Edição de 2026 reuniu milhares de participantes e deu visibilidade a pesquisas e projetos de estudantes sobre mudanças climáticas, ensino de idiomas, cicloturismo sustentável, saúde e inclusão de estudantes indígenas
Na última semana, aconteceu a 17ª Semana Integrada de Ensino, Pesquisa e Extensão (Siepe) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), reunindo mais de 15 mil pessoas em Curitiba e 5 mil nos campi avançados de Jandaia do Sul, Palotina, Pontal do Paraná e Toledo. Ao longo de cinco dias, a comunidade pôde participar de debates, oficinas, feira de extensão e outras atividades que fortaleceram o conhecimento e a diversidade em diferentes áreas da instituição.
Um dos locais mais movimentados foi o Hall Poty Lazzarotto, no Prédio da Administração do Setor de Tecnologia. Durante os cinco dias de evento, estudantes de todos os setores, da graduação e da pós-graduação, apresentaram pôsteres com os seus trabalhos desenvolvidos em iniciações científicas e projetos de extensão. As pesquisas abordaram temas de diferentes áreas do conhecimento, refletindo a diversidade da produção acadêmica da universidade.
A organização da Siepe publicou o Volume 1 dos anais do evento, com os trabalhos do 33.º Evento de Iniciação Científica (Evinci) e do 18.º Evento de Iniciação Tecnológica e Inovação (Einti). Os demais volumes serão disponibilizados em breve.
Um dos trabalhos apresentados foi sobre a relação entre mudanças climáticas e a produção de energia no Paraná. O estudo, realizado em iniciação científica por Lucas Tamanini, do curso de Geografia, analisou dados de precipitação e temperatura ao longo de 25 anos para avaliar o impacto na matriz energética estadual.
O Paraná usa majoritariamente energia hidrelétrica, que é uma energia renovável, mas deixa o estado mais suscetível aos efeitos das mudanças climáticas. A pesquisa indicou que em 2006 e de 2019 a 2021, épocas em que houve grandes estiagens, a produção de energia elétrica caiu a ponto de ser superada por energias térmicas.
Diante desse cenário, segundo Lucas, é preciso pensar em utilizar também outras fontes de energia, como a solar e a eólica, para que haja segurança energética e não seja preciso usar fontes não limpas em tempos de crise hídrica.
“Agora estamos passando pelo El Niño, com muita chuva, mas pode ser que venha a La Niña cada vez mais forte também, com uma seca enorme”, explica. “É importante, a partir desse momento de seca, conseguir ter uma segurança energética através de fontes renováveis de energia, e não recorrer a térmicas, que é o que acontece quando a gente está tendo problemas”.

A Siepe também teve trabalhos variados no campo da Educação. Vitoria Dubezkyj, do oitavo período da Licenciatura em Letras-Inglês, investigou o papel dos aspectos afetivos do feedback no processo de aprendizagem de línguas estrangeiras. O trabalho da estudante buscou compreender como o receio de errar em sala de aula influencia as emoções de professores ao fornecer feedback e de estudantes ao recebê-lo nas aulas de aprendizado de línguas.
Vitoria explica que o trabalho busca ver a sala de aula com um olhar mais humanizado e atento às emoções.
“As emoções, mesmo aquelas consideradas negativas, funcionam como respostas a algo que está acontecendo e isso faz os professores pensarem na motivação da reação do aluno”, diz. “Esse tipo de estudo faz a gente pensar o porquê das coisas, as camadas dentro de uma sala de aula”.
Para a estudante, que já atua na sala de aula, além da produção acadêmica o trabalho contribuiu para sua formação como professora, ao permitir rever práticas de ensino e compreender melhor as reações dos alunos em sala de aula: “Muitas coisas em relação ao feedback do professor vi que estava fazendo errado e eu nem sabia. Você consegue saber por que as coisas acontecem daquela forma e tem uma teoria para se embasar também”.

Pelo 18º Evento de Iniciação Tecnológica e Inovação (EINTI), a estudante Natalia Borges, que cursa o último ano de Arquitetura e Urbanismo, apresentou um projeto focado na criação de cicloparagens ao longo da Rota Caiçara. A proposta consiste em estruturar uma rota que interliga os sete municípios do litoral, viabilizando e incentivando viagens de bicicleta por toda a região costeira.
As cicloparagens foram idealizadas para funcionar de maneira semelhante a postos de parada rodoviários, direcionadas e adaptadas para as necessidades dos cicloturistas. O diferencial do projeto é o seu caráter ecológico, com estações planejadas para serem autossustentáveis.
Segundo a estudante, a intenção é fazer o espaço ser sustentável, utilizando recursos como energia fotovoltaica e fossas de bananeira, que “possibilitariam que essas cicloparagens fossem implantadas em locais mais remotos da rota, não necessariamente dentro da cidade”.
O trabalho de Natalia está ligado ao projeto “Conecta Caiçara”. Por meio dele, estudantes do ensino médio que vivem no litoral participam ativamente de pesquisas sobre a comunidade caiçara e sua arquitetura vernacular. A ação faz parte do projeto do CNPq “Meninas e Mulheres na Ciência”.
“Nós buscamos, principalmente, incentivar as meninas e mulheres a entrar nas áreas de ciências, engenharia e arquitetura, que são áreas muito masculinas ainda”, conta a estudante. “E também trazer visibilidade para a cultura caiçara, porque é uma cultura mais esquecida, uma parte do litoral ainda pouco visitada, e queremos implementar isso e ouvir mesmo a comunidade caiçara”.
Desenvolvido em parceria com a agência de sustentabilidade Mãozinha Verde, o plano prevê a adaptação de casas caiçaras já existentes na região para que passem a abrigar as cicloparagens. O objetivo do grupo de pesquisa é finalizar o projeto técnico para, em seguida, apresentá-lo às prefeituras da região e buscar parcerias com os setores público e privado para viabilizar a implementação prática das paradas ao longo do litoral.

A Siepe também trouxe pesquisas variadas na área de saúde, como o trabalho de iniciação científica de Stéphanie Sabatke, que está no oitavo período de Psicologia. O estudo investiga a realidade de famílias afetadas pela esclerose tuberosa, uma doença genética rara que causa tumores benignos pelo corpo e que, quanto estes se desenvolvem no cérebro, podem acarretar deficiência intelectual, autismo e crises epilépticas.
O estudo, conduzido no Centro de Neuropediatria (Cenep) do Hospital de Clínicas, foca nas vivências e dificuldades das mães dessas crianças. A análise preliminar dos dados revela um forte recorte de gênero no cuidado, que no Brasil é predominantemente familiar.
“A minha amostra é toda feita de mulheres, então vemos um recorte de gênero evidente. É a mulher, a mãe, a avó materna quem fica cuidando, geralmente”, explica a estudante.
Stéphanie conta que a motivação da pesquisa surgiu ao ouvir os relatos dessas mulheres no ambiente hospitalar. Entre as principais dificuldades relatadas pelas mães, destaca-se a complexa burocracia e a judicialização que envolvem o tratamento. As famílias enfrentam barreiras para conseguir transporte com a prefeitura e para obter medicamentos de alto custo, cujos valores chegam a 20 e 30 mil reais, na Farmácia Especial do SUS. Além disso, muitas lidam com o abandono paterno e com problemas para receber pensão alimentícia.
Outro obstáculo enfrentado é a falta de compreensão social sobre a gravidade da doença, que muitas vezes não se manifesta de forma visível no corpo, mas sim como um transtorno neuropsicológico. Embora estudos internacionais já apontem altos níveis de estresse, ansiedade, estresse pós-traumático e impactos financeiros na vida dessas mulheres, o cenário brasileiro ainda carece de pesquisas específicas sobre a esclerose tuberosa.
“Aqui temos um cenário muito contextual, com o uso do SUS, então eu queria descobrir o que está difícil para essas mulheres no contexto que a gente atende”, diz. “E quando cuidamos do cuidador, cuidamos da criança também, que é um núcleo só. O cuidador doente não consegue cuidar, adoece junto. Então tem que ter uma atenção para essas mulheres.
Como objetivo final do projeto de iniciação científica, Stéphanie pretende elaborar uma cartilha de apoio para divulgar para as mães no momento em que o filho recebe o diagnóstico.

Também no campo da Psicologia, no hall do prédio do Setor de Ciências Exatas o público pôde conhecer o projeto de extensão “Mediação: diferenças em conflito – interações étnico-raciais com indígenas”, uma iniciativa que dá visibilidade e media as relações vivenciadas por estudantes indígenas no ambiente acadêmico.
Keyton Luan Monteiro, estudante de Enfermagem pertencente à etnia Xukuru do Ororubá, do agreste pernambucano, explica que, para os estudantes de diversas etnias que ingressam no ensino superior, o choque cultural e o preconceito institucionalizado representam barreiras diárias. Ele aponta a dificuldade de inserção em uma estrutura que historicamente desvaloriza as identidades originárias.
“Como enfrentar uma universidade que é feita por brancos, com uma visão totalmente eurocêntrica?”, questiona. O estudante relata que o preconceito muitas vezes parte do próprio corpo docente. “Infelizmente ainda temos essa barreira de eles acharem que, por sermos indígenas, somos menos desenvolvidos. Isso impacta. Se eu tiver qualquer pensamento que for fora da academia, não é válido”.
Como parte das ações do projeto, foi publicado o livro “Indígenas na universidade: Territorializações, tensionamentos e conquistas”, uma obra escrita por 34 autores, sendo 18 indígenas e 16 não indígenas, que compartilham suas trajetórias e perspectivas de diferentes cursos, como Medicina, Psicologia, Direito e Enfermagem. A proposta do livro é apresentar uma cosmologia complementar e acessível a todos os públicos.
A publicação está disponível gratuitamente aqui.

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