Pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) agora contam com diferentes caminhos para a importação de insumos e equipamentos científicos. Estruturadas pela Fundação da Universidade Federal do Paraná (Funpar), as rotas reúnem alternativas previstas na legislação brasileira e ampliam a previsibilidade para projetos de ensino, pesquisa e extensão que dependem de materiais importados.
Os estudos para novas possibilidades começaram entre outubro e novembro de 2025, após a rápida utilização da cota anual de importação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O trabalho foi aprofundado em 2026, com a análise de alternativas nas áreas jurídica, tributária, de compras, execução e prestação de contas.
Para o superintendente da Funpar, Edemir Maciel, a iniciativa partiu da necessidade de reduzir a dependência da cota do CNPq.
“A Universidade já tem uma imunidade tributária pela própria natureza dela, mas a Funpar não. A Funpar, até então, dependia única e exclusivamente da cota de importação. Essa dependência levava a não adquirir equipamentos, insumos e, muitas vezes, a prejudicar os projetos”.
Segundo Edemir, a decisão interna da Fundação envolveu equipes de diferentes áreas para a identificação de alternativas para os processos de importação.
“A gente decidiu dedicar equipes da área jurídica, do setor de compras, do setor de execução e de prestação de contas para identificar caminhos que levassem a ficarmos menos dependentes dessa cota de importação do CNPq”.
Em 2025, a Funpar realizou mais de 150 processos de importação, com mais de R$10,5 milhões em aquisições de insumos e equipamentos destinados a 61 projetos. A diversificação dos caminhos representa maior previsibilidade para coordenadores de projetos que dependem de materiais importados.
Edemir conta que, “na medida em que a Funpar fica menos dependente da cota de importação do CNPq, a Universidade também fica”. Segundo ele, “essas rotas que a Funpar identificou possibilitam hoje uma estabilidade para os coordenadores de projetos que dependem de equipamentos e insumos importados.”
Entre as possibilidades está a Lei da Não Similaridade, aplicada a bens sem fabricação nacional. Atualmente, a Lista de Equipamentos Similares Sem Produção no Brasil (LESSIN) reúne mais de 29 mil itens passíveis de importação por esse mecanismo.
As rotas contemplam diferentes modalidades de aquisição, e a definição do caminho varia conforme o perfil de cada compra, com maior previsibilidade para a aquisição de materiais essenciais às pesquisas.
“Essas novas rotas de importação trazem a confirmação de que existem caminhos legais para enfrentar um dos gargalos presentes na vida dos pesquisadores: a burocracia da importação. A UFPR, junto com a Funpar, conhece esses caminhos e sabe como executá-los para que nossos laboratórios não parem”, afirma Marcos Sunye, reitor da UFPR.
Para Edemir, a organização das rotas também representa uma divisão de responsabilidades entre a Fundação e a Universidade.
“Essa divisão de papéis é o que permite que a universidade se concentre na missão acadêmica enquanto a fundação trabalha na execução”. Ele conta que, no processo, foram mapeados “procedimentos modernos, considerando as normas da administração pública e a equação de economicidade e velocidade para nossos pesquisadores.”
O superintendente também destaca a importância da atuação conjunta entre as instituições para a execução das rotas.
“Embora a iniciativa da Funpar tenha partido da necessidade de diminuir a dependência da cota do CNPq, a implementação dessas rotas só será exitosa com a articulação conjunta da Universidade e da Fundação. A parceria entre a Proad, a PRPI e a Funpar, na execução do dia a dia, com suas equipes técnicas, é o que de fato fará com que essas rotas sejam reais e exitosas, como já são.”
Um dos primeiros resultados desse modelo se deu com o Laboratório Multiusuário de Ressonância Magnética Nuclear (RMN), do Departamento de Química da UFPR. A aquisição de um espectrômetro portátil de baixa resolução foi concluída em apenas duas semanas.
“A experiência foi extremamente satisfatória. Todo o processo ocorreu de forma muito simples e eficiente. O que mais chamou a atenção foi a rapidez, pois a importação foi concluída em apenas duas semanas. Antes, esse mesmo processo podia levar até seis meses”, afirma o professor Anderson Barison.
Segundo o pesquisador, além da redução do tempo de espera, a importação direta também representa economia. “Esse novo modelo estimula o pesquisador, pois permite que a pesquisa tenha continuidade sem longas interrupções. Além disso, incentiva a importação direta, já que o custo pode representar apenas 30% a 40% do valor do mesmo produto nacionalizado.”


O equipamento será utilizado no desenvolvimento de métodos para identificação de bebidas adulteradas ou falsificadas.
As novas alternativas também atendem pesquisas em outras áreas da Universidade. No Departamento de Farmacologia, a professora Quelen I. Garlet utilizou uma das modalidades administradas pela Funpar para importar, com recursos da Fundação Araucária, um equipamento de análise comportamental de impulsividade motora em camundongos.

A necessidade de processos mais ágeis também integra a rotina do Centro de Microscopia Eletrônica da UFPR. Atualmente, um dos microscópios do laboratório permanece inoperante enquanto aguarda a importação de uma placa eletrônica avaliada em cerca de R$ 30 mil.
Segundo o diretor do Centro de Microscopia Eletrônica, Leonardo Evangelista Lagoeiro, atrasos como esse comprometem pesquisas e a formação de estudantes. “Na prática, isso significa que um equipamento analítico de altíssimo desempenho permanecerá inoperante por vários meses. O impacto é enorme: dezenas de projetos de pesquisa, dissertações, teses e serviços prestados à comunidade científica e ao setor produtivo ficam comprometidos.”
Um dos projetos beneficiados pelas novas rotas é o “Robalo em Gaiolas: Blue Economy e Sustentabilidade”, desenvolvido pelo Centro de Estudos do Mar (CEM). A pesquisa envolve duas frentes principais: a produção de peixes, coordenada pelo professor Fabiano Bendhack em conjunto com outros pesquisadores, e o monitoramento ambiental das áreas onde as gaiolas serão implantadas, sob acoordenação da professora Silvia Melegari e de outros pesquisadores. O professor Bendhack é o responsável pela Coordenação Geral do projeto.



A pesquisa utiliza equipamentos importados para estudos voltados à produção sustentável do robalo, espécie nativa da costa brasileira. Entre os equipamentos estão um drone anfíbio para monitoramento de cardumes, um estereomicroscópio de alta resolução e um detector para ampliação da capacidade de análise da qualidade da água no Laboratório de Água e Esgoto (LAE-UFPR).

Para o coordenador do projeto, Fabiano Bendhack, o acesso a essas tecnologias amplia a capacidade científica da Universidade.
“Mais do que importar equipamentos, a universidade está importando oportunidades de produzir conhecimento, formar recursos humanos altamente qualificados e desenvolver tecnologias que poderão posicionar o Paraná como referência nacional na produção sustentável de espécies marinhas nativas.”
O novo detector também permitirá análises simultâneas de Carbono Orgânico Total (TOC) e Nitrogênio Total (TN), com redução do tempo de monitoramento e menor geração de resíduos.
Segundo a professora Silvia Melegari, coordenadora do Laboratório de Água e Esgoto (LAE-UFPR), a tecnologia representa um avanço para o projeto.
“Essa inovação transforma nossa capacidade laboratorial. Conseguimos quantificar parâmetros importantes da qualidade da água em poucos minutos, avaliar com precisão o impacto dos nutrientes e da alimentação dos peixes no ecossistema ao redor das gaiolas e utilizar uma metodologia ecológica, segura e livre do uso de ácidos perigosos.”
Para o pró-reitor de Pesquisa e Inovação da UFPR, Ciro Ribeiro, a consolidação das rotas fortalece a capacidade da Universidade de desenvolver pesquisas de alto nível. “Vários dos nossos projetos dependem de insumos e equipamentos do exterior. Ter rotas conhecidas, documentadas e executáveis é o que mantém a nossa pesquisa em condições competitivas”, disse.
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