma perspectiva que pensa Thiago: ele teve mais sorte, contou com o apoio da família para frequentar o curso que tem aulas durante todo o dia, sendo inviável trabalhar. A família o ajudou até que começasse a ganhar as bolsas de estudo e de estágio. Independente de seus próprias realidades, ambos afirmam que a população negra está nos bairros afastados, mais pobres na periferia. Nesse sentido, querem ser exemplo, daí talvez a explicação para não terem medo de se expor: “ É dar a cara a tapa”, diz Thiago, consciente de que não é o melhor da turma e nem precisa ser, mas com o bom rendimento que sabe que será cobrado. Os dois estudantes são os primeiros universitários e futuros profissionais de ensino superior em suas respectivas famílias e ambos querem amplificar essa nova realidade aqueles que os cercam.

Foto(s) relacionada(s):


Veridiane Cíntia Souza Oliveira, cotista do curso de Pedagogia
Foto: Izabel Liviski / Notícias da UFPR


Thiago de Paula, cotista de Engenharia Florestal
Foto: Izabel Liviski / Notícias da UFPR

Fonte: Leticia Hoshiguti / Jornal Notícias da UFPR

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