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UFPR participa de pesquisa sobre novos tratamentos via transplante fetal

18 agosto, 2020
12:27
Por
UFPR

Um estudo com participação de pesquisadores da UFPR pode trazer novas alternativas de tratamento para doenças de origem genética no sangue, como a anemia falciforme e a talassemia. 

Os resultados foram publicados recentemente na revista Blood, da Sociedade Americana de Hematologia. Os professores Camila Fachin e André Bradley dos Santos Dias, do Departamento de Cirurgia da UFPR, participaram dos experimentos no Centro de Pesquisa Fetal do Children’s Hospital of Philadelphia, Estados Unidos, com financiamento da Capes e orientação do professor Alan W. Flake. 

Atualmente, essas doenças exigem quimioterapia e transplante de medula óssea nos casos mais graves. O trabalho experimental propôs a cura durante a gestação de camundongos, com transplante de células-tronco modificadas. Isso pode substituir tratamentos agressivos após o nascimento.  

No transplante fetal, células saudáveis do sangue da mãe são inseridas na corrente sanguínea do feto. Na medula óssea, se estabelece uma competição entre as células saudáveis transplantadas e as defeituosas. Para que as doadoras ganhem a disputa, os pesquisadores as “turbinam” com um método de engenharia celular. 

Em laboratório, a equipe desenvolveu nanopartículas com uma substância (CHIR-99021) que inibe a ação da enzima GSK3 e induz a replicação de células saudáveis. O medicamento é envolto entre camadas de lipídios. Depois de um período de incubação, essas partículas se juntam às células-tronco e formam um conjunto único, como granulados por cima de um brigadeiro. 

Esse preparo celular foi injetado nos fetos das camundongas grávidas aos 14 dias de gestação. Após o transplante, as camadas de lipídios se desfazem gradativamente dentro da medula fetal e a medicação é liberada em doses não-tóxicas durante quatro semanas.  

Como as células originais da mãe produzem hemácias saudáveis, o filhote evolui sem a doença. Se fossemos apenas implantar as células da mãe sem esse preparo, elas não teriam essa força para disputar com as células do feto. Como elas passaram pela engenharia celular e estão ‘turbinadas’ com as nanopartículas, elas conseguem competir por espaço”, sintetiza o professor André.  

Arte: Juliana Barbosa (clique para ampliar)

 

O desenvolvimento das nanoparticulas envolveu uma parceria dos pesquisadores com o Massachusetts Institute of Technology (MIT). É a primeira vez que essa técnica, já usada em vacinas, é aplicada para um tratamento intrauterino.  

Os pesquisadores explicam que no transplante de medula pós-natal é necessário um condicionamento com a eliminação de todas as células do receptor por quimioterapia.  Esse tratamento pode causar mortalidade e sequelas, como a esterilidade.  

Já na solução apresentada, a concentração da droga e a sua liberação gradativa não são prejudiciais ao desenvolvimento do feto.  Além disso, o número de células saudáveis inseridas via transplante fetal é maior do que no transplante depois do nascimento, o que aumenta as chances de cura. 

A figura que foi capa da Blood mostra a medula óssea de um dos camundongos transplantados, aos seis meses de vida, no microscópio. Os pontos marrons são as células da mãe doadora. Foto – divulgação

Sobre as doenças 

A anemia falciforme e a talassemia são doenças de origem genética ligadas à alteração dos glóbulos vermelhos do sangue. Enquanto a primeira é mais prevalente entre negros, a segunda aparece mais em indivíduos com descendência europeia. 

Os professores relatam que o Brasil é o país com maior incidência de anemia falciforme fora do continente africano e é a doença genética mais prevalente no país. Segundo a Organização Mundial da Saúde, estima-se que nasçam no Brasil cerca de 1.900 crianças com anemia falciforme por ano. Em relação à talassemia, a OMS estima que cerca de 60 mil crianças nasçam a cada ano com a doença no mundo, sendo mil delas no Brasil. 

Além dos sintomas graves de anemia, as crianças normalmente não conseguem ter uma vida social plena, uma vez que são ausentes na escola, passam por múltiplas transfusões sanguíneas e têm comorbidades. Por isso, a solução apresentada no artigo pode ser um diferencial para os doentes e evitar sobrecarga do sistema de saúde, conforme explica a professora Camila: “Essa ferramenta pode transformar a realidade com o transplante intrauterino, e especificamente no nosso cenário, seria muito impactante por causa da incidência da doença”.  

Próximos passos 

A próxima fase de testes envolve o tratamento pré-clínico em animais de maior porte. Fachin e Dias mantêm a parceria com o Center for Fetal Research na Filadélfia, que desenvolve os testes no momento. Se nessa fase, a eficácia e segurança forem comprovadas, os órgãos americanos responsáveis poderão autorizar o teste em humanos. 

Os dois profissionais também atuam no Serviço de Cirurgia Pediátrica do Complexo Hospital de Clínicas da UFPR (CHC). André explica que a evolução científica nos tratamentos fetais é um processo contínuo e que é necessário estar em duas frentes: desenvolvendo e aplicando os novos métodos. “O que fazemos hoje, há 15 anos era experimental. Nosso desafio é implementar a cirurgia fetal no HC com regularidade e continuar o desenvolvimento das novas tecnologias. Não podemos parar”, resume.  

Além das parcerias internacionais, existe o apoio de outros grupos para as pesquisas experimentais. São parceiros do projeto laboratórios dos Departamentos de Fisiologia e Farmacologia da UFPR, o Laboratório de Citometria de Fluxo do Departamento de Análises Clínicas da UFPR e o Laboratório de Cultura Celular da PUCPR. 

 Por João Cubas 

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