A Superintendência de Comunicação da UFPR aproveita o “Março das Mulheres” para promover a série de matérias “Elas Ocupam: em meio a conquistas e resistências”, que revisita marcos, desafios e trajetórias que ajudam a compreender a força das mulheres na sociedade e na universidade
Por Aline Fernandes e Jéssica Tokarski
A estrutura do ensino superior brasileiro registra transformações nas últimas décadas. Dados da Universidade Federal do Paraná (UFPR) indicam que as mulheres compõem a maioria dos ingressantes e predominam também entre estudantes que concluem os cursos de graduação. Este avanço estatístico ocorre em paralelo a barreiras históricas, que abrangem desde a escolha da carreira até a necessidade de políticas de apoio para garantir a permanência e a conclusão dos estudos.
Desde 2021, o número de ingressantes mulheres supera o de homens na instituição. Em 2020, o cenário era diferente: o ingresso masculino era superior, com 3.708 homens e 3.591 mulheres. Nos anos seguintes, entretanto, essa relação se inverteu. Em 2025, por exemplo, a universidade registrou a entrada de 3.646 mulheres e 3.479 homens.
A diferença também é expressiva quando se observam os números de concluintes. Entre 2020 e 2025, as mulheres mantiveram uma média de 55% do total de formados. No último ano, a universidade formou 1.500 mulheres e 1.182 homens.
Para Camila Silveira, professora do Departamento de Química da UFPR, a ocupação do espaço acadêmico pelas mulheres ocorre com comprometimento, após um longo histórico de exclusão desse ambiente. Segundo ela, os indicadores quantitativos ajudam a dimensionar o avanço feminino na universidade, mas não capturam a complexidade das trajetórias percorridas pelas estudantes.
“O espaço acadêmico já foi negado para nós, mulheres. Ocupamos esse espaço com compromisso social. Porém, isso não significa que não passamos por dificuldades, obstáculos e violências para finalizarmos os cursos. Os desafios para as mulheres são maiores que para os homens para chegarmos ao final de uma graduação ou pós-graduação ou ainda para seguirmos atuando profissionalmente”, destaca.

A ampliação da presença feminina na universidade está relacionada também à maior participação das mulheres na educação superior ao longo das últimas décadas. Para a professora do Departamento de Economia da UFPR e pesquisadora na área de juventude, gênero e mercado de trabalho, Ângela Welters, esse movimento tem ampliado o acesso das mulheres à carreira acadêmica, embora ainda existam barreiras estruturais.
“As mulheres têm tido mais acesso à carreira acadêmica, o que é resultado da maior presença do gênero feminino na educação superior, inclusive na pós-graduação. Entretanto, fatores como a maternidade e outras barreiras de ordem formal ou informal impedem uma maior equidade dentro da academia”, avalia.
Nesse contexto, a maternidade aparece como um dos fatores que impactam a trajetória acadêmica feminina. Estudos do movimento Parent in Science indicam que pesquisadoras que são mães tendem a enfrentar maiores dificuldades para manter a produtividade científica, especialmente nos primeiros anos após o nascimento dos filhos, o que pode impactar progressões na carreira e acesso a bolsas de pesquisa.
“Não se pode deixar de mencionar fatores como discriminação, preconceito de gênero e outras violências que ainda estão presentes na sociedade e nos ambientes de trabalho no setor público e privado”, acrescenta a pesquisadora.
Outro elemento que contribui para tornar a trajetória acadêmica mais desafiadora é a sobrecarga associada à chamada “política de cuidados”, expressão utilizada para descrever a atribuição histórica e cultural dos cuidados com crianças, adolescentes, pessoas idosas e tarefas domésticas às mulheres.
Para Dayana Brunetto, professora do Programa de Pós-graduação em Educação da UFPR, essa desigualdade impacta diretamente as condições de aprendizagem e permanência das estudantes.
“As condições de aprendizagem são desiguais para mulheres e homens. Homens têm a opção e a possibilidade de se concentrar integralmente nos conteúdos acadêmicos, o que não garante que façam isso. Mas eles têm essa possibilidade. Já as mulheres não, considerando que precisam estar sempre alertas e dividir a atenção entre o conteúdo e o próximo assédio, moral ou sexual, que podem sofrer, inclusive nas universidades”, declara.
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Os dados institucionais revelam uma divisão por áreas do conhecimento. Em alguns cursos, a presença feminina é predominante, enquanto em outros a participação das mulheres permanece reduzida.
Em 2026, por exemplo, o curso de Enfermagem registrou 52 ingressantes mulheres para quatro homens. No sentido oposto, em Engenharia Elétrica ingressaram 128 homens e 32 mulheres. Em Ciência da Computação (Curitiba), a proporção foi de 84 homens para 20 mulheres.
De acordo com Ângela Welters, esse padrão acompanha uma tendência nacional. Dados do Censo da Educação Superior de 2023 indicam que as mulheres representam apenas 29% das matrículas nas engenharias e 19% na área de tecnologia da informação.
“Essa distribuição não é equânime entre as áreas de conhecimento, o que indica que ainda existe espaço para avanços”, observa a pesquisadora.
A segregação que influencia a escolha profissional também persiste após o ingresso no ensino superior. Segundo Camila Silveira, mesmo quando as mulheres optam por cursos historicamente associados aos homens, elas continuam enfrentando estereótipos de gênero.



“Temos ainda um cenário de sub-representação de mulheres em vários cursos de graduação, especialmente aqueles mais fortemente marcados pelos estereótipos de gênero, afastando meninas, jovens e mulheres adultas dessas escolhas. E quando rompem essa barreira da escolha e do acesso e chegam a esses cursos, continuam sofrendo por esses mesmos estereótipos de gênero”, analisa.
Para Dayana Brunetto, que também atua nas licenciaturas de Física, Química e Matemática, a permanência das alunas nas áreas de Ciências Exatas exige um constante exercício de afirmação de competência.
“É uma cultura acadêmica historicamente arraigada nas universidades públicas ou privadas. Mas as mulheres têm demonstrado cada vez mais essa competência acadêmica, inclusive em prêmios de excelência científica”, afirma.
Nesse sentido, o predomínio feminino também aparece entre estudantes de pós-graduação. Em 2026, as mulheres representam cerca de 54% dos matriculados em cursos de mestrado e doutorado da UFPR, proporção que se mantém relativamente estável ao longo dos últimos anos.
Esse movimento se reflete, ainda, no quadro de servidores da universidade. Assim como ocorre entre os estudantes, as mulheres representam a maioria entre na contagem geral, ultrapassando 53% do total.
A predominância feminina é mais evidente entre os técnicos-administrativos, categoria em que aproximadamente seis em cada dez servidores são mulheres. Já no corpo docente, os homens ainda são maioria, embora a diferença venha diminuindo gradualmente nos últimos anos.
O dado geral, entretanto, esconde particularidades que evidenciam a persistência de desigualdades históricas, conforme pontua Ângela. “Essas desigualdades referem-se, por exemplo, ao conceito de ‘teto de vidro’, associado às dificuldades de acesso a cargos de maior prestígio ou hierarquia no mercado de trabalho”, explica.
Enquanto, na UFPR, as mulheres representam cerca de 60% dos técnicos administrativos em educação, na categoria docente elas somam apenas 45% dos postos. De acordo com Ângela, a sub-representação das mulheres na docência e nos cargos de poder nas universidades públicas é um fenômeno geral, a despeito da crescente participação das mulheres nas matrículas dessas instituições.
“Adicionalmente, as médias das remunerações são menores, inclusive quando se consideram cargos de liderança. Mesmo no serviço público, as mulheres nesses cargos têm remunerações médias 39% menores do que os homens”, afirma.
As desigualdades de gênero, embora estejam gradualmente reduzindo nas últimas décadas, ainda persistem e também se manifestam de forma desigual entre as próprias mulheres, considerando fatores como raça e nível de renda familiar.
De acordo com Dayana Brunetto, o crescimento da presença feminina em cargos de liderança decorre da ampliação de garantias jurídicas e sociais, além do acesso ao ensino superior. Ainda assim, ela ressalta que a transformação institucional depende de mudanças culturais mais amplas.
“No entanto, isso não se dá de forma natural, sem resistência coletiva. A sociedade é hostil com as mulheres. E a universidade não é uma ilha, portanto produz e reproduz machismo no seu cotidiano”, afirma.
A consolidação da presença feminina no ensino superior depende de estruturas que garantam a conclusão dos cursos. Na UFPR, medidas institucionais recentes buscam reduzir disparidades históricas. Angela Welters aponta a criação da Ouvidoria Feminina como uma medida importante nesse processo.
“Da mesma forma, as resoluções aprovadas recentemente sobre a política institucional relativa ao acolhimento das estudantes mães constituem um passo importante no enfrentamento das desigualdades históricas de gênero na instituição e contribuem para a construção de um ambiente acadêmico mais equitativo”, afirma.
Além das políticas institucionais, a organização coletiva atua como um fator importante para a permanência estudantil, funcionando como espaço de acolhimento e resistência. Camila Silveira ressalta que projetos voltados às mulheres, coletivos estudantis e políticas de enfrentamento às violências de gênero contribuem para que mais alunas concluam a graduação.
A transformação do cenário exige também uma revisão das práticas pedagógicas nas universidades. “Precisamos de uma transformação cultural, de atitude pedagógica dos professores, em especial da área de exatas. Uma postura ética e pedagógica livre de machismo, sexismo, lesbofobia, bifobia e transfobia. As mulheres têm todas as condições de estar em qualquer área de produção de conhecimento”, conclui Dayana.
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