Durante solenidade de comemoração, a persistência dos pioneiros foi lembrada, assim como exaltada a dedicação em manter os laços com órgãos públicos e comunidades
Por Viralume – Laboratório de Comunicação Pública da Ciência
Quem testemunhou o Lageamb (Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) nascer com apenas duas máquinas no início dos anos 2000 surpreende-se com a sua atual dimensão. O espaço consolidou-se como um centro de alta relevância que, no que tange à captação de projetos simultâneos e robustez física, ultrapassou as fronteiras dos antigos centros de estudo da instituição.
Na última quarta-feira (27), essa trajetória de sucesso esteve ainda mais em evidência durante as comemorações dos 20 anos de existência do laboratório. A persistência dos pioneiros da Geografia e da Geomática foi lembrada, assim como celebrada a dedicação em manter os laços estreitos com órgãos públicos e comunidades locais, que transforma o laboratório em uma referência de como a universidade pública pode, por meio da ciência geográfica, harmonizar conservação ecológica e desenvolvimento social.

A solenidade reuniu lideranças acadêmicas e políticas, como o coordenador-geral do Lageamb, Eduardo Vedor de Paula; a vice-reitora da UFPR, Camila Giradi Fachin; o deputado estadual Goura Nataraj (PDT); o chefe do Departamento de Geografia, Elias Fernando Berra; e o presidente em exercício do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná (CREA-PR), Hélder Rafael Nocko. O evento também contou com a presença de técnicos, bolsistas e dos professores fundadores Sony Cortese Capenaro e Everton Passos, que foram homenageados. Também receberam homenagens o servidor técnico-administrativo Luiz Carlos Zem e o bolsista Carlos Augusto Wroblewski, que integra a equipe técnica do laboratório. “Receber essa homenagem foi motivo de grande honra e gratidão. Trata-se também de importante quebra de paradigmas, evidenciando que a construção de uma instituição de excelência é resultado do trabalho coletivo de diferentes profissionais que, diariamente, dedicam seus conhecimentos e esforços em prol da comunidade acadêmica”, afirmou Zem.

Nos discursos, um olhar especial para a estrutura robusta, as parcerias estratégicas e os projetos de impactos nacional e regional do Lageamb, além de o resgate da memória daqueles que foram testemunhas do amadurecimento de uma história que começou a ser desenhada no final do século passado. Ao celebrar 20 anos de sua fundação formal, o laboratório consolida-se como um polo de inovação científica, integrando ensino, pesquisa e extensão para subsidiar políticas públicas e a conservação socioambiental.

A dimensão social e o papel do Lageamb na retenção de talentos foram os pontos centrais do discurso da vice-reitora da UFPR. Ela contextualizou que, atualmente, metade dos estudantes da instituição é oriunda de escolas públicas, fatia que engloba diversas modalidades de cotas e atrai populações em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Diante desse cenário, a gestora enfatizou que o desafio da universidade pública vai além do acesso. “Muito mais do que abrir as portas, é oferecer oportunidades para que esses alunos permaneçam na universidade”, afirmou, estendendo um agradecimento institucional ao laboratório por cumprir esse papel por meio da concessão de bolsas e do acolhimento em projetos. A vice-reitora também elogiou o ecossistema de parcerias do órgão, que envolve o poder público, empresas públicas e privadas e organizações sociais. Para ela, a grande riqueza do Lageamb — e que serve de modelo para toda a universidade — é a habilidade de promover a interrelação entre diversas áreas do conhecimento. “Isso é o que faz o Lageamb ter a excelência que tem”, concluiu.

Ao mencionar as parcerias, o coordenador-geral do Lageamb, professor Eduardo Vedor de Paula, afirmou que o laboratório agora mira um novo patamar: a transformação em um instituto. Segundo Vedor, a decisão reflete o amadurecimento de uma estrutura que há muito tempo extrapolou as fronteiras da Geografia. Atualmente, o Lageamb se consolida como um ecossistema interdisciplinar único, conectando pesquisadores de oito setores diferentes da UFPR. “Deixamos de ser um laboratório de geografia há pelo menos três anos e precisamos de apoio institucional”, pontuou. O horizonte do Lageamb também está se expandindo para fora do Brasil. O coordenador destacou o processo de internacionalização e a estruturação de uma unidade dedicada exclusivamente à captação de projetos.
Ao encerrar seu discurso, o coordenador fez questão de olhar para o futuro sem esquecer o passado. Agradeceu aos “mestres fundadores” e aos parceiros institucionais, mas dedicou suas palavras finais àqueles que movem o dia a dia da pesquisa. “Finalizo essa fala valorizando e agradecendo a cada um de vocês, bolsistas do Lageamb, que fazem desse laboratório — e, quem sabe, em breve instituto — algo muito especial dentro da UFPR”, concluiu.

O papel transformador do laboratório na formação acadêmica também foi endossado pelo chefe do Departamento de Geografia, professor Elias Fernando Berra. Segundo ele, a estrutura laboratorial cumpre a função indispensável de conectar os estudantes a vivências que extrapolam a grade curricular tradicional. Berra pontuou que, devido às limitações de tempo em sala de aula, os professores concentram-se em oferecer a base teórica fundamental. Cabe aos laboratórios, portanto, a missão de ir além. “O Lageamb fez isso no passado pelos seus atos e, nesse breve tempo em que estou acompanhando, vejo que a instituição continua fazendo isso”, afirmou.
A capacidade de transformar teoria em soluções reais para a comunidade foi apontada pelo presidente em exercício do CREA-PR, Helder Rafael Nocko, como o grande trunfo do laboratório. Para ele, o Lageamb atende a uma demanda histórica da população em relação à academia. “Conhecimento não falta na universidade, mas a aplicação prática dele é o verdadeiro diferencial do Lageamb”, afirmou Nocko.
O reconhecimento do Lageamb vai além dos muros da UFPR e das entidades de classe, alcançando também o poder público e as comunidades tradicionais do Paraná. O deputado estadual Goura destacou a seriedade do laboratório em áreas complexas e negligenciadas. “Sou testemunha desse compromisso. Vocês conquistaram o respeito das lideranças e dos indivíduos com muita seriedade e muito trabalho”, disse Goura, apontando o Lageamb como uma referência de ciência que alia rigor acadêmico, preservação ambiental e dignidade humana.

“O laboratório hoje é um produto de um conjunto de coisas que foram se sucedendo no passado, de professores pioneiros e que introduziram essa cultura, que criou o curso de especialização, que criou recursos humanos para poder melhorar os cursos de graduação, de Engenharia Cartográfica, Geografia, Geologia, para que chegasse no que chegou hoje. Nem o Centro de Estudos em Geoprocessamento (CIEG) chegou a essa grandeza de vários projetos ao mesmo tempo, um espaço físico bem estruturado”, destacou o ex-diretor do Setor de Ciências da Terra, professor Alzir Felippe Buffara Antunes, durante visita recente ao laboratório e presente na solenidade.
Para compreender a relevância atual do Lageamb, é preciso recuar no tempo, muito antes de sua consolidação institucional. A inserção do geoprocessamento no Departamento de Geografia da UFPR deu-se de forma tímida, mas audaciosa, a partir de 1987. Naquele ano, os professores Sony Cortese Caneparo e Everton Passos receberam uma cópia do software SAGA (Sistema de Análise Geo-Ambiental) cedida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Com apenas dois computadores, começaram os primeiros treinamentos práticos em uma sala que sequer tinha nome oficial.
O movimento ganhou corpo em 1989 com a criação do Laboratório de Ensino e Pesquisa em Geografia, evoluindo em 1993 para a oficialização do Laboratório de Geoprocessamento (LAGO). Era um período em que as geotecnologias enfrentavam resistência acadêmica interna, mas a visão dos pioneiros prevaleceu. Toda essa bagagem acadêmica culminou, em 2006, na criação formal do Lageamb. O laboratório nasceu sob o Departamento de Geografia com o apoio crucial do Professor Arnaldo Eugênio Ricobom, lembrado durante a solenidade, que destinou recursos vindos do Programa de Especialização em Análise Ambiental para equipar a nova estrutura.
A história foi lembrada durante os discursos emocionados dos fundadores. “É um motivo de muita alegria e gratidão estar aqui hoje e ver que o Lageamb se tornou um laboratório que dá a chance de 200 bolsistas praticarem a ciência”, afirmou a professora Sony Cortese Caneparo. O professor Everton Passos reforçou a ideia para que o laboratório seja transformado em um instituto. “Fico feliz por ver que o Lageamb nunca perdeu a sua missão e vendo a magnitude dele hoje e as característicos dos projetos, não tenho dúvida que o caminho é migrar para um instituto”, afirmou.

Em 20 anos, o Lageamb deixou de ser uma estrutura local para se transformar em uma rede colaborativa. Atualmente, o laboratório conta com aproximadamente 200 bolsistas integrando diferentes equipes de pesquisa. A atuação envolve desde soluções para análises geoespaciais e padronização de bases de dados geográficos até o uso de tecnologias modernas no campo, como aerolevantamentos com drones.
Essa capacidade técnica transformou o laboratório em um parceiro estratégico de órgãos governamentais e do terceiro setor, mantendo convênios com instituições de peso como o Ministério Público do Estado do Paraná, o INCRA e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
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