Obra clássica de José de Alencar tem como pano de fundo a escravidão no Brasil Império e é uma das adições recentes à lista de livros para o Vestibular da UFPR
Por João Cordeiro, sob supervisão
No auge do Segundo Reinado, a cultura escravagista passava a ser questionada. Enquanto o ocidente mudava a sua postura em relação à escravidão, abolindo-a em diversos países, a Lei Eusébio de Queirós (1850) acabava de ser promulgada. A Lei do Ventre Livre (1871) só passaria a ser discutida no final da década de 1860. E a Lei Áurea (1888) ainda estava a anos de distância para a população escravizada, que constituía 15,2% de todos brasileiros época, segundo o primeiro censo demográfico nacional de 1972 – o que consagrou o Brasil como o último país ocidental a abolir a escravidão. É nesse cenário que José de Alencar lança a peça teatral “O Demônio Familiar”.
Ferrenho defensor do sistema escravagista, Alencar acreditava que a escravidão seria finalizada eventualmente. Esse sistema, que por séculos formou e movimentou a cultura e economia brasileira, é o pano de fundo para a trama da obra lançada em 1857 e tema do novo episódio do programa Entrelinhas da UFPR TV, disponível agora no YouTube.
Para a professora de literatura Maria Luísa Fumaneri, entrevistada do episódio do Entrelinhas, o livro é um retrato nu e cru do Brasil Império e da sociedade escravista, sem reparos ou atenuações. “O Demônio Familiar”, lido sob uma ótica contemporânea, é uma obra problemática e que deve ser problematizada, por isso, a sua leitura é tão relevante no cenário atual.
“Nos romances de Alencar, você tem personagens escravizados, eles fazem parte da narrativa. Mas eles estão muitas vezes à margem das histórias. Chamar o escravizado doméstico de ´demônio familiar´é um nome dado pelo senhor de escravos Eduardo. Em nenhum momento da peça é questionado que ele é um senhor de escravos. Ele [Eduardo] é o mocinho, o mocinho é o senhor de escravos. Esse é o Brasil do século XIX”, explica Maria Luísa Fumaneri.
No mesmo episódio do Entrelinhas, descubra outras obras literárias que complementam o debate sobre escravidão, burguesia e racialidade no Brasil, entre eles “Um Defeito de Cor” (2006), de Ana Maria Gonçalves, e o conto “Pai Contra Mãe” (1906), de Machado de Assis.
Conheça mais sobre a nova adição à lista do Vestibular da UFPR, “O Demônio Familiar”, de José de Alencar, e outras obras essenciais do vestibular e da literatura brasileira na série Entrelinhas da UFPR TV. Acesse a playlist completa da série.
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