Imagem do Prédio Histórico na comemoração da escolha como símbolo de Curitiba, em 1999, reconstituída em edição. Foto: João Dias Betim. Colorização: Lucas Matheus/Sucom-UFPR

UFPR comemora 25 anos do reconhecimento do Prédio Histórico como símbolo de Curitiba

30 setembro, 2026
17:40
Por Luana Lopes
UFPR

Lei que instituiu o local como símbolo da capital veio após votação popular, que contou com intensa mobilização da comunidade universitária 

Por Bruna Soares e Luana Lopes

Os 25 anos do Prédio Histórico da Universidade Federal do Paraná (UFPR) como local símbolo de Curitiba foram celebramos nesta quarta-feira (30) em uma Sessão Extraordinária do Conselho Universitário (COUN). Realizada no salão Nobre do Setor de Ciências Jurídicas, a solenidade relembrou a escolha do edifício pela população, por meio de votação realizada em 1999, e a oficialização do título por lei municipal, em 2001. 

O Prédio Histórico hoje abriga o Setor de Ciências Humanas, com o Departamento de Psicologia, e o Setor de Ciências Jurídicas, com o curso de Direito. Também é sede da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proec), da Pró-Reitoria de Graduação e Educação Profissional (Prograp), da Superintendência de Educação Aberta a Distância e Inovações Pedagógicas (Seadip), da Biblioteca de Ciências Jurídicas, do Museu de Arte da UFPR (MusA) e da Sala expositiva do Museu de Arqueologia e Etnologia da UFPR (MAE), além de ser a casa dos Grupos Artísticos. Seu reconhecimento como símbolo oficial, 25 anos atrás, foi resultado de uma grande mobilização da comunidade, representada pelo então reitor, Carlos Roberto Antunes dos Santos. 

Além de marcar a data, a cerimônia também destacou os cuidados necessários para preservar o edifício, que integra o patrimônio histórico da cidade. O reitor da UFPR, Marcos Sfair Sunye, anunciou a conclusão, até o fim do ano, de um plano de conservação que definirá os elementos do prédio que devem ser mantidos. 

“A gente está comemorando hoje a promulgação da lei que cria esse prédio como referência em Curitiba. Além do prédio propriamente dito, vamos concluir um plano de conservação, que vai definir os elementos dentro do prédio que são essenciais e que devem ser conservados. Isso é uma exigência do Iphan, inclusive para que possa ser feita qualquer reforma”, afirma. 

Segundo Sunye, a conclusão do plano permitirá a realização de novas intervenções no edifício para atender às atividades desenvolvidas no local. 

“Até o final do ano a gente termina esse plano de conservação e, a partir daí, vai poder fazer mais reformas para atender a comunidade do Direito, da Psicologia, das pró-reitorias e da biblioteca que trabalham aqui dentro”, diz. 

A preservação do edifício também está relacionada como espaço de encontro entre a universidade e a cidade. Para a diretora do Setor de Ciências Jurídicas, Melina Girardi Fachin, a escolha do prédio como símbolo de Curitiba representa mais do que o reconhecimento de sua estrutura física. 

“A eleição desse prédio como símbolo da cidade tem uma dimensão para além da própria estrutura física do prédio. Ela também representa o papel da UFPR como espaço de produção de conhecimento e como parte da história de Curitiba”, afirma. 

Essa relação com a população também está associada a como a universidade é utilizada. Segundo Melina, o prédio recebe visitantes em iniciativas como o percurso histórico, que permite conhecer a história do edifício e seus símbolos. 

“As pessoas entram aqui, vão ao museu, podem transitar, respirar a história. E essa história não é só da universidade, é a história da nossa cidade também”, diz Melina.  

Para a diretora, os 25 anos do reconhecimento também representam uma oportunidade de olhar para os próximos anos e para a relação entre universidade e a cidade diante dos desafios contemporâneos. 

“Esses 25 anos também marcam um olhar para o futuro, da construção da cidade que a gente quer, da universidade que a gente quer e de como esses dois caminhos estão necessariamente interligados”, afirma. 

Adelaide Hercília Pescatori Silva, diretora do Setor de Ciências Humanas da UFPR também destaca que a presença do Prédio Histórico como referência da UFPR ultrapassa o espaço físico da universidade. Ela cita como exemplo o sinal utilizado em Libras para identificar a instituição, que tem como referência justamente as colunas do edifício.

“Em Libras, os sinais são atribuídos considerando alguma característica marcante daquilo que é nomeado. No caso da UFPR, o sinal que os usuários de Libras cunharam toma justamente as colunas do Prédio Histórico como característica marcante da nossa universidade para nomeá-la”, explica.

O significado de ser símbolo de Curitiba 

A transformação do Prédio Histórico da UFPR como local símbolo oficial de Curitiba foi o resultado de um processo que começou com uma votação popular. Em 1999, dois anos antes da lei, ocorreu o concurso “Eleja Curitiba”, realizado pela Prefeitura de Curitiba em parceria com o Banco Itaú. O grande objetivo da ação foi mobilizar a população em uma votação popular para escolher o símbolo da capital paranaense. O banco também fez ações semelhantes em outras cidades: em São Paulo e no Rio de Janeiro, por exemplo, foram escolhidos a Avenida Paulista e o Corcovado. 

A população escolheu o Prédio Histórico da UFPR. Dois anos depois, a Lei nº 10.236, assinada em 13 de setembro de 2001, pelo então prefeito Cassio Taniguchi, instituiu o local como símbolo oficial, após tramitação do projeto na Câmara Municipal. Na justificativa, o vereador Jair Cézar destacava a luta da universidade “em prol da intelectualidade”, o “incentivo à cultura e educação” e o “patamar de reconhecimento a nível nacional alcançado pela UFPR”. 

A professora Angela Cassia Costaldello, do Departamento de Direito Público da UFPR, explica que a escolha de um patrimônio como símbolo oficial traz consequências jurídicas, voltadas à proteção e preservação deste patrimônio pelo seu valor histórico e cultural. Entre elas, segundo a docente, estão: o prédio não pode ser demolido, desfigurado ou modificado; reformas e restaurações só podem ser feitas com autorização do órgão fiscalizador competente; proteção do entorno; dever de conservação do Prédio Histórico pela UFPR e o dever do município de viabilizar projetos urbanísticos para a preservação integral do prédio. 

Além da proteção jurídica, a escolha também confere ao patrimônio uma dimensão simbólica, como avalia a professora. 

“A escolha de símbolos como o Prédio Histórico da UFPR, que representam a identidade da uma cidade, forma um vínculo de pertencimento do bem escolhido no imaginário das pessoas. Há, portanto, a união do valor imaterial e do material”, afirma. 

Para Angela, esse vínculo também se fortalece quando a escolha do símbolo envolve a participação direta da população. 

“É fundamental a participação popular em projetos dessa natureza. Ela propicia o exercício da cidadania – que é um direito constitucional – e valoriza profundamente o sentimento de inclusão da sociedade ao contribuir para algo concreto do qual terá orgulho por traduzir cultura, memória e história e que fará parte do seu cotidiano e do futuro“, diz.

A Lei nº 10.236/2001 foi o tema de um Trabalho de Conclusão de Curso orientado pela professora Angela, desenvolvido pelo hoje mestrando em Direito da UFPR, Giocondo Lacerda. O pesquisador fez uma análise da lei, fazendo uma pesquisa histórica sobre a votação popular que escolheu o Prédio Histórico como símbolo da capital. Giocondo investigou também de que maneira o significado atribuído ao edifício pela legislação poderia contribuir para sua preservação. 

“Foram várias fontes históricas que eu consultei ou entrevistei, perguntando como era a relação do Prédio com a temática da votação”, conta. “Sobre a Lei 10.236, pesquisei como que a gente poderia somar esforços para buscar uma manutenção da praça e do entorno”. 

O TCC de Giocondo está disponível no Acervo Digital da UFPR. Mais do que objeto de pesquisa, o Prédio Histórico também é, para o advogado, parte de sua própria trajetória acadêmica: “O Prédio Histórico da UFPR representou pra mim, durante a graduação, a minha primeira Casa, um lugar e instituição que possibilitou meus estudos, uma formação de excelência. A materialização de um sonho, o ideal de educação que tanto prezo. Nada mais justo que ajudar a preservar tal edificação”.

Votação popular mobilizou comunidade  

Notícias veiculadas na época pelo jornal Folha de Londrina revelam que o Prédio Histórico não estava entre os primeiros candidatos no concurso “Eleja Curitiba”. Os seis concorrentes originais eram a Boca Maldita, o Jardim Botânico, a Ópera de Arame, a Rua das Flores, o Parque Barigui e o Parque Tanguá. Mas por conta de uma grande mobilização de alunos, ex-alunos, docentes e imprensa, a UFPR foi incluída. 

A população pôde votar nas 19 agências do banco, pela internet e em urnas volantes instaladas em parques, praças, feiras livres e outros espaços públicos. A votação terminou no dia 30 de maio e, em 7 de junho, foi divulgado o resultado: 258.130 votos para o Prédio Histórico. 

Quem também se lembra bem deste momento é a professora aposentada Ruth Eugênia Amarante Cidade, que na época era diretora do Centro de Educação Física e Desportos (CED). A docente conta que todos que tinham cargos ligados à Reitoria e às Pró-reitorias foram designados para uma comissão, que tinha o objetivo de esclarecer a comunidade universitária sobre a campanha, fazer palestras e pedir votos. 

“Me lembro que o nosso slogan era ‘A UFPR foi a maior invenção dos paranaenses’. Nosso trabalho era imenso, muitas falas dentro da universidade para que a própria comunidade aderisse à campanha”, recorda. “Eu estava muito envolvida, gostei demais da campanha, achava interessante que a população pudesse opinar sobre”. 

Botton comemorativo da época. Foto: Reprodução/Redes sociais UFPR

Ruth também guarda na memória o significado que a votação teve para a universidade e para a própria cidade. 

“Foi muito lindo quando a UFPR foi escolhida, porque diferentemente das outras capitais onde houve votação, foi uma instituição de ensino a escolhida. A cidade escolheu a história, a inovação, a educação e o envolvimento com a comunidade. Foi reconhecimento justo”. 

A mobilização em torno da candidatura do Prédio Histórico também foi vivenciada por estudantes que, anos mais tarde, continuariam ligados à universidade. Na época, Rodrigo Luís Kanayama cursava o 5º período de Direito na UFPR. Atualmente professor da instituição, ele participou da solenidade nesta quarta-feira (30) representando a Associação de Ex-alunos e Ex-alunas da Faculdade de Direito e relembrou o envolvimento da comunidade universitária na campanha. 

“Eu me lembro que todos os alunos, professores, técnicos administrativos estavam fazendo campanha em prol do prédio para demonstrar a riqueza que nós temos aqui no centro da cidade. Então, pra mim é uma grande satisfação poder celebrar esta data e dizer que a Associação dos Ex-Alunos e Ex-Alunas da Santos Andrade está ativa e, com certeza, honrará este título para os próximos anos vindouros”. 

Uma figura importante nessa campanha foi o professor emérito da UFPR, Affonso Antoniuk, na época docente do Departamento de Neurocirurgia e presidente da antiga Associação dos Ex-Alunos da Universidade Federal do Paraná. A associação distribuiu adesivos, cartazes e camisetas, e todos os participantes ficaram com a sensação de dever cumprido, como relembra Antoniuk. 

“Ficamos todos felizes porque achamos que o prédio da Universidade merecia ser o representante de Curitiba, como o elo mais importante da universidade e do ensino superior”, disse. 

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