
As expressões Norte Global e Sul Global são utilizadas para compreender as relações históricas, políticas, econômicas e sociais entre países e regiões do mundo. Mais do que divisões geográficas, esses conceitos representam diferentes posições nas estruturas internacionais de poder, desenvolvimento e produção do conhecimento.
Embora suas denominações façam referência aos hemisférios Norte e Sul, essas categorias não correspondem necessariamente à localização geográfica dos países. Nações situadas no Hemisfério Norte, como Índia, China, México e diversos países africanos, são frequentemente associadas ao Sul Global. Da mesma forma, Austrália e Nova Zelândia, localizadas no Hemisfério Sul, são geralmente consideradas integrantes do Norte Global
O Norte Global compreende, de modo geral, países e regiões que concentram maior riqueza, capacidade tecnológica, influência econômica e participação nas principais instâncias de governança internacional.
Essa categoria inclui, frequentemente, Estados Unidos, Canadá, grande parte da Europa Ocidental e Setentrional, Japão, Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia, entre outros países.
Essas economias apresentam, em geral, elevados níveis de industrialização, infraestrutura científica e tecnológica consolidada e forte presença nos setores de serviços especializados, inovação e finanças.
Entretanto, o Norte Global não constitui um grupo homogêneo. Existem diferenças econômicas, sociais e políticas significativas entre seus países, assim como desigualdades internas que precisam ser consideradas.
O Sul Global é uma categoria histórica e geopolítica que reúne países e sociedades marcados, em diferentes graus, por experiências de colonização, relações econômicas internacionais assimétricas e desafios relacionados à distribuição de riqueza, tecnologia e poder político.
Abrange grande parte da América Latina e do Caribe, da África, da Ásia e das ilhas do Pacífico, incluindo países com diferentes níveis de desenvolvimento econômico, científico e tecnológico.
O Sul Global não deve ser compreendido exclusivamente como um conjunto de países pobres ou em desenvolvimento. Nele estão presentes economias emergentes, importantes centros industriais, potências tecnológicas, países exportadores de matérias-primas e sociedades com distintas trajetórias históricas e capacidades de inovação.
Além de representar uma categoria de análise das desigualdades internacionais, o conceito também está associado à construção de agendas comuns, à cooperação entre países e à busca por maior participação nas decisões globais.
No contexto da ciência, da tecnologia e da educação superior, a discussão sobre o Sul Global ultrapassa as dimensões econômicas e geopolíticas.
O conceito de Sul Acadêmico pode ser utilizado para analisar as desigualdades entre instituições e comunidades científicas no acesso a financiamento, infraestrutura de pesquisa, redes internacionais, publicações e mecanismos de reconhecimento acadêmico.
Essas assimetrias também se manifestam por meio de barreiras linguísticas. A predominância do inglês na comunicação científica internacional, por exemplo, pode reduzir a visibilidade de pesquisas desenvolvidas em outros idiomas.
Nesse contexto, instituições de países africanos francófonos e lusófonos, como Senegal, República Democrática do Congo e Angola, podem enfrentar obstáculos adicionais para ampliar sua participação e visibilidade nas redes internacionais de pesquisa.
Já o Sul Epistêmico está relacionado ao reconhecimento de diferentes formas de produção do conhecimento, especialmente aquelas historicamente marginalizadas pelas estruturas dominantes da ciência e da academia.
Essa perspectiva valoriza a pluralidade de saberes, experiências e abordagens científicas, promovendo o diálogo entre diferentes tradições intelectuais e realidades sociais.
Embora relacionados, Sul Global, Sul Acadêmico e Sul Epistêmico não são conceitos equivalentes. Sua distinção contribui para uma compreensão mais ampla das desigualdades e das possibilidades de transformação das relações internacionais de produção do conhecimento.
A cooperação acadêmica internacional desempenha papel estratégico na redução de assimetrias científicas e tecnológicas e no fortalecimento das capacidades institucionais de pesquisa e formação avançada.
Nesse cenário, a ampliação das relações entre instituições do Sul Global representa uma oportunidade para construir parcerias mais equilibradas, promover a circulação de pesquisadores e estudantes, compartilhar infraestrutura e desenvolver soluções conjuntas para desafios de interesse comum.
A cooperação Sul-Sul, em particular, pode contribuir para a valorização de agendas científicas definidas a partir das necessidades e prioridades dos próprios países participantes, favorecendo relações de reciprocidade e a produção compartilhada de conhecimento.
Isso não significa substituir ou restringir a cooperação com instituições do Norte Global, mas ampliar e diversificar as possibilidades de colaboração internacional, reconhecendo diferentes capacidades, experiências e contribuições científicas.
No âmbito da iniciativa Sul Global 2030, a compreensão dessas categorias oferece fundamentos para orientar estratégias de internacionalização acadêmica baseadas na cooperação, na inclusão e no reconhecimento da diversidade científica e cultural.
Para fins de delimitação institucional e operacional, a identificação dos países abrangidos pelo Sul Global deve considerar critérios históricos, geopolíticos e acadêmicos explicitamente definidos, reconhecendo que não existe uma classificação única e universalmente aceita.
A iniciativa busca valorizar o potencial de cooperação entre instituições de diferentes regiões do mundo, especialmente aquelas que compartilham desafios de desenvolvimento, desigualdades estruturais e interesses estratégicos na produção de conhecimento.
Nessa perspectiva, a internacionalização da pesquisa e da pós-graduação constitui não apenas um instrumento de ampliação das conexões internacionais, mas também uma oportunidade para promover relações acadêmicas mais equitativas, fortalecer redes de pesquisa e contribuir para o desenvolvimento científico, social e sustentável.
HAUG, S.; BRAVEBOY-WAGNER, J.; MAIHOLD, G. The ‘Global South’ in the study of world politics: examining a meta category. Third World Quarterly, v. 42, n. 9, p. 1923–1944, 2021. https://doi.org/10.1080/01436597.2021.1948831.
UNITED NATIONS CONFERENCE ON TRADE AND DEVELOPMENT (UNCTAD). Classifications: country classification. Disponível em: https://unctadstat.unctad.org/EN/Classifications.html.
UNITED NATIONS STATISTICS DIVISION. Standard country or area codes for statistical use (M49). Disponível em: https://unstats.un.org/unsd/methodology/m49/.
Nota metodológica: As classificações estatísticas utilizadas pela UNCTAD e pela Divisão de Estatística das Nações Unidas não constituem uma definição universal de Norte Global e Sul Global. A utilização desses conceitos nas iniciativas institucionais reconhece a diversidade de situações históricas, econômicas, políticas e acadêmicas dos países envolvidos.