Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais cria ferramentas para ajudar cidades
Por Viralume – Laboratório de Comunicação Pública da Ciência
A sequência ininterrupta de dias chuvosos e tempestades severas que assola diversas regiões do Paraná — e que provoca alagamentos crônicos nas cidades e assoreamento em canais de navegação no litoral — evidencia que a emergência climática deixou de ser uma preocupação futura para se tornar uma imposição diária. O alerta é do professor associado da Universidade Federal do Paraná (UFPR), geógrafo Eduardo Vedor, coordenador do Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais (Lageamb).
“Se toda a população global adotasse o padrão de consumo de países como os Estados Unidos, seriam necessários quase cinco planetas Terra para sustentar a conta. O clima, agora, cobra o preço dessa superexploração por meio de chuvas volumosas e constantes que destroem infraestruturas urbanas, paralisam economias regionais e colocam vidas humanas em risco contínuo”, afirma o pesquisador. O avanço de fenômenos como o Super El Niño e a intensificação dos eventos extremos mostram que a crise do clima é o sintoma mais visível de uma crise ambiental estrutural e profunda, na avaliação do docente.
“Embora mitigar continue sendo indispensável, a palavra-chave da gestão ambiental passou a ser a adaptação. No Paraná, onde vemos o solo saturado por semanas consecutivas de precipitação, o novo normal climático exige adequar com máxima urgência nossas cidades, o uso do solo e as encostas. É preciso agir antes que a água se transforme em tragédia humana e prejuízo econômico incalculável”, acrescenta Vedor.
Frente ao cenário de incertezas, o desafio prático da adaptação revela um dos pontos fortes da universidade pública: sua capacidade de atuar como mediadora técnica e institucional no território. Em municípios com orçamentos restritos, contidos pela burocracia ou pelo receio de sanções jurídicas ao intervir em áreas de risco, a ciência surge com possíveis soluções. “Frente ao colapso ambiental e aos eventos climáticos que não dão trégua ao estado, a universidade pública prova que é a ponte capaz de unificar órgãos de controle, governos e comunidades em torno de respostas concretas. Aproximar a ciência da gestão pública é a única garantia de que a adaptação climática ocorrerá com justiça social, rigor técnico e eficiência”, afirma o coordenador do Lageamb.

Um exemplo emblemático dessa atuação liderada pelo Lageamb ocorre no Jardim Guaraituba, em Paranaguá, no litoral paranaense. A comunidade, situada na zona de amortecimento de um parque estadual e afetada por um complexo processo de regularização fundiária, sofria há anos com enchentes recorrentes. De acordo com Vedor, a UFPR articulou o diálogo entre o Ministério Público, o Ministério das Cidades, o Instituto Água e Terra (IAT), a prefeitura municipal e as lideranças comunitárias. A mediação acadêmica garantiu a licença ambiental para implantar uma Solução Baseada na Natureza (SBN): uma trincheira de infiltração projetada especificamente para conter a água das chuvas e mitigar os alagamentos.
Além do impacto direto na qualidade de vida da comunidade, o projeto funciona como um laboratório vivo de geoprocessamento e monitoramento ambiental. Com estações pluviométricas acopladas à estrutura, os pesquisadores da UFPR medem o volume exato de chuva acumulada e a capacidade real de absorção do solo.
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Esses dados permitem calibrar modelos geoespaciais e replicar a tecnologia em outros bairros e municípios vulneráveis do Paraná com baixo custo e precisão técnica. Ao unir a sabedoria popular das comunidades periféricas à pesquisa acadêmica, a experiência do Jardim Guaraituba evidencia o potencial dos manguezais como infraestruturas naturais fundamentais para a adaptação climática e a proteção dos territórios costeiros, explica o coordenador do Lageamb.
De acordo com a bacharel em Gestão Ambiental Ana Paula Lourenço, que é bolsista técnica do Lageamb e mestre em Ciência, Tecnologia e Sociedade pelo Instituto Federal do Paraná, olhar para as margens das cidades é urgente e estratégico: “As periferias sempre estiveram às margens das políticas públicas. Quando você traz a periferia para o centro, também está trazendo populações que, na maioria das vezes, são a maior parte do Brasil”, afirma.

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