Compromisso e Ciência: A Atuação da Pós-Graduação da UFPR como Vetor de Equidade de Gênero

06 março, 2026
14:32
Por andredias

Projetos de extensão transformam conhecimento acadêmico em ferramentas de autonomia, proteção e liberdade feminina

Por: Laura Chimka – bolsista de graduação PROEXT-PG | Laboratório de Comunicação Pública da Ciência UFPR 

Celebrado em 8 de março, o Dia Internacional da Mulher representa um marco da luta feminina por equidade e reconhecimento. Diante de estruturas historicamente repressoras e excludentes, a presença e o reconhecimento de mulheres nas esferas do saber e do poder constituem avanços fundamentais, bem como atos de resistência. 

Nesse contexto, a UFPR assume o papel de converter mobilização em ações concretas que asseguram direitos e ampliam a autonomia feminina dentro e fora da Universidade. O mês de março é marcado pela sétima edição do “Março das Mulheres”, evento que intensifica o debate sobre equidade de gênero, liderança e enfrentamento à violência no ambiente acadêmico. 

Mais que um período de reflexão, a data impulsiona a consolidação de políticas institucionais e reafirma o papel social de projetos de extensão vinculados aos programas de Pós-graduação. Entre essas ações, destacam-se projetos que, por meio do saber acadêmico, dedicam-se à defesa dos direitos e da autonomia das mulheres. 

Informação, acolhimento e direitos: Histórias em Quadrinhos como ferramenta de enfrentamento à violência contra as mulheres


A violência contra mulher, muitas vezes velada pelo silenciamento social e a falta de informação, exige estratégias de sensibilização que superem as barreiras do cotidiano. É com esse propósito que o Departamento de Saúde Coletiva da UFPR desenvolve narrativas ilustradas que traduzem dados complexos em ferramentas de proteção e cidadania. 

Por meio da linguagem Data Comics, o projeto “História em quadrinhos (HQ) sobre violência doméstica e/ou sexual contra mulheres” transpõe para o formato de quadrinhos alguns temas essenciais, como a prevenção a agressões, saúde mental e direitos das mulheres em situações de vulnerabilidade. 



Coordenado pelo professor Marcos Cláudio Signorelli, pesquisador vinculado aos programas de Pós-graduação em Saúde da Família e Medicina Veterinária, o projeto desenvolve desde 2023 a HQ “Aurora: amanhecer com esperança”. A obra utiliza a histórias ilustradas para oferecer orientações essenciais sobre o enfrentamento à violência, tornando o tema acessível e fomentando a prevenção por meio de uma abordagem lúdica e didática.



A trama acompanha a trajetória de Aurora, uma mulher que enfrenta o abuso cotidiano do marido e busca caminhos para garantir a sua proteção e de sua filha. Ao longo da história, a obra esclarece o funcionamento do ciclo de violência, orienta sobre procedimentos para acolhimento institucional e detalha o acesso às medidas protetivas. Fornece, dessa forma, instrução sobre ferramentas práticas para o enfrentamento da violência e dos traumas. Como explica o professor Marcos:  

“A ideia é que seja um material de divulgação científica, que divulgue a rede intersectorial e ajude mulheres que estão nessa situação. Nosso objetivo é que, lendo essa história, elas se percebam nessa situação e possam, por meio da própria explicação que tem na HQ, buscar por ajuda.” 

O projeto é realizado em parceria com a Casa da Mulher Brasileira de Curitiba (CMB), cuja equipe técnica contribuiu para elaboração da HQ, e conta com o acompanhamento de representantes do Ministério das Mulheres, que vieram até Curitiba para observar a produção. Essa colaboração permitiu mapear os fluxos de atendimento da rede intersetorial, garantindo que o material oriente com precisão sobre acolhimento, o acionamento de medidas protetivas, as atribuições da Defensoria Pública e as demais instâncias de suporte disponíveis para mulheres em situação de violência. 



A produção foi conduzida por uma equipe majoritariamente feminina, composta por três discentes de graduação de Medicina, uma mestranda de Saúde Coletiva da UFPR e pela vice-coordenadora do projeto, a professora Solena Ziemer Kusma Fidalski. Segundo o professor Marcos, esse protagonismo foi determinante para o sucesso da narrativa e o desenvolvimento da formação acadêmica mais qualificada e sensível às demandas sociais:

“Ao longo desses anos, das três alunas de graduação, duas se formaram voltadas para essa temática, fazendo o trabalho de conclusão de curso de medicina, também com sobre essa área. Contando com todas as participantes, são quatro médicas que saem com essa visão mais humanizada sobre o apoio, sobre o acolhimento de mulheres em situação de violência.” 



O professor destaca ainda que o apoio do edital do Programa de Extensão da Educação Superior na Pós-Graduação (PROEXT-PG) foi determinante para a viabilização da iniciativa, cuja previsão de lançamento deve ocorrer junto à CBM ainda no mês de março. 

Por meio desse suporte, a obra se consolida como um instrumento de cidadania produzido na Universidade, traduzindo conhecimento técnico em ferramenta de proteção para mulheres que buscam romper o ciclo de violência.

Ciência por e para elas: legados e vivências na construção de novas trajetórias científicas


A ocupação de espaços científicos por mulheres é um desafio que exige ações políticas e o resgate de trajetórias inspiradoras. Com esse propósito, o projeto Meninas e Mulheres nas Ciências (MMC) se dedica a registrar a história de figuras femininas que marcaram a ciência e difundi-las em ações para inspirar as novas gerações. 

Vinculado ao Departamento de Química da UFPR, o projeto articula sua atuação por meio da participação em eventos, da produção de conteúdo didático e da difusão de conhecimentos pelas redes sociais. Coordenado pela professora Camila Silveira da Silva, que atua nos Programas de Pós-graduação Mestrado Profissional em Química em Rede Nacional e de Educação em Ciência e Matemática, o MMC busca desconstruir e superar as barreiras estruturais que ainda dificultam o acesso e a permanência de mulheres na carreira científica, além de ser inspiração para meninas. 



Em fevereiro de 2026, a iniciativa integrou a 4ª edição do evento “Meninas nas Exatas: por Elas para Todos!”, que recebeu cerca de 700 estudantes da rede pública de Curitiba e região metropolitana para uma vivência universitária. A expressiva participação e o alcance da proposta conferiram ao evento destaque na mídia, resultando na cobertura do Jornal do Meio-dia, da RPC. 

“Ficamos muito felizes com a repercussão nos diferentes canais de comunicação, pois isso possibilita que mais pessoas sejam alcançadas e possam refletir sobre a participação das mulheres no campo científico.”



O evento, organizado pelo Setor de Ciências Exatas da UFPR, ofereceu programação diversificada, com atividades didáticas e acolhedoras, fundamentais para que as jovens descubram e se identifiquem com a carreira científica e se sintam estimuladas. A agenda contou ainda com palestras, estandes e exposições que destacaram a pluralidade de figuras femininas na história da ciência, conferindo visibilidade a trajetórias de referência. Como destaca Camila:  

 “Durante o Meninas nas Exatas, me emocionei com a fala de uma menina, uma criança, me dizendo que estava feliz porque o sonho dela era conhecer um laboratório (e ela estava dentro de um laboratório no momento). E com as mães e pais que estavam acompanhando outras tantas meninas na realização das atividades, o que eu considero um apoio fundamental para que elas se sintam incentivadas a viverem o ambiente científico” 



A professora ressalta também que o Dia Internacional da Mulher transcende o carácter puramente comemorativo e se consolida como um marco estratégico de reflexão sobre a presença feminina na ciência e em outros espaços de atuação social: 

“Necessitamos ainda de muitos avanços na sociedade para que possamos ter nossos direitos exercidos com dignidade, respeito e liberdade. Então, considero essas datas como estratégias relevantes para trazermos nossas pautas com destaque e termos espaço para falarmos sobre elas em uma perspectiva mais crítica.” 



Com essa atuação, o projeto pavimenta um caminho onde a excelência científica se torna, por direito e vocação, um território de protagonismo feminino. 


Direitos sexuais e reprodutivos: o saber acadêmico como suporte à autonomia


Enfrentar a desinformação e assegurar o pleno exercício dos direitos reprodutivos são os pilares do projeto “Aborto legal e advocacy: concretização dos direitos sexuais e reprodutivos pela sensibilização e difusão do saber”. A iniciativa atua para que as garantias já estabelecidas na legislação brasileira sejam efetivamente cumpridas, transformando o saber acadêmico em informação qualificada para a comunidade. 

Sob coordenação da professora Taysa Schiocchet, o projeto é vinculado ao Departamento de Práticas Jurídicas e aos Programas de Pós-Graduação em Direito e em Saúde Coletiva. Reunindo estudantes de diferentes níveis de formação acadêmica, a iniciativa foca em ampliar o acesso a serviços essenciais e superar entraves burocráticos. 

O projeto destaca a viabilização de escolhas seguras e informadas para mulheres acerca dos direitos sobre o próprio corpo. Suas frentes de atuação incluem a produção de conteúdo informativo para internet, participação em eventos acadêmicos e incidência estratégica em espaços institucionais – ações fortalecidas pela parceria com o projeto Clínica dos Direitos Humanos (CDH) da UFPR. 

A iniciativa prioriza a assistência prática às mulheres e meninas que encontram barreiras institucionais e julgamentos morais nos serviços de saúde. Ao oferecer orientação técnica e acolhimento, preenche lacunas de atendimento e assegura que o suporte jurídico adquira dimensão de cuidado efetivo e dignidade. 

Ao unir rigor jurídico e acolhimento prático, o projeto garante que a proteção aos direitos reprodutivos deixe de ser apenas uma previsão legal para se tornar uma realidade acessível. Assim, a Universidade reafirma sua função social ao assegurar que o conhecimento e a informação sejam convertidos em autonomia e dignidade para todas as mulheres 

Universidade reafirma o seu compromisso com os direitos das mulheres


A integração entre pesquisa, ensino e extensão permite que a Pós-graduação converta o conhecimento científico em ferramentas concretas de cidadania para mulheres. Iniciativas como as apresentadas demonstram o papel da UFPR no enfrentamento de desigualdades estruturais e na promoção de direitos femininos. 

No Dia Internacional da Mulher, a instituição reafirma sua função social ao posicionar a ciência como vetor de autonomia e justiça. O protagonismo feminino, central nessas ações, evidencia a capacidade da Universidade de atuar diretamente na realidade social, garantindo que o saber científico contribua para a construção de um ambiente mais equitativo e seguro.