Satélites monitoram nuvens em tempo real, sensores registram índices de chuva e modelos computacionais processam bilhões de dados diariamente para indicar a chegada de tempestades, ondas de calor e outros eventos extremos. Desde 1991, as enchentes já deixaram mais de 10 milhões de brasileiros desalojados. Nesse cenário, composto por eventos climáticos cada vez mais intensos, pesquisadores discutem os limites da previsão do tempo e o papel da ciência na redução dos riscos para a população. Esse é o tema de investigação do mais novo episódio do programa Scientia, que acaba de ser lançado pela UFPR TV.
Para o geógrafo e professor titular sênior da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Francisco de Assis Mendonça, a previsão do tempo ocupa um papel essencial na organização das sociedades há séculos.
“A previsão do tempo é uma necessidade fundamental de toda e qualquer sociedade, desde sempre. Desde antes dos equipamentos. Ela é fundamental porque nos permite olhar lá na frente o que pode acontecer em termos climatológicos e meteorológicos. Uma vez que temos informação do que pode vir a acontecer, podemos nos organizar e nos precaver de situações que podem impactar a vida humana e a ecologia. Prever é antecipar o futuro”, afirma.
Mesmo com os avanços tecnológicos, enchentes, deslizamentos e alagamentos continuam entre os principais problemas enfrentados por milhares de brasileiros.
Eventos extremos mais frequentes e intensos fazem parte de um cenário associado às mudanças climáticas. No entanto, os efeitos não recaem de maneira uniforme sobre a população. Moradores de áreas sujeitas a inundações, com infraestrutura limitada e menor acesso a serviços públicos, enfrentam riscos maiores e dificuldades mais profundas após cada ocorrência.
Segundo Mendonça, os impactos das mudanças climáticas aparecem de diferentes formas no cotidiano da população.
“As mudanças climáticas afetam as populações de várias maneiras, direta e indiretamente. Temos as chuvas que provocam inundações e deslizamentos, atingindo residências e favorecendo a transmissão de doenças. Quando falta chuva, surgem as secas, com impactos na produção de alimentos e no abastecimento de água. Além disso, existem as ondas de calor, associadas à desidratação e outros problemas de saúde, e os períodos de frio intenso, relacionados a doenças respiratórias, como bronquites e pneumonias”, explica.
Essa realidade aparece em diferentes cidades do litoral paranaense, onde enchentes recorrentes fazem parte da rotina de muitas comunidades. Perdas materiais, interrupção das atividades de trabalho e riscos à integridade física integram o cotidiano de famílias expostas aos períodos de chuva intensa.
Nesse contexto, pesquisadores da UFPR desenvolveram o aplicativo Risco, ferramenta baseada em dados topográficos e monitoramento em tempo real para previsão de inundações e emissão de alertas antecipados. A iniciativa reúne informações sobre áreas vulneráveis e condições ambientais capazes de indicar a possibilidade de alagamentos antes da chegada da água.
A aplicação tem como ponto de partida municípios do litoral do Paraná e apresenta potencial para utilização em ações de defesa civil, planejamento urbano e prevenção de desastres.

De acordo com Alexandre Lopes Bernardino, professor do Centro de Estudos do Mar (CEM) da UFPR e coordenador do aplicativo Risco, a proposta tem origens anteriores às pesquisas da equipe.
“É uma ideia antiga e já testamos no Rio Grande do Sul, e foi uma dissertação de mestrado de um aluno nosso. A gente simulou inundação em uma cidade que 20% dela ficava inundada pelo Rio Uruguai, então começamos a trabalhar e a gente viu que aqui no Litoral do Paraná, principalmente Paranaguá, é um problema sistemático a questão da inundação e aí surgiu a ideia da gente aprimorar este trabalho.
A nova etapa do projeto inclui usar tecnologias e equipamentos mais modernos. O trabalho reúne cartografia e computação para monitoramento e identificação de áreas de risco. “Esse projeto é em conjunto com a prefeitura para que ela possa dar alerta à população que fica em área de risco com uma certa precisão cartográfica”
Entretanto, especialistas destacam que a tecnologia, por si só, não representa uma solução definitiva. Sistemas de monitoramento, planejamento territorial, investimentos em infraestrutura e ações educativas compõem um conjunto de medidas necessárias para a redução dos riscos enfrentados pela população.
Mais do que antecipar a chegada da chuva, o desafio envolve condições adequadas de moradia, acesso à informação e capacidade de resposta diante dos alertas. Em um cenário de mudanças climáticas cada vez mais evidentes, a proteção das populações vulneráveis permanece entre os principais desafios da sociedade.
Este tema é abordado com mais detalhes no programa Scientia, da UFPR TV. O programa reúne especialistas, pesquisas e exemplos práticos para discutir a relação entre mudanças climáticas, vulnerabilidade social e desastres ambientais.
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