Pioneiro no Paraná, programa computa mais de 900 defesas e tem conceito máximo na Capes
Mais de sessenta anos de pesquisa, formação acadêmica e produção científica. Essa é a trajetória do Programa de Pós-Graduação em Ciências – Bioquímica (PPGBq) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), criado em 1965 e pioneiro da pós-graduação stricto sensu no Paraná. Ao longo desse período, o programa mais antigo da UFPR formou 549 mestres e 378 doutores.
Atualmente, o PPGBq conta com 30 professores, sendo 27 docentes permanentes; quatro linhas principais de pesquisa; e conceito 7 na avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o nível máximo da pós-graduação brasileira.
A criação do PPGBq, em 1965, teve à frente o professor Metry Bacila e um grupo de pesquisadores considerados pioneiros da Bioquímica no Paraná. Os primeiros docentes do Instituto de Bioquímica, posteriormente transformado em departamento com a reforma universitária dos anos 1970, tinham origem no antigo Instituto de Biologia e Pesquisas Tecnológicas (IBPT), atual Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar).



Uma segunda geração de pesquisadores chegou ao programa na década seguinte. Entre eles estava o professor sênior da UFPR Marcello Iacomini, que ingressou na pós-graduação em 1972, por convite da professora Glaci Zancan, então coordenadora.
“Quando eu entrei em 73, para iniciar o mestrado, eu tinha um corpo docente muito forte cientificamente. Entre eles a Glaci Zancan, o Metry Bacila; nós tínhamos o João Batista, a Dea Amaral, ganhadora de prêmios científicos internacionais. Era um corpo docente científico muito forte”, disse Marcelo Iacomini.
Marcello iniciou o mestrado em 1973, na área de Química de Carboidratos, e concluiu o doutorado em 1981. Em 1985, assumiu a coordenação do programa, permanecendo até 1989, período de fortalecimento da pós-graduação e de parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que ainda não possuía doutorado próprio.
“Eu já me sentia, até certo ponto, maduro, e peguei a pós-graduação em Bioquímica de mestrado e doutorado num período que necessitava de um fortalecimento, talvez de um sangue jovem, digamos assim, para que a coisa se desenvolvesse”, pontua Marcello Iacomini.
Naquele período, a procura pelo programa era alta. Havia anos com 80 ou 100 candidatos para 15 ou 20 vagas, e o curso recebia estudantes de diferentes regiões do país.
“Os alunos que saíam formados, saíam muito fortes. Então foi um período que marcou história”, completa Iacomini.
Em 1986, Joana Léa Meira Silveira chegou ao PPGBq. Recém-formada em Engenharia Química pela UFPR, havia sido aprovada em terceiro lugar em um concurso para professora auxiliar no Departamento de Tecnologia Química. Após o resultado, recebeu do então coordenador do programa, professor Aguinaldo, o convite para fazer o mestrado em Bioquímica.
Depois do curso preparatório e da aprovação no processo seletivo, Joana ingressou no mestrado na área de Química de Carboidratos, sob orientação da professora Fanny Reicher. Concluiu o mestrado em três anos e, na sequência, o doutorado também em três anos.
Durante o doutorado, realizou parte da formação na França, com bolsa-sanduíche da Capes e do CNPq, trabalhando com a professora Marguerite Rinaudo, em Grenoble. A experiência deu origem a uma colaboração internacional que continuou por seis anos.
“Essa presença durante o meu doutorado-sanduíche possibilitou uma colaboração internacional que durou mais seis anos após a minha conclusão do doutorado, com a Universidade Joseph Fourier, em Grenoble. E essa colaboração também surtiu bastante publicações e um desempenho bastante grande do nosso grupo de pesquisa”, conta Joana.
Ao longo das décadas, a modernização dos laboratórios acompanhou o crescimento das pesquisas. Química de Carboidratos, Fixação Biológica de Nitrogênio e Bioquímica Farmacológica se consolidaram entre as principais áreas do programa.



“Novos instrumentos científicos entraram no departamento, modernizaram as linhas de pesquisa. Principalmente a química de carboidratos, a fixação de nitrogênio e a bioquímica farmacológica eram linhas muito fortes dentro do meio nacional”, disse Marcello Iacomini.
Projetos como o PADCT-II, da Finep, em 1996, permitiram a aquisição de equipamentos, entre eles um espectrômetro de RMN de 400 MHz. Também contribuíram para o desenvolvimento da pesquisa iniciativas como os projetos Pronex, Finep, Finep-BID, o Projeto Genoma do Paraná e o primeiro Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) do Paraná, aprovado em 2009.
Para Fany Reicher, os financiamentos foram fundamentais:
“As maiores conquistas foram os financiamentos obtidos pelos grupos de pesquisa de excelência que permitiram um grande desenvolvimento, publicações e teses de alto nível, patentes e intercâmbios com grupos internacionais.”
O professor Fábio Pedrosa lembra ainda de um período de poucos recursos assim que se tornou coordenador do programa. “Foram anos difíceis de poucos recursos e muito trabalho. Fomos a primeira Pós graduação de Universidades Federais a conseguir receber taxa de bancada do CNPq, recursos que permitiram adquirir o primeiro computador da PPGBq, que veio facilitar enormemente a elaboração dos relatórios para a Capes.”
A Fixação Biológica de Nitrogênio tornou-se uma das áreas de destaque do PPGBq. Professor sênior e aposentado desde 2003, Fábio Pedrosa permanece vinculado ao programa e acumula décadas de atuação na formação de pesquisadores. Ao longo de sua trajetória, orientou 22 mestres e 24 doutores, sendo 15 dissertações e 17 teses relacionadas à Fixação Biológica de Nitrogênio.



As demais orientações estiveram concentradas em Bioinformática e Biodiversidade. Os trabalhos envolveram técnicas e abordagens de Bioquímica, Genômica, Biologia Molecular, Proteômica, Bioinformática e Microbiologia.
Entre os resultados estão o desenvolvimento de estirpes de Azospirillum brasilense, com aplicações na agricultura, e o sequenciamento do genoma da bactéria Herbaspirillum seropedicae, primeiro organismo sequenciado no Paraná, dentro do Programa Genoma do Paraná (Genopar).
“Desenvolvemos estirpes da bactéria fixadora de nitrogênio Azospirillum brasilense que está tendo grande impacto na Agricultura brasileira, aumentando a produtividade de milho, trigo, arroz, forrageira e soja”, comenta o professor Pedrosa.
A produção científica e a formação de pesquisadores marcaram a trajetória de excelência do programa. Marcello Iacomini conta que seu grupo de pesquisa em Química de Carboidratos chegou a reunir entre 30 e 35 estudantes, entre mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos.
Entre os reconhecimentos recebidos por Iacomini estão sua eleição como membro titular da Academia Brasileira de Ciências, em 2012, com posse em 2013, na área de Ciências Biológicas, e o título de Professor Emérito da UFPR, concedido em 2019.
Pedrosa também integra a Academia Brasileira de Ciências: foi eleito membro titular em 2011 e tomou posse em 2012, na área de Ciências Biológicas, em reconhecimento à sua atuação científica, especialmente nas pesquisas sobre Fixação Biológica de Nitrogênio.
Segundo Marcello Iacomini, “o Departamento de Bioquímica trouxe cinco membros da Academia Brasileira de Ciências. Foram docentes do Departamento com indicação em diversas em anos durante a vida acadêmica
O PPGBq alcançou o conceito 7 na Capes em 2017, e vem sendo mantido desde então. Para Fany Reicher, a chegada ao conceito máximo representa a consolidação de décadas de trabalho:
“O alcance do conceito máximo da Capes, 7, que o Programa continua mantendo nas últimas avaliações, para nosso orgulho, foi muito especial. O ambiente de seriedade, confiança, responsabilidade e trabalho árduo, durante décadas, nunca será esquecido”, pontua Reicher.
Em 2015, o PPGBq completou 50 anos, com 419 mestres e 241 doutores formados. A data foi marcada por um simpósio comemorativo e registrada pelo Portal UFPR e pela UFPR TV, em edição do programa Scientia. A trajetória do programa também está registrada no livro “Memória da Bioquímica no Paraná: a criação de uma escola de pesquisa”, de Myrian Del Vecchio de Lima. Publicada pela Editora UFPR, a obra reúne relatos, documentos e registros de mais de quatro décadas de atuação do Departamento.
O site institucional do PPGBq também reúne informações sobre a trajetória do programa. Outras publicações do Portal UFPR registraram momentos da história, incluindo uma publicação de 2014, que destacou o programa como o mais antigo da Universidade, e outra de 2022, sobre a manutenção do conceito máximo.
Em 2025, ano em que o programa completou 60 anos, o Setor de Ciências Biológicas também registrou a trajetória do PPGBq.
A atual coordenadora do PPGBq, Guilhermina Rodrigues Noleto, atribui a longevidade do programa ao compromisso mantido ao longo das décadas com a formação e a pesquisa científica.
“A longevidade do Programa decorre do trabalho consistente e do comprometimento permanente com a formação acadêmica de excelência, sustentado pelo rigor científico que orienta suas práticas de pesquisa. Essa combinação assegura a produção de conhecimento relevante, a consolidação de linhas de pesquisa robustas e a manutenção de elevados padrões de qualidade em teses e dissertações, além de contribuir para a formação qualificada de recursos humanos.”


Em dezembro de 2025, Joana Léa Meira Silveira encerrou sua trajetória no PPGBq, após 40 anos de atuação – além de professora, ela foi aluna da casa.
“Eu sou fruto do programa de pós-graduação, não só como aluno de doutorado e mestrado, mas como professora também. Foi para mim uma fonte de muito conhecimento, de muitas interações e hoje eu só tenho que agradecer por ter me tornado doutora, na sequência o pós-doutorado que foi possível também fazer”, disse Joana.
Ao recordar as quatro décadas no programa, Joana destaca os vínculos construídos com professores, colegas e orientandos: “Foram 40 anos de muitas experiências maravilhosas, principalmente com meus orientadores, com professores e professoras, como a Fanny, com todos os colegas e com todos os meus orientandos, que fazem parte da minha família científica, minhas filhas e meus filhos científicoa”, aponta Joana.
A trajetória também chega a um momento de novos desafios. Marcello aponta a redução da procura pela pós-graduação após a pandemia.
“Após a pandemia, o número de estudantes que vêm à pós-graduação é diminuto, muito pequeno.” Para ele, a manutenção da pesquisa depende também da infraestrutura científica necessária à produção em nível internacional.
Para Guilhermina, a continuidade dessa trajetória passa pela renovação do corpo docente e pela manutenção das condições necessárias ao desenvolvimento da pesquisa.
“A manutenção de um corpo docente de alto nível, constantemente renovado e comprometido com os mesmos valores que inspiraram os fundadores do PPG, é um dos pilares da consolidação e do crescimento do Programa. Essa renovação garante a continuidade da tradição de excelência, ao mesmo tempo em que incorpora novas perspectivas e competências, fortalecendo a diversidade acadêmica e científica.”
Para Joana, o legado do PPGBq está relacionado não apenas à pesquisa, mas também à formação e aos desafios ambientais.
“Eu gostaria de deixar uma mensagem para as novas gerações, onde, nesse momento especial que passa o planeta, com todas essas crises climáticas, a gente deve pensar nos produtos naturais para que sejam preservadas as florestas, para que seja preservado o meio ambiente, porque, a partir delas, nós temos tantas e tantas riquezas que podem ajudar toda a população, toda a humanidade.”
E resume a relação construída com o programa: “Eu quero deixar para as novas gerações que a educação e o conhecimento trazem saber e trazem a possibilidade de nós nos mantermos neste planeta.”
Seis décadas após sua criação, o PPGBq continua recebendo reconhecimentos por sua trajetória. Em junho de 2026, o programa foi homenageado durante o 2º Encontro do Conselho de Pró-Reitores de Pós-Graduação das Instituições do Paraná (CPPG) e o 1º Encontro Paranaense de Coordenadores de Programas de Pós-Graduação, realizados na UFPR.
A homenagem destacou o pioneirismo do programa na pós-graduação stricto sensu no Paraná e sua contribuição histórica para o desenvolvimento científico e acadêmico do Estado e do país.
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