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FEDERAL DO PARANÁ

Pesquisadores relatam primeira evidência de poluição por biomídias plásticas no litoral do Paraná

As biomídias plásticas (termo usado pela indústria de saneamento) são pequenas peças plásticas perfuradas que são usadas para o tratamento de águas residuais domésticas, industriais e agrícolas.

Desde agosto de 2023, pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da Universidade de São Paulo (USP) monitoram a presença de partículas plásticas em uma praia de Pontal do Sul. Ao todo, foram encontradas 749 biomídias em 11 das 14 praias amostradas em praias do litoral do Paraná, principalmente em Pontal do Paraná, mas também na Ilha do Mel e na Ilha do Superagui, que são unidades de conservação, como relata o artigo publicado na revista Ocean and Coastal Research. Esse é o primeiro trabalho a reportar a presença dessa poluição plástica no litoral brasileiro.

Equipe de pesquisadores. Foto: Grupo ProxyMar

Uma das coisas que chamou a atenção da discente Cecília Caroline Vieira Nunes Massignani, do Programa de Pós-Graduação em Sistemas Costeiros e Oceânicos da UFPR, foi ter observado a biomídia em uma área de proteção ambiental marinha.

O primeiro contato com as partículas plásticas se deu por meio de um membro da comunidade de Pontal do Sul, que encontrou 411 peças. “Um morador de Pontal do Sul, se deparou com uma grande quantidade dessas peças plásticas na praia, as coletou e trouxe para uma docente do Centro de Estudos do Mar no final de Junho de 2023, e essa docente nos passou o caso”, disse Renata Hanae Nagai, professora do Instituto Oceanográfico da USP  (IO/USP) e docente permanente dos Programas de Pós-graduação em Sistemas Costeiros e Oceânicos e em Geologia da UFPR.

A doutoranda Aislyn Alvarenga doo IO/USP, relata que  desde o início até o momento já foram encontradas mais de 2 mil biomídias. “Toda essa pesquisa despertou uma grande curiosidade, pois em trabalhos anteriores do nosso laboratório ela ainda não havia sido encontrada”. 

Foto: Grupo ProxyMar

“Quando vamos para campo a gente faz um desenho amostral. Partimos do ponto de escolher um local e faz o delineamento amostral para tentar entender o lixo marinho de um determinado trecho. No caso dessa pesquisa em especial, o processo foi o contrário. A gente foi para campo sabendo já o que buscar e querendo investigar esse lixo em específico que são as biomídias. Então o processo de construção da metodologia foi diferente”, comenta Cecília.

Todo o trabalho desde o começo despertou a curiosidade do doutorando da USP, do Instituto Oceanográfico, Yan Weber Mesquita, que também foi aluno do mestrado no Programa de Pós Graduação em Sistemas Costeiros e Oceânicos, na UFPR.  “Assim que tivemos conhecimento das pecinhas de plástico, despertou uma curiosidade grande. Em mim e entre as colegas do laboratório. O que eram aquelas “rodinhas” de plástico e porque tinham tantas na praia? Então começamos a pesquisar o que poderia ser, e foi surpreendente descobrir ser usado em algo tão específico, esse processo de tratamento de esgoto”.

Mapa de distribuição das biomídias encontradas. esse é o mapa de distribuição das biomídias que encontramos

Segundo Nagai, a hipótese é que a distribuição dessas biomídias têm origem em alguma estação de tratamento de águas residuais no interior do Complexo Estuarino de Paranaguá, que utilizam o sistema da tecnologia Moving Bed Biofilm Reactor (MBBR). 

Essa tecnologia oferece alta eficiência, redução do acúmulo de lodo e diminuição dos problemas de entupimento dos sistemas, por isso, é a técnica mais utilizada em estações de tratamento de águas residuais em todo o mundo. “Estamos realizando coletas mensais em uma praia de Pontal do Paraná para entender se essas partículas continuam chegando ou se o que encontramos foi um evento pontual de entrada delas no ambiente”, avalia Nagai. 

Para Ana Barbara Teixeira do Nascimento, discente do Programa de Pós-graduação em Geologia da UFPR, colaborar nesta pesquisa foi uma experiência que agregou valores para a sua  formação como cientista. “Desde as coletas de campo, que exigiam planejamento amostral, preparo dos materiais e um olhar atento para encontrar as biomídias, até a análise dos resultados e a identificação de potenciais fontes desses detritos. Apesar da parte empolgante em estar fazendo pesquisa, tem a parte triste em identificar a presença de contaminantes no ambiente”, disse. 

“Eu acho que essa pesquisa é fruto de um sucesso dessa interação com os membros da sociedade civil e a universidade”, afirma Cecília Caroline Vieira Nunes Massignani, do Programa de Pós Graduação em Sistemas Costeiros e Oceânicos do Cem/UFPR. 

Riscos eminentes 

Negai ainda evidencia que os itens plásticos maiores podem se degradar e se tornar microplásticos, que tendem a interagir com um maior número de organismos marinhos, inclusive organismos filtradores como a ostra e o mexilhão, além de oferecerem risco à fauna local. “Quando chegam na praia, ficam sobre as areias da praia assim, podem ser confundidas por alimento e acabam sendo ingeridas por engano por diferentes organismos marinhos, principalmente aves, peixes e tartarugas. Infelizmente, a ingestão desses e outros itens de plástico podem causar lesões internas nos organismos que as ingerem e podem também trazer grudados em sua superfície outros poluentes, principalmente orgânicos, em concentrações maiores do que aquelas encontradas no ambiente” 

Outro destaque é que: “O litoral do Paraná é um hotspot de interação de fauna marinha com lixo. Alguns trabalhos já publicados mostram que tartarugas marinhas interagem de forma significativa com lixo na região. Um ponto importante, é que além da fauna local, o litoral do Paraná recebe muitas espécies marinhas migratórias como tartarugas e aves marinhas”, acrescenta Negai. 

Por fim, a pesquisadora Negai explica que a melhor forma que temos de mitigar a poluição plástica nos ambientes costeiros e marinhos seria um maior cuidado no manejo e no local de utilização, ou seja, nas estações de tratamento de águas residuais, evitando assim, perdas e a introdução dessas partículas no meio ambiente. Além disso, é crucial a comunicação e o trabalho em conjunto entre os responsáveis pelas estações de tratamento e as autoridades locais.

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