Pós-Graduação, extensão e políticas institucionais impulsionam o protagonismo feminino na ciência na UFPR
Por: Laura Chimka – bolsista de graduação PROEXT-PG
Em um contexto histórico e social ainda marcado por desigualdades de gênero na produção científica e legitimação de saberes, a Universidade ocupa papel de destaque no fortalecimento de trajetórias femininas. A ciência não é neutra: ela reflete e, muitas vezes, reproduz relações de poder presentes na sociedade. Nesse cenário, iniciativas que ampliam o acesso, a visibilidade e o reconhecimento de mulheres pesquisadoras são estratégicas.
Assim, o Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro, reforça a importância de ampliar a presença feminina nas diferentes áreas do conhecimento e de reconhecer o papel das mulheres na construção da ciência.
Instituído em 2015 pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), a data representa não apenas um avanço na luta pela igualdade de gênero, mas no reconhecimento de trajetórias, experiências e conquistas de mulheres.
A celebração dialoga diretamente com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5 (ODS 5) da Agenda 2030 da ONU, que visa alcançar a igualdade de gênero ao eliminar a discriminação e a violência, garantir direitos, acesso a recursos, participação plena e igualdade de oportunidades para mulheres e meninas em todas as esferas da vida social.
Ainda assim, dados de 2024 da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) revelam que mulheres representam apenas cerca de um terço das pessoas que atuam com pesquisa científica no mundo, evidenciando como as desigualdades de gênero permanecem presentes.
Na Universidade Federal do Paraná (UFPR), a presença feminina vem se ampliando de forma significativa: na gestão acadêmica, nas salas de aula, e em projetos de extensão vinculados aos Programas de Pós-Graduação. Essas iniciativas não apenas indicam avanços institucionais, mas também reafirmam a importância da atuação de mulheres na ciência, evidenciando como o apoio institucional pode abrir caminhos e potencializar trajetórias acadêmicas e profissionais.
De acordo com dados do portal da transparência da UFPR, mulheres representam 44,66% do corpo docente, mas historicamente ocuparam cargos de gestão de forma esporádica. Em 110 anos de história, apenas uma mulher chegou à reitoria: Márcia Helena Mendonça, de forma interina, após a renúncia do então reitor, tornando-se a primeira mulher a assumir o cargo máximo da instituição.
Em 2024, com a posse de Marcos Sunye como reitor e de Camila Girardi Fachin como vice-reitora – a terceira mulher a ocupar esse cargo –, a UFPR passou por mudanças significativas em sua estrutura administrativa. Além da ampliação do número de pró-reitorias, que passou de sete para nove, a Universidade alcançou, pela primeira vez em sua história, a maioria feminina na coordenação desses cargos, marcando um avanço histórico na representatividade.
Esse novo cenário evidencia esforças para avanços da UFPR na construção de um ambiente mais equitativo, além de destacar conquistas importantes na promoção de um espaço que incentive e valorize a presença de mulheres na carreira científica e acadêmica.
A professora Edneia Amancio de Souza Ramos Cavalieri, atual Pró-reitora de Pós-graduação da UFPR (PROPG), relata como essa representatividade reflete na formulação de políticas institucionais e na construção de um ambiente mais equitativo, especialmente no que diz respeito à permanência e à progressão de mulheres na carreira científica e acadêmica.
“Pela primeira na história da UFPR, os cargos de liderança foram planejados não só de maneira técnica, mas também equitativa. Para nós mulheres, sempre foi atribuída à gestão do cuidado, da tripla jornada e da própria incapacidade de lidar com o processo duro e ‘masculinizado’ da gestão, mas é importante ocuparmos esses espaços de liderança. Com dedicação e disposição vamos quebrando essas barreiras.”

Edneia, que também é pós-doutora em Ciências (Bioquímica) pela Universidade, destaca as mudanças que viu não apenas como pró-reitora, mas sobre seu olhar de aluna da UFPR, ao longo dos anos, da graduação à pós:
“Quando eu era mestranda, cheguei a ouvir uma docente desqualificando a capacidade de uma colega de final de curso por estar gestante. Vi candidatas a concurso público ‘escondendo’ a gravidez por medo de serem reprovadas pois teriam que se ausentar tão logo assumissem o cargo. O gestar e a pós-graduação eram incompatíveis até pouco tempo atrás, e essa barreira começou a ser quebrada quando editais de bolsistas pesquisadora começaram a não contabilizar a licença maternidade em processos de seleção, expandindo o período de análise de produção acadêmica, algo que foi adotado pela UFPR nos últimos anos.”
Atualmente, o tempo de licença maternidade é assegurado às pós-graduandas, com prorrogação de prazo e de bolsa e, mais recentemente, novas políticas de equidade têm sido pensadas também no âmbito da pós-graduação. Com cotas da Pró-reitoria de Pertencimento e Políticas de Permanência Estudantil (P4E) de auxílio parental para pós-graduação e no Programa Auxílio ao Estudante de Pós-graduação (PAEPG), o qual foi implementado este ano, está prevista a garantia da preferência no atendimento de mulheres.
Na Pró-Reitoria de Pós-graduação, Edneia destaca que atualmente duas das três coordenadorias são ocupadas por mulheres: Monica Maria Gomes da Silva é coordenadora Pós-graduação Lato Sensu (CPGLS), e Paula Carina de Arajújo coordena a Pós-graduação Stricto Sensu (CPGSS).
A pró-reitora também ressalta que a gestão planeja implementar um prêmio de reconhecimento para egressas de destaque no cenário paranaense e garantir equidade nas bancas de seleção nos programas de pós-graduação. Segundo Edneia, a aplicação da equidade de gênero não é imediata nem simples, mas a expectativa é que, com o tempo, esse processo se torne natural, de modo que nos espaços de ciência a igualdade seja algo intrínseco, sem necessidade de questionamentos sobre “como” aplicá-la.
A pró-reitora de Pós-graduação também destacou o desejo de promover debates no âmbito das políticas de gestão em pós-graduação, com foco na capacidade de liderança da mulher. “Muito se fala sobre equidade na academia, mas na prática, o que vemos é uma desqualificação direcionada ao fato de sermos mulheres”, relata, “estar na pró-reitoria pode ser um espelho para que mais mulheres também ocupem esses espaços”.
Além do compromisso com a equidade de gênero na gestão, a PROPG também fortalece ações de extensão vinculadas aos Programas de Pós-graduação. Nesse contexto, projetos da UFPR foram contemplados pelo PROEXT-PG, programa da CAPES que incentiva iniciativas de extensão na Pós-graduação em diálogo com a sociedade. A seguir, apresentamos alguns desses projetos que dialogam com a temática do Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência.
Coordenado pela professora Camila Silveira da Silva, dos Programas de Pós-Graduação Profqui em Mestrado Profissional em Rede Nacional e de Educação em Ciência e Matemática, o projeto Meninas e Mulheres nas Ciências (MMC) promove ações de educação e divulgação de mulheres cientistas, envolvendo tanto a comunidade acadêmica quanto o público externo, incluindo atividades presenciais em escolas e a divulgação de conteúdos em redes sociais.
Vinculado ao Departamento de Química da UFPR, o projeto atua desde 2020 como um importante porta-voz das conquistas femininas no meio científico. Suas ações buscam incentivar a participação de meninas em atividades científicas, apoiar mulheres na permanência e progressão na carreira acadêmica e promover a ocupação de espaços de destaque na ciência. Além disso, o projeto contribui para o debate público ao evidenciar a relevância de cientistas mulheres no desenvolvimento científico, tecnológico e social, colaborando para a redução dos impactos da desigualdade de gênero.
Entre as iniciativas do MMC, destaca-se a 4ª edição do evento “Meninas nas Exatas: por Elas para Todos!”, que será realizada no dia 11 de fevereiro, nos períodos da manhã e da tarde, no Campus Centro Politécnico, em Curitiba (Avenida Coronel Francisco H. dos Santos, 100 – Jardim das Américas). O encontro, que já conta com mais de mil pessoas inscritas de acordo com a coordenadora, é aberto ao público e propõe um circuito de quarenta atividades que valorizam a atuação de mulheres cientistas e estimula meninas a considerarem a carreira. Para participar, basta se inscrever no formulário.
“A expectativa é a de que o público participante conheça e valorize o trabalho intelectual das mulheres, o contexto atual sobre as cientistas contemporâneas e as pesquisas que realizam, a contribuição histórica e recente das pesquisadoras e viva experiências positivamente marcantes. Espero que as meninas, as jovens e as mulheres participantes sintam-se encorajadas e inspiradas, além de pertencentes ao espaço do fazer científico”, relata a coordenadora do projeto.

A professora Camila também destaca que a luta pela igualdade de gênero na ciência não é exclusiva das mulheres, mas envolve toda a sociedade, que podem se engajar nesse processo:
“Desejo também que os meninos, os jovens e os homens participantes, reconheçam a importância das ações realizadas, do papel das mulheres para o desenvolvimento da Ciência, Tecnologia e Inovação e possam lutar ao nosso lado pela redução das desigualdades e violências de gênero.”
Além disso, nas redes sociais, a equipe do MMC também reforça o seu compromisso com pautas interseccionais que atravessam a vivência das mulheres, como questões raciais, identidade de gênero e orientação sexual.
“Em nossas ações, a interseccionalidade é orientadora do que fazemos e produzimos. O impacto é um espaço acadêmico mais plural, no qual as pessoas vão se sentindo representadas e acolhidas, com oportunidades de atuação e de visibilidade. O MMC tem contribuído bastante, ao longo dos últimos anos, com a construção de um espaço acadêmico mais inclusivo e com a popularização de mulheres diversas, fazendo com o que o público (re)conheça o trabalho de grupos que foram (e ainda são) marginalizados.”

O projeto também mantém um blog que já ultrapassou 240 mil visualizações, no qual são divulgadas, de forma detalhada, as ações mais recentes do MMC. Entre os conteúdos disponíveis estão participações em eventos, entrevistas com cientistas renomadas sobre temas atuais e materiais didáticos produzidos pelo projeto, como livros de passatempos dedicados à Marie Curie e às Cientistas Negras Brasileiras, entre outras. Além disso, o público tem acesso a livros para colorir, quebra-cabeças, jogos da memória e caça-palavras relacionados a grandes figuras femininas na ciência. Ainda, no dia 11 de fevereiro, o MMC disponibilizou o e-book “Cientistas Fofinhas para colorir”, sobre Irène Joliot-Curie e Marie Curie.

Vinculado ao Departamento de Matemática, o projeto “Legado de Dona Odilá” foi criado em 2024 com o propósito de preservar e compartilhar o trabalho desenvolvido pela professora Odilá Therezinha Soares Sanches, geógrafa e pedagoga paranaense cuja trajetória se destaca pela produção de conhecimento científico na área da educação. Ao longo de sua carreira, Odilá articulou pesquisa, prática pedagógica e compromisso social, consolidando-se como uma mulher cientista dedicada à transformação do ensino.
Coordenado pela professora Ximena Mujica Serdio, o projeto é realizado na Escola Paulina P. Borsari, no bairro Guabirotuba, em Curitiba. No local, são oferecidas aulas de reforço que utilizam os materiais, métodos e abordagens pedagógicas desenvolvidos por Odilá. A proposta adota uma perspectiva interdisciplinar, explorando um tema em diversas áreas do conhecimento, como língua portuguesa, matemática e geografia, entre outras, promovendo aprendizagem integrada, contextualizada e significativa para estudantes.
Com mais de quarenta anos de experiência na pedagogia, Odilá, hoje aposentada, é especialista no método do pensador suíço Jean Piaget e atuou com crianças de dois a quatorze anos. Suas pesquisas revelaram resultados significativos sobre as capacidades cognitivas de crianças entre dois e seis anos, apontando potencialidades que vão além do que tradicionalmente é contemplado pelas propostas educacionais brasileiras.
“Quando era coordenadora do curso de matemática da UFPR, a dona Odilá procurou a coordenação para conseguir um espaço que acolhesse os materiais concretos e didáticos que acumulou ao longo de sua trajetória como educadora. Durante esse período de busca, percebi que o trabalho de dona Odilá era muito precioso, e que mais do que um espaço físico, era importante dar continuidade a seu legado. Daí veio a ideia de fazer um projeto de extensão com o qual estudantes da UFPR possam aprender com ela.”
Ximena também destacou que, no projeto Legado de Dona Odilá, estão sendo desenvolvidas ações junto a adolescentes por meio de aulas de reforço em matemática, com a utilização de materiais concretos como estratégia pedagógica para facilitar a aprendizagem e estimular o interesse pela área.
“O incentivo a meninas se dá no dia-a-dia: ser mulher e estar na liderança, por si só, já é um incentivo. Mas também é importante ter uma fala ou atitude que incentivem cada criança e adolescente a se perceber como alguém capaz de aprender e ir além, diariamente, pois é assim que se faz ciência.”
Com essa iniciativa, a UFPR não apenas homenageia e reconhece a história de uma cientista paranaense, mas também oportuniza para que mais meninas conhecem a sua trajetória e se inspirem para seguir a carreira científica. “Durante sua trajetória, Odilá conseguiu que seus alunos, de escolas públicas, se destacassem. Sua metodologia é diferenciada, e precisa ser preservada”, completa a professora.
Os projetos apresentados mostram como a Universidade pode ampliar visibilidade, oportunidades e reconhecimento para meninas e mulheres, articulando pesquisa, ensino e engajamento comunitário.
Ao integrar formação, pesquisa e ações extensionistas, a Pós-graduação se firma como espaço estratégico para fortalecer trajetórias femininas na ciência, inspirando novas gerações a ocupar posições de destaque e consolidar suas carreiras acadêmicas – dentro e fora da universidade!